Covid-19 – Deve ou não o governo promover a vacinação?, por Felipe A. P. L. Costa

Doenças epidêmicas não são eventos aleatórios que afligem as sociedades de modo caprichoso e sem aviso prévio. Ao contrário, cada sociedade produz suas próprias vulnerabilidades específicas.

Covid-19 – Deve ou não o governo promover a vacinação?

por Felipe A. P. L. Costa [*].

Doenças epidêmicas não são eventos aleatórios que afligem as sociedades de modo caprichoso e sem aviso prévio. Ao contrário, cada sociedade produz suas próprias vulnerabilidades específicas. Estudá-las é compreender a estrutura dessa sociedade, seu padrão de vida e suas prioridades políticas. – Frank Snowden (2019).

A.

Seres humanos abrigam centenas de espécies de organismos infecciosos, muitos dos quais são patogênicos. A lista inclui vírus, bactérias, protozoários, fungos e vermes (helmintos). Doenças infeciosas (e.g., pneumonia, amebíase, tuberculose, Aids, malária e meningite) são responsáveis por cerca de 15% das mortes registradas anualmente em todo o mundo [1]. A maioria dessas doenças teve origem em alguma população animal, sendo então transmitida aos seres humanos por meio do consumo ou de algum outro tipo de contato íntimo ou repetido. Doenças que procedem de animais são referidas como zoonoses (do grego: zoo–, animal + –nose, doença) [2].

B.

Uma zoonose bem conhecida é a raiva, doença causada por um rabdovírus (vírus da família Rhabdoviridae). Indivíduos sadios adquirem o patógeno por meio da mordida de algum animal infectado, na maioria das vezes um cão. O vírus infecta as células do sistema nervoso central, o que quase sempre resulta em uma encefalite fatal. Em 2016, mais de 24 mil seres humanos morreram em decorrência da doença. Mordidas em regiões ricas em fibras nervosas, como a face e as mãos, são especialmente perigosas [3].

No entanto, embora ainda seja um grave problema de saúde pública, sobretudo em certas regiões da Ásia e da África (ver aqui), a raiva já não é mais o bicho-papão de outrora. Em outras palavras, ser mordido por um cão infectado já não é mais uma sentença de morte. Meios de cura e prevenção vêm sendo investigados desde o final do século 19.

Uma vacina pioneira contra a raiva, desenvolvida pelo químico e biólogo francês Louis Pasteur (1822-1895), foi aplicada pela primeira vez em um ser humano em 6/7/1885. O ‘voluntário’ foi Joseph Meister (1876-1940), então com 9 anos de idade (ver o artigo Por que o Dia Mundial das Zoonoses é comemorado em 6 de julho?). O garotinho francês, que havia sido mordido por um cão, conseguiu se recuperar. A invenção de Pasteur foi um marco na história da luta contra as doenças infecciosas. Para lembrar o feito e marcar a data, a Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu o Dia Mundial das Zoonoses [4].

C.

Uma zoonose de grande importância histórica é a varíola, doença causada por um ortopoxvírus (vírus da família Poxviridae). Diferentemente da raiva, trata-se de uma doença contagiosa: indivíduos infectados transmitem o parasita para novos hospedeiros pela simples proximidade ou por meio de contato físico.

O vírus da varíola infecta vários órgãos internos do corpo antes de ganhar a corrente sanguínea e ir se alojar na epiderme. O crescimento do vírus nas camadas epidérmicas da pele causa as lesões (pústulas). A letalidade da doença é das mais expressivas: cerca de 20% dos indivíduos infectados morriam.

Ademais, sendo a varíola uma doença contagiosa, os riscos de surtos epidêmicos sempre foram muito elevados. De fato, até meados do século 18, em cidades europeias densamente povoadas, como Londres e Paris, 10% ou mais de todos os óbitos eram atribuídos à doença. Entre as crianças pequenas, mais especificamente, costumava ser a principal causa de morte.

Em regiões densamente povoadas, portanto, a varíola era uma temida fonte de mortalidade. Razão pela qual havia uma justificada expectativa de que algum método de cura ou prevenção fosse inventado. Foi nesse contexto que emergiu uma discussão a respeito da variolação (= enxertia ou inoculação) [5], uma técnica rudimentar de imunização induzida que havia sido introduzida na Europa em 1721.

Entre os críticos da inoculação estava o matemático e naturalista francês Jean Le Rond d’Alembert (1717-1783). Entre os defensores estava o seu colega suíço Daniel Bernoulli (1700-1782). Na opinião desde último, o problema poderia ser colocado da seguinte maneira: Deve ou não o governo promover a vacinação de todos os recém-nascidos?

Em um artigo escrito em 1761 (mas que só seria publicado em 1766), Bernoulli confrontou os riscos e os benefícios das duas alternativas em questão: não vacinar (assumindo o risco de morrer da doença) versus vacinar (assumindo o risco de morrer em decorrência da vacinação) [6]. E concluiu a sua análise de modo afirmativo, sustentando que a inoculação deveria ser encorajada, visto que resultava em um aumento significativo na expectativa média de vida.

D.

A inoculação pode ser vista como um processo em duas etapas: (i) extrair material das pústulas de varíola de um indivíduo doente; e (ii) esfregar o material extraído sobre um arranhão feito na pele (em geral na mão ou no braço) de um indivíduo sadio.

Não era um procedimento inteiramente seguro. No entanto, visto que as probabilidades envolvidas eram desiguais (i.e., as chances de um indivíduo sadio morrer em decorrência da inoculação eram menores que as chances de um indivíduo infectado morrer da doença), o uso da técnica terminou se estabelecendo entre os médicos europeus. Tudo correndo bem, o indivíduo inoculado desenvolvia uma forma branda da doença, da qual se recuperava gradativamente. A partir de então estava protegido (imunizado).

A inoculação foi introduzida na Inglaterra – de onde foi levada para outros países ocidentais – por Mary Wortley [Pierrepont] Montagu (1689-1762), aristocrata e escritora inglesa, esposa do embaixador britânico junto ao Império Otomano (Turquia) [7].

Além de ter perdido um irmão para a varíola (1713), a própria Montagu teve a doença (1715). Enquanto esteve na Turquia (1716-1718), entrou em contato com um grupo de senhoras que aplicavam a técnica (chamada pelos turcos de enxerto). Chegou a presenciar ao menos uma sessão. O processo que Montagu conheceu – o mesmo que ela aplicaria mais tarde em seus dois filhos – já seria uma modificação do procedimento original, desenvolvido na China. Consta que crianças chinesas sadias eram preventivamente imunizadas. O procedimento consistia em fazer com que elas inalassem partículas de pó de material seco previamente retirado das feridas de algum doente. Desse modo, elas ganhariam alguma imunidade.

E.

A inoculação continuou sendo usada em toda a Europa. Não tardou muito, porém, para que um método alternativo fosse desenvolvido.

Em 1796, o naturalista e médico inglês Edward Jenner (1749-1823), ele próprio vítima da varíola durante a infância, descobriu que a forma bovina da doença (cowpox, em inglês) conferia aos seres humanos que estavam em contato com os animais alguma proteção contra a forma letal (smallpox). Após uma série de estudos e testes, Jenner desenvolveu uma técnica de imunização artificial (vacinação). Publicou seus achados em 1798.

F.

A varíola é uma doença muito antiga, havendo indicações de que o vírus esteve conosco desde tempos pré-históricos [8]. É também a única doença infecciosa que nós conseguimos erradicar. Consta que o último portador conhecido da doença (infectado de modo natural) vivia na Somália, tendo sido curado em 1977 (ver aqui). Em 1980, a OMS declarou que a varíola havia sido extinta.

É pouco provável que nós consigamos extinguir a Covid-19. Todavia, se Bernoulli estivesse vivo, não tenho dúvidas de que ele responderia à pergunta do título de modo afirmativo e bastante taxativo: “Sim, o governo deve vacinar a população. E o mais rápido possível.”

No caso brasileiro, a julgar pelo que vem ocorrendo desde o início de novembro, cada dia de atraso (deliberado) na campanha de vacinação implicará inevitavelmente na morte (criminosa) de algumas centenas a mais de brasileiros – algo entre 500-1.000 mortes/dia, levando em conta os resultados obtidos para a semana passada (7-12/12) (ver o artigo O ‘V’ da pandemia: País ladeira abaixo, estatísticas ladeira acima).

*

Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] De acordo com as estatísticas de 2016 (WHO 2018): pneumonias (e outras infecções do trato respiratório inferior) mataram 2,96 milhões de seres humanos; diarreia (amebiana e outras), 1,38 milhão; tuberculose, 1,29 milhão; Aids, 1 milhão; malária, 446 mil; e meningite, 279 mil. Esse percentual já foi maior, tendo caído significativamente ao longo dos últimos anos: 33% (1996), 23% (2000) e 15% (2016) – ver WHO (1996) e WHO (2018).

[2] Todos os grupos taxonômicos que abrigam patógenos humanos possuem percentuais expressivos de espécies de origem zoonótica: 80% dos vírus que infectam seres humanos são de origem zoonótica, 50% das bactérias, 40% dos fungos, 70% dos protozoários e 95% dos vermes. Para detalhes, ver Taylor et al. (2001).

[3] Mesmo a lambida de um animal infectado pode ser perigosa, pois o vírus presente na saliva pode penetrar em lesões ínfimas. Para detalhes, ver Tortora et al. (2006). Sobre a estatística mencionada, ver WHO (2018).

[4] Entre nós, a data (6 de julho) passou despercebida. Quer dizer, nem mesmo a pandemia da Covid-19 (mais uma doença de origem zoonótica) foi capaz de fazer com que a nossa imprensa abrisse os olhos e saísse de sua habitual letargia. Em outros países, a imprensa costuma manter ao menos um dos olhos abertos – ver aqui.

[5] Para uma caracterização do processo, ver Fenner et al. (1988).

[6] Sobre a polêmica Bernoulli versus D’Alembert, ver Colombo & Diamanti (2015).

[7] Sobre a introdução da variolação na Inglaterra, ver Weiss & Esparza (2015); para detalhes sobre a vida e obra de MWM, ver Brunton (1991) e Soares (2018). Personagem das mais fascinantes, Montagu nos legou uma rica e variada obra literária (e.g., aqui).

[8] Há evidências de varíola em múmias egípcias com mais de 3.000 anos de idade. Do Egito a doença teria sido exportada para a Índia, há uns 2.000 anos, onde se tornou endêmica. E teria sido introduzida na China no século 1. Na Europa, a despeito de surtos ocasionais, a doença só teria se estabelecido entre os séculos 11 e 12, já durante as Cruzadas. Para detalhes, ver Fenner et al. (1988).

*

Referência citadas.

++ Brunton, D. 1991. Pox Britannica: Smallpox inoculation in Britain, 1721-1830. Tese de Doutorado. Filadélfia, University of Pennsylvania.

++ Colombo, C & Diamanti, M. 2015. The smallpox vaccine: the dispute between Bernoulli and d’Alembert and the calculus of probabilities. Lettera Matematica 2: 185-92.

++ Fenner, F. & mais 4. 1988. Smallpox and its eradication. Genebra, World Health Organization.

++ Snowden, FM. 2019. Epidemics and society: From the black death to the present. New Haven, Yale UP.

++ Soares, MJO. 2018. Mary Montagu e a inoculação da varíola na Inglaterra no século XVIII. Khronos, Revista de História da Ciência 5: 35-46.

++ Taylor LH; Latham SM & Woolhouse MEJ. 2001. Risk factors for human disease emergence. Philosophical Transactions of the Royal Society of London B 356: 983-9.

++ Tortora, GJ; Funke, BR & Case, CL. 2006. Microbiologia, 8ª ed. Porto Alegre, Artmed.

++ Weiss, RA & Esparza, J. 2015. The prevention and eradication of smallpox: a commentary on Sloane (1755) ‘An account of inoculation’.  Philosophical Transactions of the Royal Society of London B 370: 20140378.

++ WHO. 1996. World health report 1996: fighting disease, fostering development. Genebra, World Health Organization.

++ —. 2018. Global health estimates 2016: disease burden by cause, age, sex, by country and by region, 2000-2016. Genebra, World Health Organization.

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1 comentário

  1. Boa noite Felipe.
    Muito boas as suas considerações sobre o grave problema pandêmico atual. Oswaldo Cruz não foi citado, mas viveu esse problema no Rio de janeiro, e o enfrentou com firmeza, o que se justificou por ser uma época em que a população em geral era muito mal informada, e os procedimentos eram muito recentes.
    Penso que os governos devem sim, disponibilizar as vacinas o mais breve possível, seguindo todas as normas de segurança e não politizar o problema.
    Não acredito que a obrigatoriedade seja necessária, considerando o maior acesso às informações que se tem hoje, penso que o ideal seja uma campanha bem elaborada, com informações confiáveis sobre cada vacina disponível e penso que o resultado será bastante satisfatório.

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