Covid-19 – Derrapamos. É óleo na pista ou estamos sem freio?, por Felipe A. P. L. Costa

Vale ressaltar, no entanto, que o desacordo diz respeito tão somente ao número de casos, não ao número de mortes.

Covid-19 – Derrapamos. É óleo na pista ou estamos sem freio?

por Felipe A. P. L. Costa [*].

Ontem (6), de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados mais 14.521 casos e 447 mortes em todo o país. Teríamos chegado assim a um total de 4.137.521 casos e 126.650 mortes.

Na semana encerrada ontem (31/8-6/9), as médias semanais das taxas de crescimento (casos e mortes) deixaram de cair simultaneamente. O que é preocupante, pois contraria os resultados observados em semanas anteriores. Vejamos.

Nas últimas duas semanas, a média semanal da taxa de crescimento no número de mortes caiu de 0,74% (24-30/8) para 0,67% (31/8-6/9), o valor mais baixo desde o início da crise. No caso de novas infecções, porém, a média semanal ficou em 0,99% (31/8-6/9), o mesmo valor da semana anterior [1].

Conforme discuti em artigos anteriores (ver aqui, aqui, aqui e aqui), os resultados observados nas quatro semanas de agosto (3-9/8: 301.745 casos e 6.945 mortes; 10-16/8: 304.775 e 6.803; 17-23/8: 265.586 e 6.892; 24-30/8: 256.528 e 6.084) coincidiram bem com as projeções feitas pelo cenário RÁPIDO, de acordo com o qual as médias semanais iriam cair 0,2% por semana, em média.

Já na semana encerrada ontem (31-6/9: 275.210 casos e 5.822 mortes), no entanto, os resultados tomaram outro rumo, como se pode ver na figura que acompanha este artigo.

Derrapamos. E derrapamos feio.

Vale ressaltar, no entanto, que o desacordo diz respeito tão somente ao número de casos, não ao número de mortes. (A taxa de crescimento no número de mortes, como foi dito no terceiro parágrafo, seguiu a declinar, ainda que o valor médio da queda não esteja exatamente em 0,2% por semana [não mostrado].)

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo mostra os valores esperados para as médias diárias no número de novos casos (eixo vertical) em cinco cenários diferentes (a taxa cai 0,05%, 0,075%, 0,1%, 0,15% ou 0,2% por semana), até 27/9. No pior cenário, LENTO (linha vermelho escuro), a média seguiria aumentando até o fim de setembro – a rigor, até a primeira semana de dezembro (não mostrado), quando só então atingiria o seu máximo (111.521) e começaria a declinar. O gráfico mostra também os valores observados nas últimas cinco semanas (Real; linha alaranjada). Na semana passada (31/8-6/9), houve uma derrapada: ao contrário do ocorrido nas quatro semanas anteriores, as estatísticas da semana encerrada ontem deixaram de acompanhar a trajetória descrita pelo cenário RÁPIDO.

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Coda.

Pois é, derrapamos.

Resta saber se a causa foi óleo na pista (e.g., um viés momentâneo, fruto da liberação de um número excessivo de casos antigos que estavam represados) ou se perdemos o freio (e.g., diante de parcelas cada vez maiores de gente a circular, a propagação do vírus tornou a ganhar velocidade)!

Se o problema for óleo, o caminho anterior talvez venha a ser retomado ainda esta semana. Mas se o problema estiver nos freios, as consequências podem ser mais graves e mais duradouras – e.g., um aumento no número de casos hoje implicará em um aumento no número de mortes amanhã.

Seja como for, sou de opinião que os governantes deveriam parar de brincar com a sorte. Por exemplo, deveriam parar de fazer comentários ou pronunciamentos envolvendo o retorno das aulas presenciais. Promover o retorno agora seria como despejar mais óleo na pista. E não é necessário ser um bom motorista para saber que, mesmo na hipótese de que os freios ainda estejam a funcionar, as chances de derrapagem aumentam muito quando a pista está suja.

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Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] A rigor, houve uma ligeira escalada: o valor passou de 0,9866% (24-30/8) para 0,9882% (31/8-6/9).

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