Xadrez do início do jogo pós-Bolsonaro, por Luis Nassif

O recuo foi recebido como um gesto de racionalidade, uma rendição à razão. É evidente que não. Não há a menor chance de que ceda à razão, especialmente agora que levou para dentro do Palácio seu heterônimo mais desequilibrado, o filho Carlos.

Peça 1 – Bolsonaro, o tigre desdentado

Coube ao Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta mostrar o tigre desdentado em que Jair Bolsonaro se transformou, em sua insistência em minimizar a crise do coronavirus.

Enfrentou-o, quando sua irresponsabilidade ameaçou desmontar a quarentena. Bolsonaro não conseguiu trocá-lo pelo terraplanista Contra-Almirante Antônio Barras Torres, atual presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). E manteve-se no centro das entrevistas, mesmo quando tentaram relega-lo a um segundo plano, em função da enorme mediocridade de seus companheiros de Ministério.

O pronunciamento de Jair Bolsonaro, ontem à noite, comprova seu total isolamento junto às instituições, ao seu próprio governo e à opinião pública. De repente, admitiu que a “gripezinha” é uma doença e tanto, conclamou à união nacional, anunciou as medidas inócuas que está tomando e deturpou declarações do diretor da Organização Mundial da Saúde, como já havia feito na parte da manhã.

No meio da tarde, notícias de Brasília davam conta de que ele havia chorado na frente de interlocutores não tão íntimos assim, e fora buscar apoio em militares, especialmente no general Villas Boas.

O recuo foi recebido como um gesto de racionalidade, uma rendição à razão. É evidente que não. Basta analisar o histórico de Bolsonaro. Ele sempre vai até o limite. Quando percebe que entrou em um beco, aparenta um recuo para voltar novamente. Não há a menor chance de que ceda à razão, especialmente agora que levou para dentro do Palácio seu heterônimo mais desequilibrado, o filho Carlos.

No Palácio, o único ponto de apoio continua sendo a inacreditável AGU (Advocacia Geral da União), que justificou seu passeio pela cidade, como “direito de ir e vir assegurado pela Constituição”.

Nesse momento, Bolsonaro é uma figura meramente decorativa. Com seu recuo, deixou órfãos nas redes sociais que, até ontem, se baseavam em sua palavra para minimizar o perigo.

Peça 2 – um Ministério mambembe

Nem se considere o grupo dos idiotas – os Ministros da Educação, da Família, das Relações Exteriores. Os dois Ministros considerados âncoras do governo – Paulo Guedes, da Economia, e Sérgio Moro, da Justiça – demonstraram, na coletiva de ontem, uma ampla, total, acachapante incompetência.

Até hoje Guedes não conseguiu viabilizar sequer os R$ 600 às pessoas na faixa da pobreza. Ontem, ao mesmo estilo Rolando Lero (o inesquecível personagem de Chico Anísio) explicou que a liberação dos recursos dependia de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição).

Imediatamente foi desmentido por Bruno Dantas, Ministro do TCU (Tribunal de Contas da União): “Usar a “regra de ouro” – escrita na Constituição para tempos de normalidade – como pretexto para atrasar a destinação emergencial de renda mínima já aprovada pelo Congresso de R$600 a idosos, pessoas com deficiência e trabalhadores informais não é simples omissão. É ação. E grave”.

Também foi desmentido por Felipe Saito, diretor-executivo da IFI BR (Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado): “Guedes está errado. Não se precisa de PEC para pagar o benefício de R$ 600, mas de uma MP. Fonte: dívida. Se a regra de ouro for rompida, um PL para que o Congresso autorize o rompimento. Vale lembrar: a regra de ouro já vem sendo rompida com autorização do Congresso há 2 anos”.

Até o pronunciamento de Bolsonaro, à noite, o estímulo para as pessoas voltarem ao trabalho era uma maneira de ocultar a incompetência do governo em fazer o dinheiro chegar às mãos dos desassistidos.

As explicações de Guedes escancararam a rotunda incompetência da área econômica em administrar a crise. Ainda não definiram uma fórmula minimamente eficiente para estimular a oferta de crédito dos bancos. Jogaram dinheiro nos bancos, com liberação do compulsório, mas não reduziram o risco de crédito até agora. O dinheiro ficará empoçado.

Na mesma coletiva, Guedes só foi superado por Sérgio Moro. Anunciou medidas pífias, de isolamento de presos. E garantiu que não há nenhuma vítima do coronavirus nos presídios. Só quando os corpos começarem a amontoar nas galerias dará o braço a torcer;

Peça 3 – consequências políticas

Conforme venho dizendo, o governo Bolsonaro acabou. Nos próximos dias, mais pessoas pularão do barco, aumentará a coragem dos representantes das demais instituições e será menor a blindagem, na apuração da morte de Marielle.

Os grupos começam a se rearticular se posicionando em relação à nova realidade trazida pelo coronavirus.

Para a fase de transição, no momento há dois personagens centrais.

Um deles é Rodrigo Maia, presidente da Câmara, que assumiu um papel de excepcional maturidade para enfrentar as loucuras de Bolsonaro. Outro é o vice-presidente general Hamilton Mourão, que ontem soltou um tuite em defesa do regime militar de 1964, provavelmente procurando galvanizar a insatisfação militar contra Bolsonaro.

Para a fase posterior, há um movimento em todos os lados, com os jogadores se posicionando, mas sem tomar posição definitiva. E uma tentativa de voltar à polarização pré-Bolsonaro, entre a centro-esquerda, representada pelo PT, e a centro-direita do PSDB mas, agora, com o caos trazido pelo coronavirus, outros grupos se jhabilitando.

Ontem, saiu um manifesto pedindo o impeachment de Bolsonaro, assinado por quatro lideranças expressivas da oposição – Fernando Haddad, Ciro Gomes, Flávio Dino e Guilherme Boulos. No momento seguinte, no entanto, Ciro voltou a atacar o PT.

O PT, diversas universidades federais, o grupo de Ciro Gomes, o pessoal do Armínio Fraga e Pérsio Arida, todos estão tirando sugestões da gaveta e apresentando o que consideram saídas para a crise. Como quem implementa medidas é governo, não a oposição, fica óbvio que estão esquentando o motor para a próxima disputa política.

Na Globo, há um empenho feroz em repaginar a imagem dos economistas que, nesses anos todos, forneceram o discurso legitimador do desmonte do Estado brasileiro.

Mas, provavelmente, assim como enterrou a era dos justiceiros, o coronavirus irá enterrar a era dos economistas. Entram em cena os sanitaristas, Certamente Luiz Henrique Mandetta torna-se peça relevante no jogo.

De qualquer modo, são movimentos ainda muito incipientes. O acordo para por fim ao governo Bolsonaro será o local para o primeiro ensaio do pacto. Por ali se terá ideia se será um pacto amplo ou um pacto miúdo.

 

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