Uma análise do golpe militar e os saudosistas de 1964; por Sônia Aranha

Elementos históricos sobre os 50 anos do golpe militar de 1964 e os saudosistas de 2014.

Do blog de Sônia Aranha

 

 

Transcrevo aqui o texto original de uma entrevista que a doutora em sociologia e professora aposentada da PUC Campinas, Doraci Lopes, concedeu a Band.com. Segundo a autora, a análise abaixo está cheia de lacunas, mas mesmo assim considerei importante socializá-lo.

Elementos históricos sobre os 50 anos do golpe militar de 1964 e os saudosistas de 2014.

Por: Doraci Alves Lopes – Dra. Sociologia, Profa. Titular aposentada PUC-Campinas. 31 de março de 2014

1964

O golpe militar de 1964 não aconteceu por causa do discurso de João Goulart, mas este expressa um conjunto de propostas de Reformas para o país que as classes trabalhadoras estavam amadurecendo ao menos uma década antes. Trata-se de um período de ruptura com o pacto populista, vigente no país de 1930 até 1964.

O pacto político populista estava baseado na estratégia de desenvolvimento capitalista nacional, autônomo, desde 1930, o que facilitava um ‘esforço nacional’ de colaboração entre as classes sociais. O Plano de Metas do período de JK, a construção de Brasília, são símbolos deste período e uniam tanto forças sociais comprometidas com o capitalismo nacional como forças comprometidas com o socialismo nacional.

Os movimentos sociais, resultados destas forças sociais, defendiam a nacionalização de empresas estrangeiras, a estatização da economia nacional, reforma agrária, reforma da educação, no sentido de ter acesso e ampliar os direitos da cidadania, em movimentos operários, agrários, estudantis, para citar os principais.

Mais da metade da população vivia no campo em 1964, com um contraste brutal de condições de vida no campo e cidade, sem falar na inflação que corroia os salários. A modernização da produção agrícola desempregava e o fluxo de migração do campo para a cidade era enorme, rebaixando o valor do preço da mão de obra urbana, o que estimulava apoio e pressões das classes trabalhadoras ao governo João Goulart, que defendia uma estratégia de desenvolvimento autônomo, nacional. Apesar da dívida externa, administrável, e da inflação, segundo vários autores clássicos da economia brasileira, o Brasil estava em um processo de crescimento econômico comparável aos países centrais, com taxas médias anuais de 8% entre 1930 e 1964.

Esta construção de autonomia política das classes trabalhadoras evidenciava uma ruptura do ‘pacto populista’ e a sociedade brasileira teria que optar por reformas sociais democráticas e lutar contra o imperialismo capitalista, questões claramente colocadas pelas forças sociais nacionalistas e socialistas.

Mas no plano internacional, a guerra fria vicejava, dividindo o mundo entre o projeto político de esquerda e o projeto político capitalista. A hegemonia econômica no mundo dos EUA após a segunda guerra mundial pressionava por mudanças no modelo capitalista e parte das elites nacionais passou a defender a estratégia de desenvolvimento associado, ou dependente, desejando tornar-se ‘sócia menor’ do capital internacional, que já se desenhava na expansão da indústria automobilística, como ‘carro chefe’ da economia do país.

A entrada massiva de capital estrangeiro na economia ‘deslocou’ (segundo Francisco de Oliveira) o lugar político da burguesia nacional, que perdeu forças diante da burguesia internacional que investia no país. Portanto, construiu-se uma nova aliança de classes, com uma opção política clara sobre qual estratégia de desenvolvimento se priorizaria: a do capitalismo associado ou dependente em detrimento da estratégia de desenvolvimento nacional e dos interesses políticos das classes trabalhadoras, estudantes e intelectuais.

O discurso que sustentou esta nova aliança de classes para defender o modelo de expansão imperialista no Brasil veio na forma de ‘anticomunismo’, de defesa de Deus, da pátria, da propriedade e da família, contra a ‘corrupção’. Mobilizou principalmente setores das classes médias e arrastou pelas ruas uma cultura de ódio aos valores da democracia, aos movimentos sociais, às suas reivindicações, favorecendo os setores que já preparavam o golpe de 1964, inclusive com assessoria de técnicos estrangeiros como sabemos pela vasta literatura produzida sobre a ditadura militar.

2014, 50 anos depois

Não parto da idéia de ‘movimento social’ sobre o que aconteceu em 2014, conceito que pressupõe ter um projeto político definido, organizado, público e de massa.  A ‘marcha’ de 2014 não chegou a mil pessoas em todo o país, segundo a própria grande mídia, mas esta mídia comete um grande erro ao nomear estes grupos de ‘movimento’.

São grupos de inspiração antidemocráticos, com pouca clareza na defesa de seus objetivos, que é o de derrubar o governo do PT (e a coligação de partidos políticos que o sustenta), através de um ‘golpe civil ou militar’, como alguns entrevistados colocaram. Embora tenhamos visto parcos representantes de várias gerações nas ruas, o que chama atenção é a presença de muitos jovens sem conhecimento da história do país, quando indagados sobre o golpe de 1964 e suas conseqüências, política, social, econômica e cultural.

Nem as manifestações de junho de 2013 podem ser chamadas de ‘movimentos sociais’, a não ser o movimento do passe livre que existia antes e continua existindo até o momento. As manifestações juvenis infelizmente não produziram uma agenda política organizada de interesses para uma continuidade enquanto movimento social, com pautas definidas para dar DIREÇÃO às manifestações públicas. O que não pode acontecer evidentemente fora de instituições políticas, os partidos e entidades de classes, estudantis, operárias, etc.

Penso que as manifestações de 2014 a favor de um novo golpe militar que merecem ser acompanhados não estão nas ruas. Estão em discursos de militares da ativa ou da reserva, saudosos dos tempos da ditadura. Estes estão utilizando argumentos muito semelhantes aos de 1964, ‘corrupção do executivo e do legislativo’, ‘avanço das esquerdas’, ‘perigo de golpe comunista’.Vejamos um exemplo, o Foro São Paulo, que reúne organizações de esquerda da América Latina e Caribe foi alvo de críticas por parte do General Marco Antonio Felício da Silva, na revista da Sociedade Militar, que acusa o Foro de preparar um golpe de Estado no Brasil e o Programa Bolsa Família seria um dos meios para se atingir este objetivo. Ver em http://www.folhapolitica.org/2014/01/general-afirma-que-brasil-esta-prestes.html

Atualmente estamos em um contexto de desenvolvimento do país com praticamente pleno emprego, com baixas taxas de crescimento econômico, mas com uma dinâmica expansão de mercados internos em vários estados brasileiros, associados a aumento de consumo das classes trabalhadoras. Sem falar no conjunto de políticas públicas que avançaram em termos de ampliação dos direitos sociais na última década, fruto de movimentos sociais diversos.Lembramos que estamos passando por um cenário de crise mundial que dura há anos, e com altas taxas de desemprego na Europa e EUA, com perdas contínuas de direitos sociais, distúrbios sociais diários nas ruas, devido aos ajustes neoliberais realizados pelos governos destes países contra as classes trabalhadoras.

A grande questão que se coloca é a existência de setores políticos conservadores insatisfeitos com a possibilidade de perder as eleições presidenciais de 2014, incomodados com a expansão das políticas públicas que, apesar de todas as dificuldades e limitações ainda existentes, estão voltadas para as classes trabalhadoras. O governo do PT, em composição com os partidos aliados, é visto como uma grande ameaça ao projeto político de desenvolvimento neoliberal que aspira retornar ao poder. A trajetória de continuidade de poder político do projeto democrático e popular do PT conquistado nas urnas, e que tem potencial para dar seqüência em 2015, aguça discursos pró-golpe contra o Estado nacional.

Segundo a Revista Sociedade Militar ainda não há indícios de golpe militar, não acredita que o militares se manifestarão sobre o tema, mas afirma saber da existência de um abaixo assinado com ‘milhares de assinaturas’. Acredita que dependendo do alcance público deste documento será possível demonstrar a grande insatisfação dos militares contra o PT, com possibilidade de perda de seu ‘status político’ no plano internacional. Como podemos perceber, na mesma Revista militar, há posições políticas distintas entre si.

http://sociedademilitar.com.br/index.php/textos-de-colaboradores/413-golpe-militar-iminente-abaixo-assinado-pedindo-a-volta-dos-militares-ja-incomoda.html

Assim como vemos dificuldades programáticas dos partidos de oposição ao governo que se apresentam para as próximas eleições, ao menos até o momento. Parte da composição destes partidos tem feito coro aos discursos de golpe de Estado, como é o caso do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/03/1430637-alves-derruba-pedido-de-jair-bolsonaro-para-homenagear-golpe-de-1964.shtml

Só o processo eleitoral e a correlação de forças dos projetos políticos da situação e da oposição para o Brasil nos trarão elementos para continuar pensando os desafios da questão democrática entre nós, sem perder de vista o contexto mundial e em especial o da América Latina.

 

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