Taleban ilustra graficamente o que o bolsonarismo pretende para o Brasil, por Cesar Calejon

Hoje, o grupo radical que assumiu o controle do Afeganistão oferece o exemplo mais gráfico do que o bolsonarismo quer para o Brasil no futuro, dadas as devidas idiossincrasias de ambos os países em termos históricos e culturais

Foto: Marcos Corrêa/PR

por Cesar Calejon*

Horrorizado, o mundo assistiu durante a última semana às cenas dantescas que a trágica combinação entre dogma religioso, elitismo histórico-cultural (nesse caso entre as diferentes etnias que formam o povo afegão) e um grupo que governa sob o signo de uma teocracia miliciana é capaz de produzir na ausência de instituições democráticas legítimas capazes de efetivamente moderar o exercício do poder.

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Hoje, o grupo radical que assumiu o controle do Afeganistão oferece o exemplo mais gráfico do que o bolsonarismo quer para o Brasil no futuro, dadas as devidas idiossincrasias de ambos os países em termos históricos e culturais.

Apesar dessas diferenças, três similaridades, sobretudo de forma ainda mais aguda a partir de 2016 no caso brasileiro, chamam a atenção nesse sentido: (1) a ingerência de forças estrangeiras na vida social, política e econômica de ambos os países, (2) a fragilidade das instituições democráticas nacionais para garantir o respeito a diversidade e objetivar a emancipação das suas populações e (3) os dogmas religiosos, que são defendidos por milícias armadas, no cerne da vida sociopolítica e econômica das duas nações.  

No que tange o primeiro ponto, cabe iniciar a análise ressaltando o que o Afeganistão e o Brasil têm em comum: a importância de ambos os países na disputa geopolítica global.

O primeiro está localizado em uma área estratégica para o controle do Oriente Médio, região extremamente rica em recursos naturais e ponto de contato entre a Ásia, a África e a Europa, e o seu território foi crucial para o estabelecimento da Rota da Seda, por exemplo.

Dados publicados recentemente apontam que os Estados Unidos e as forças da OTAN gastaram cerca de US$ 300 milhões por dia ao longo dos últimos vinte anos para manterem o controle do país, valor que ultrapassou os US$ 2,5 trilhões nesse período. Imagine se a China gastasse algo similar para manter o território de Porto Rico ocupado, por exemplo.  

Ao que tudo indica, quando as forças dessa coalizão perceberam que estavam imersas em uma contenda que simplesmente não poderia ser vencida e o investimento militar seria muito superior ao montante dos recursos que poderiam ser usurpados do povo afegão, um acordo foi firmado entre a gestão Trump e o Taleban para a retirada das tropas ocidentais.

Após convulsionar toda a estrutura sociopolítica e explorar o país por duas décadas, os Estados Unidos e os seus aliados simplesmente se retiraram deixando equipamentos de guerra e antigos colaboradores sem nenhuma proteção à mercê do Taleban.

No Brasil, que é o principal país da América Latina no que se refere tanto à macroestrutura econômica quanto à capacidade de oferecer recursos estratégicos e minerais, os Estados Unidos não precisaram promover uma invasão militar por terra.

Bastou subverter as regras do jogo democrático com a anuência de setores da mídia, do Judiciário e de parte da população, por meio do ativismo judicial que se materializou na figura da infame Operação Lava-Jato para desmontar a economia local, e impedir que o principal candidato em intenção de votos concorresse à Presidência da República em 2018 para assumir o controle geopolítico do país. Abordagem similar será implementada em 2022, muito provavelmente.

Com relação ao segundo ponto, no que diz respeito à fragilidade das instituições nacionais e a capacidade de estabelecer limites republicanos, o Taleban diz abertamente que não pretende adotar o regime democrático para que o povo possa escolher os seus líderes por meio de sufrágio universal.

Um dos principais porta-vozes do grupo salientou que as mulheres, que são percebidas como seres inferiores aos homens nesse contexto, serão novamente submetidas à lei da Sharia. Qualquer coincidência entre Jair Bolsonaro afirmar, ainda antes de ser eleito, que a sua única filha nasceu mulher porque ele deu “uma fraquejada” no momento da concepção, não é mera coincidência.

Ainda essa semana, Eduardo Bolsonaro utilizou as suas redes sociais para ressaltar que o Taleban estava “(…) dando lição de moral no Facebook – e com razão!”, por conta das proibições que a rede social vem realizando na tentativa de evitar a propagação de discursos de ódio ou medo.

O bolsonarismo e o Taleban vivem de adotar e promover estratégias muito similares nessa direção. Com instituições democráticas fortes, que sejam capazes de garantir a soberania da escolha popular por meio do voto e coibir o uso do ódio e do medo como plataformas políticas, nenhum desses dois grupos podem sobreviver.

Por fim, com relação ao dogma religioso no cerne da vida pública de ambos os países, essa semana o presidente brasileiro, por mais incrível que pareça, afirmou em alto e bom som que a inflação e o desemprego podem ser superados com “fé e crença”.

No caso do Taleban, a fé e a crença estão circunscritas ao que o grupo armado determina como verdade absoluta para a população afegã. Qualquer discordância ou questionamento resulta em execução sumária, quase invariavelmente.

Assim, a lição que podemos retirar nesse caso é a de que as democracias legítimas não podem ser impostas por meio da força, seja ela perpetrada por grupos estrangeiros, nacionais ou uma combinação de ambas. Elas precisam ser estabelecidas e mantidas por meio do pensamento crítico e livre de uma população e do pleno funcionamento laico das instituições que esse modelo de sociabilidade produz, consequentemente.

Caso falhemos nessa medida, grupos como os bolsonaristas e os guerreiros do Taleban serão ainda mais abundantes no Brasil e no Afeganistão e esses países se tornarão cada vez mais intolerantes e fechados para a própria riqueza e diversidade dos seus respectivos povos, o que anula a possibilidade de promover qualquer emancipação popular e de efetivar os reais potenciais dessas pátrias em todos os sentidos.         

*Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP – EACH), e escritor, autor dos livros A ascensão do bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

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