TV GGN 20h: 300 mil mortes e um presidente que não muda

Confira o comentário diário de Luis Nassif sobre os últimos acontecimentos na política e na economia do Brasil nesta quarta-feira, 24 de março

Jornal GGN – A edição desta quarta-feira da TV GGN 20 horas começa com a falta de dados da covid-19 no Brasil, além da tentativa do governo federal de criar um conselho para combater a covid-19.

“Hoje teve aquela tentativa de criar um Conselho da República, aquela reunião dos Três Poderes – estava o Supremo, o presidente da Câmara, o presidente do Senado, Jair Bolsonaro, o novo ministro da Saúde… e todo mundo toureando o louco”, diz Nassif. “O que faz o Bolsonaro? O Bolsonaro, primeiro, não chama os governadores – chama só o (Ronaldo) Caiado, que é aliado dele, e diz que a interlocução com os governadores será feita pelo presidente do Senado”

Depois disso, Bolsonaro insiste com o tratamento alternativo, aliado ao pronunciamento do novo ministro da Saúde (Marcelo Queiroga) de que “esse negócio de lockdown tem que ir aos poucos” – em um país onde tem praticamente todas as UTIs ocupadas. “Então, o Bolsonaro se manteve no mesmo lugar (…) Essa guerra com os governadores é pra ele ter um álibi para agitar os seguidores, ele aparentemente agora começa a ficar cercado de todos os lados e só tem os seguidores”

“Ainda mais com a entrada do Lula em campo, ele só vai ter os seguidores para se sustentar em 2022”, diz Nassif. “O que ele (Bolsonaro) vem fazendo desde o começo: fala um monte de asneira, toma um monte de atitude besta, daí faz um pequeno desmentido e acha que tá tudo resolvido. São 300 mil mortes”.

Nassif destaca o discurso do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) e um dos líderes do Centrão, “em que muda totalmente o enfoque da maneira como Bolsonaro vai se relacionar com os poderes”.

“Não vamos aqui continuar votando e seguindo um protocolo legislativo com o compromisso de não errar com o país, se fora daqui erros primários, erros desnecessários, erros inúteis, erros que não são muito menores do que os acertos cometidos continuarem a ser praticados”, diz Lira em seu pronunciamento.

“A política é cruel, e a busca por culpados, sobretudo em momentos de desolação coletiva, é um terreno fértil para produção de linchamentos. Por isso mesmo, todos tem que estar mais alertas do que nunca pois a dramaticidade do momento exige”, ressalta Lira.

“A razão não está de um lado só. Com certeza os erros não estão de um lado só. Sem dúvida, mas acima de tudo, os que tem mais responsabilidade tem maior obrigação de errar menos, e se corrigir mais rapidamente, e de acertar cada vez mais”, afirma Arthur Lira.

“Dentre todas as mazelas brasileiras, nenhuma é mais importante do que a pandemia. Esta não é a casa da privatização, não é a casa das reformas, não é nem mesmo a casa das leis”, diz Arthur Lira. Segundo Nassif, “ele (Lira) coloca essas maluquices do Paulo Guedes de querer jogar as reformas em segundo plano. O que ele colocou foi um alerta óbvio ao Bolsonaro: se não se enquadrar, a Câmara adota o remédio amargo”.

De acordo com Nassif, o remédio amargo é o impeachment e a instalação de uma CPI. “O Bolsonaro é um primário, um primata que passaram a fórmula para ele de como envolver outros primatas – o gado, como o pessoal diz. E ele não tem outro bordão”.

“Então, como dizia o filho (Eduardo Bolsonaro), ‘se eles querem que meu pai mude o discurso para ele ficar sem seguidores’. Então, ele não vai mudar o discurso. Ele não tem alternativa – ele (Bolsonaro) tentou um golpe nesse período, não deu certo. Militarizou todo o governo e tem esse vexame do Pazuello – que hoje o Ricardo Lewandowski jogou o processo do Pazuello para a primeira instância. Pazuello vai terminar preso”.

“E ele (Pazuello) foi apresentado desde o início como grande gestor, como modelo de ‘CEO militar’ e mostrou o primarismo (…) E o novo ministro, aparentemente, vai retomar aqui o que fazia o Mandetta lá trás, as sessões periódicas para prestar contas e tudo. O Conselho Federal de Medicina, que tem uma responsabilidade grande nesse negócio de tratamento alternativo, já voltou atrás (…) Esses médicos tem que ser punidos”

“Quando você pega o ministro, o que ele vai fazer: o ministro vai tentar implantar, sem falar, vai tentar dar um drible da vaca no Bolsonaro – ele fala A e faz B. Mas não tem jeito”, explica Nassif. “Hoje, a própria Fiocruz sugeriu 14 dias de lockdown total. E o ponto central do lockdown é a palavra da Presidência da República. A Presidência da República, mesmo estando nas mãos de um imbecil, é a voz mais potente da nação”.

Nassif explica sobre uma das bases do bolsonarismo: o lump in – “o lump in é aquela classe média, o cara que se sente classe média não sendo classe média, ou até sendo classe média. Um imbecil. (O lump in) é aquele cara que entra em uma roda e não consegue sustentar uma discussão. É esse pessoal que pega setores da classe B, uma parte do empresariado mal informado também, e pega essa classe média de cidades menores e de periferia”.

“E o cara se sente empoderado (…)”, diz Nassif, dando como exemplo o caso da roda de música em que cada um tem um talento específico, e aquele cara que não tinha nada falava palavrão. “O que você fazia? Ignora. Digamos, é um perfil desse tipo de bolsominion é esse, ele queria rolo”.

“E aí ele (o lump in) vai aumentando o tom, você não dá atenção, porque ele não consegue se inserir em um ambiente em que os predicados sejam algum talento, a educação, o papo espirituoso. Ele é o tosco. Começa a aumentar o tom até que vem o dono do boteco e manda ele embora”, ressalta Nassif.

“Esse tipo de personagem que surge em 64 – eu já mencionei um estudo que foi feito sobre o discurso do (Carlos) Lacerda, que era muito mais inteligente do que essa ultradireita de agora. Ele dava um conjunto de argumentos que a pessoa levava para dentro de casa. Então, digamos, esse discurso do bolsonarismo vai todo para dentro de casa (…)”.

“Então, isso contaminou todos os ambientes e deu um protagonismo político para um pessoal que era o lump in. É sobre esse pessoal que as igrejas pentecostais avançam também”, diz Nassif. “Não dá para você culpar o gado. O gado é gado porque ninguém ensinou ele a não ser gado. E é esse pessoal que foi deixado de lado pelos sindicatos, eles são fundamentalmente individualistas. E as igrejas entram nesse pessoal”.

“E aí o discurso bolsonarista entra de cabo a rabo. E esse negócio de você estar no mesmo grupo que recebe informações (…) Essa maneira que o pessoal se sentiu para se fortalecer é a distorção da distorção, mas foi um jogo muito interessante do Olavo de Carvalho”, pontua Nassif. “O Olavo de Carvalho tornou todo fracassado um vitorioso, é só pegar o ex-ministro da Educação, esse chanceler. Ele (Carvalho) fala o seguinte: você não é um imbecil, as pessoas é que não te compreendem”.

“Então, aquilo que você fala é o correto, as pessoas que não tem compreendem, então você tem que fortalecer aquilo que você fala. E daí eles falam todas as batatadas da vida (…)”, diz Nassif sobre o discurso de Carvalho. “Só que agora a gente tem esse quadro dantesco de 300 mil mortes. Então, por isso, esse pronunciamento do Lira é o fato político mais importante – não é aquele jogo de cena que ocorreu hoje (…)”

Reunião do STF e imprensa

Sobre a sessão do STF nesta terça-feira, Nassif diz que “a desproporção do novo ministro, Kassio Nunes, e o Gilmar Mendes e o Lewandowski é chocante. O Gilmar acabou com o cara. Quando ele (Nunes Marques) fala do habeas corpus, os outros ministros acabaram com ele (…) Em suma, desmoralizaram o conhecimento jurídico dele (…)”.

Ao comparar a cobertura do Jornal Nacional e da GloboNews sobre o discurso de Gilmar Mendes, Nassif afirma que “você tem valores no jornalismo e na notícia independentemente de linhas políticas”.  

“Naquelas duas conversas, você não pode dar um peso maior para o Kassio e menor para o Gilmar. Isso não é notícia. Você atropelou, não seguiu critérios jornalísticos porque era gritante a diferença de peso entre um e outro”, ressalta Nassif. “Esse negócio de colocar a opinião pública para julgar temas jurídicos virou desmoralização”.

Nassif também destaca o debate que envolve o trabalho na era das mídias digitais, em especial sobre como a uberização destruiu o trabalho, com participação de Paulo Galo, do grupo Entregadores Antifascistas.

“O capitalismo fabrica a doença para te vender a cura, produz o problema para te vender a solução e o capitalismo é muito engraçado: ele precisa ficar se mantendo, criando formas de se reinventar para continuar existindo”, diz Galo. “A pandemia provou isso pra gente. O capitalismo disse para todo mundo ‘se vocês não saírem para a rua para morrer, quem vai morrer sou eu (o capitalismo)’ E como a gente está anestesiado, a gente não percebe o que está acontecendo”

“A anestesia não pega mais em mim, eu sou fã da minha dor. Eu sou amigo da minha dor (…) Se tem uma coisa que ninguém tira de mim é isso, é meu. E é isso o que eu tento passar para os outros trabalhadores e trabalhadoras. É seu”, afirma Galo.

“O que está acontecendo é o seguinte: sem um sindicalismo forte, você não tem uma economia forte”, afirma Nassif. A íntegra do debate pode ser vista clicando aqui – 

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