Covid-19 – Ajustando e renovando o alerta para 30/4, por Felipe A. P. L. Costa

Em sã consciência, ninguém faz uma projeção dessas para acertar. A vitória aqui vem quando se erra.

Covid-19 – Ajustando e renovando o alerta para 30/4.

por Felipe A. P. L. Costa [*]

Resumo. Este artigo atualiza o balanço e as projeções que fiz em artigo anterior envolvendo a pandemia da Covid-19 no âmbito exclusivo do nosso país. De hoje (16) até o próximo dia 30/4, a depender da manutenção de medidas efetivas de distanciamento social, as estatísticas nacionais deverão totalizar entre 69 mil e 259 mil casos e entre 4,2 mil e 16 mil mortes. Projeções como as que constam deste artigo devem ser vistas como alertas. Em sã consciência, ninguém faz uma projeção dessas para acertar. A vitória aqui vem quando se erra. Quando a ação coordenada de autoridades e da sociedade civil organizada conseguem puxar os números finais para baixo e as projeções se revelam exageradas.

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  1. Situando o problema.

Em artigo anterior – ‘Covid-19 – No ritmo atual, o país terá entre 6,5 mil e 21 mil mortes até o fim de abril’ –, chamei a atenção para o comportamento da pandemia da Covid-19 em escala nacional. Eu já havia escrito antes dois artigos sobre a situação da pandemia em escala mundial [1].

Alguns observadores, ao que parece, não se deram conta de que a pandemia pode e deve ser analisada de diferentes modos e em diferentes escalas. Deve ser analisada de diferentes modos porque há muitas coisas envolvidas e não dá para abraçar tudo ao mesmo tempo [2]. E deve ser analisada em diferentes escalas porque o planeta é suficientemente grande e heterogêneo, de sorte que, mesmo uma entidade tão ágil e inquieta como um vírus [3] não toma conta do mundo inteiro de um dia para o outro.

No que segue, atualizo os números e as análises que apresentei no artigo anterior. Refino os padrões detectados e reafirmo as conclusões fundamentais que divulguei antes, a saber: (a) Em escala planetária, depois de ter batido no teto (por volta de 24-26 de março), a taxa de crescimento da pandemia segue em trajetória declinante (patamar atual: entre 4% e 6%) [detalhes em um próximo artigo]; e (b) Em escala nacional, a taxa de crescimento segue em um patamar mais elevado (entre 5% e 12%).

  1. Calculando uma taxa de crescimento.

Estou acompanhando as estatísticas da Covid-19 por meio de dois painéis, um da Universidade Johns Hopkins e o outro do sítio eletrônico Worldometer [4]. Embora os resultados reportados aqui sejam baseados nos totais diários obtidos no último, as conclusões da minha análise seriam essencialmente as mesmas, caso eu tivesse usado os dados do primeiro.

Para avaliar a disseminação da Covid-19 em escala nacional, eu calculei uma taxa de crescimento diário no número de brasileiros infectados com o SARS-CoV-2, entre 21/3 e ontem (15/4). Esta taxa (β) foi definida como β = ln [Y(t + 1) / Y(t)], onde Y(t + 1) é o número de indivíduos infectados no dia (t + 1), Y(t) é o número de infectados no dia anterior, e ln indica logaritmo natural.

Quando os valores de β assim obtidos são colocados em um gráfico (ver a figura que acompanha este artigo), três agregados de pontos podem ser identificados: (a) Entre 21 e 30/3, intervalo durante o qual a taxa de crescimento declinou desde β = 0,2718 (22) até β = 0,0842 (30); (b) Entre 31/3 e 6/4, quando a taxa de crescimento, após uma inesperada e significativa escalada (30-31/3), tornou a declinar, dessa vez desde β = 0,2109 (31) até β = 0,0793 (6); e (c) Entre 7 e 14/4, quando a taxa de crescimento, após uma segunda e significativa escalada (6-7/4), tornou a declinar uma terceira vez, agora desde β = 0,1428 (8) até β = 0,0543 (13).

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo documenta a variação na taxa de crescimento diário no número de infectados na população brasileira (eixo vertical; β expresso em porcentagem [5]), entre 21/3 e 15/4/2020. Três agregados de pontos estão indicados (A-C) e um quarto parece estar em formação (D). As setas sinalizam a direção e o sentido de cada agregado. Em alaranjado, os resultados de março; em verde, os de abril. Os quadrados em azul correspondem a domingos. (A linha entre os pontos é a média móvel.)

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  1. Os resultados levantam dúvidas sobre os dados.

De acordo com os resultados, a curva que a pandemia está a descrever segue a oscilar – ora declina, ora ascende. Três ‘ondas’ [6] já teriam sido completadas (os agregados A, B e C na figura) e uma quarta parece estar em formação (D, na figura).

Mais do que oscilante, no entanto, não seria exagero dizer que o comportamento geral da curva é preocupante. Os dados de final de semana estão notadamente desalinhados (ver figura), indicando que a metodologia de coleta e divulgação varia durante a semana. Ou talvez as coisas sejam ainda piores.

Levando em conta o obscurantismo que reina no Palácio do Planalto e os frequentes entrechoques entre as autoridades [7], os resultados mostrados na figura põem em dúvida a qualidade dos dados que estão sendo divulgados. Não se pode descartar a hipótese de que os dados foram maquiados, a exemplo do que estaria a ocorrer em outros países (e.g., Chile – ver aqui).

  1. Refinando as projeções.

Dito isto, caberia agora atualizar as projeções feitas no artigo anterior. Vejamos.

Uma avaliação otimista da situação nos levaria a supor que os valores de β nos próximos dias permanecerão dentro dos limites do agregado C.

Em termos percentuais, os novos valores extremos nesse agregado seriam os seguintes: um máximo de 15,3% (8/4) e um novo mínimo de 5,6% (13/4).

Uma projeção para o valor mínimo. A uma taxa de crescimento de 5,6% ao dia, o total de casos no país deverá chegar a 68.686 até o dia 30/4. Este resultado implicaria em 4.190 mortes, admitindo que a taxa de letalidade pare de subir e permaneça nos atuais 6,1%.

Uma projeção para o valor máximo. A uma taxa de crescimento de 15,3% ao dia, o total de casos deverá chegar a 259.064 até o dia 30/4. Este resultado implicaria em ao menos 15.803 mortes (mesma taxa de letalidade de antes).

  1. Coda.

Projeções como as que constam deste artigo devem ser vistas como alertas, não como um bilhete de loteria que o sujeito compra torcendo para acertar.

Por um lado, o alvo é móvel, e ajustes periódicos são necessários, sempre que a ocasião permite. Ainda assim, trata-se de um alerta renovado.

Em sã consciência, ninguém faz uma projeção dessas para acertar. A vitória aqui vem quando se erra. Quando a ação coordenada de autoridades e da sociedade civil organizada conseguem puxar (e não esconder) os números finais para baixo e as projeções se revelam exageradas.

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Notas

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Ver artigos ‘Covid 19: Evidências iniciais de que a pandemia está arrefecendo’ e ‘Covid-19 – Nós batemos no teto?’.

[2] Com o alvoroço dos últimos meses, três termos passaram a fazer parte do vocabulário diário de jornalistas e, por extensão, do público leitor: epidemiologia, virologia e pneumologia. São três universos distintos. E dificilmente um único entrevistado dá conta de falar com propriedade sobre os três assuntos, como alguns entrevistadores já devem ter percebido.

A epidemiologia é a disciplina biológica que lida com a disseminação de agentes patogênicos (vírus, bactérias, vermes, etc.) em populações humanas (ou de animais, vegetais etc.). Estão aí incluídas as doenças contagiosas (e.g., gripe) e as que são transmitidas por vetores (e.g., malária). Dois dos criadores da moderna epidemiologia são o físico e ecólogo australiano Robert M. [McCredie] May (nascidos em 1936) e o zoólogo inglês Roy [Malcolm] Anderson (nascido em 1947). Para detalhes históricos e uma introdução ao assunto, ver Heesterbeek, JAP & Roberts, MG. 2015. How mathematical epidemiology became a field of biology: a commentary on Anderson and May (1981) ‘The population dynamics of microparasites and their invertebrate hosts’. Philosophical Transactions of the Royal Society B 370: 20140307.

A virologia é uma disciplina biológica com um viés taxonômico. Isto é, seu objeto de estudo é um determinado grupo de ‘organismos’ (ver nota [3]), em seus múltiplos aspectos (estrutura tridimensional, genética, filogenia etc.). Como os vírus são parasitas obrigatórios, muitos virologistas também se voltam para o estudo de doenças (fitopatologia etc.), ainda que não necessariamente com a epidemiologia de tais doenças. Com exceção talvez do livro Virologia vegetal (Editora UnB, 2015), de R. B. Medeiros & mais 5 coautores, resta ao leitor brasileiro interessado no assunto consultar os manuais de microbiologia – e.g., Microbiologia de Brock (Artmed, 2010, 12 ed.), de M. T. Madigan & mais 3 coautores.

A pneumologia é uma especialidade médica. Médicos ou veterinários especializados nessa área lidam com as patologias (nem todas elas de origem microbiana) que acometem as vias aéreas inferiores. (As vias aéreas superiores são objeto de atenção de otorrinolaringologistas.) Do pouco que li sobre o assunto nos últimos dias, o material mais informativo para o leitor brasileiro talvez seja a entrevista com um pneumologista russo (Aleksandr Chuchalin), publicado pelo sítio Outras Palavras, em 17/3. Eis um resumo:

A evolução da infecção pelo tipo de coronavírus denominado SARS-CoV-2 pode chegar a apresentar quatro fases distintas. A primeira fase assemelha-se a um resfriado comum, com coriza, mal-estar e estado subfebril. Justamente por ela não ser distinguível de um resfriado comum, a medicina ocidental não leva esta fase em conta, caracterizando a infecção por coronavírus apenas a partir da segunda fase (a da tosse e febre).

A segunda fase já é a da pneumonia. Ao contrário das gripes e resfriados, em que a tosse não é nada demais, nos casos de infecção por coronavírus a presença de tosse significa que as células epiteliais que revestem todo o trato respiratório inferior (desde a traqueia até os alvéolos pulmonares) estão sendo danificadas — e isso já é a pneumonia. […]

A terceira fase, a da falta de ar, é a do agravamento da pneumonia, quando passa a ser necessária hospitalização para ventilação mecânica (entubação).

E a quarta fase é a da septicemia, com grave risco de morte.

A entrevista completa pode ser lida aqui.

[3] Vírus são habitualmente definidos como entidades acelulares desprovidas de metabolismo próprio. Razão pela qual não costumam ser tratados como seres vivos, ainda que sejam formados de moléculas orgânicas complexas (e.g., ácidos nucleicos e proteínas). A maioria deles tem um genoma simplificado (pouco genes) e é de dimensões submicroscópicas. Tudo isso mudou após a descoberta dos vírus gigantes. Estes últimos extrapolam em uma ou duas ordens de grandeza os padrões normais dos vírus, tanto em termos de tamanho da partícula viral (> 0,7 μm) como de complexidade genômica (> 1.000 genes). Para uma discussão detalhada, ver, por exemplo, Nasir, A & mais 2 coautores. 2012. Giant viruses coexisted with the cellular ancestors and represent a distinct supergroup along with superkingdoms Archaea, Bacteria and Eukarya. BMC Evolutionary Biology 12: 156.

[4] Fontes: ‘Mapping 2019-nCov’ (Johns Hopkins University, EUA) e ‘Worldometer: Coronavirus’ (Dadax, EUA).

[5] O valor de β obtido pela equação ln [Y(t + 1) / Y(t)] foi convertido em uma taxa percentual por meio da fórmula (eβ – 1) x 100.

[6] Há quem argumente que as ‘ondas’ já seriam a expressão dos desencontros entre os governantes – e.g., entre os que defendem a adoção de algum tipo de distanciamento social e os que são contra. Como o SARS-CoV-2 continua a circular e como a maioria dos indivíduos é susceptível, os reencontros da população tornam a promover a disseminação acelerada do vírus e, por extensão, a elevação no valor de β.

[7] Entrechoques que culminaram hoje (16) com a demissão do ministro da Saúde – ver aqui.

 

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