Covid-19 – Por que o Dia Mundial das Zoonoses é comemorado em 6 de julho?, por Felipe A. P. L. Costa

Doenças que procedem de animais são referidas como zoonoses (do grego: zoo–, animal + –nose, doença)

Covid-19 – Por que o Dia Mundial das Zoonoses é comemorado em 6 de julho?

por Felipe A. P. L. Costa [*].

1.

Seres humanos abrigam centenas de espécies de organismos infecciosos, muitos dos quais são patogênicos. A lista inclui vírus, bactérias, protozoários, fungos e vermes (helmintos). Doenças infeciosas (e.g., pneumonia, amebíase, tuberculose, Aids, malária e meningite) são responsáveis por cerca de 15% de todas as mortes registradas anualmente no mundo [1]. A maioria delas teve origem em alguma população animal, sendo então transmitida aos seres humanos por meio do consumo ou de algum outro tipo de contato íntimo ou repetido. Doenças que procedem de animais são referidas como zoonoses (do grego: zoo–, animal + –nose, doença) [2].

2.

Uma zoonose bem conhecida é a raiva, doença causada por um rabdovírus (vírus da família Rhabdoviridae). Indivíduos sadios adquirem o patógeno por meio da mordida de algum animal infectado, na maioria das vezes um cão. O vírus infecta as células do sistema nervoso central, o que pode resultar em uma encefalite fatal. Em 2016, mais de 24 mil seres humanos morreram em decorrência da doença. Mordidas em partes do corpo ricas em fibras nervosas, como a face e as mãos, são especialmente perigosas [3].

3.

Porém, embora ainda seja um grave problema de saúde pública, sobretudo em certas regiões da Ásia e da África (ver aqui), a raiva já não é mais o bicho-papão de outrora. Isso porque ser mordido por um cão raivoso já não é mais uma sentença de morte. Meios de cura e prevenção vêm sendo desenvolvidos desde o final do século 19.

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo mostra uma fotografia de Joseph Meister (1876-1940) no Instituto Pasteur (Paris), onde ele trabalhou depois de adulto. (Fonte da foto: Dufour & Carroll 2013.)

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4.

Uma vacina pioneira contra a raiva, desenvolvida pelo químico e biólogo francês Louis Pasteur (1822-1895), foi aplicada pela primeira vez em um ser humano em 6/7/1885. O ‘voluntário’ foi Joseph Meister (1876-1940) (ver a figura que acompanha este artigo), então com 9 anos de idade e que havia sido mordido por um cão doente. Apesar das incertezas (afinal, não havia precedentes!), a vacinação deu certo e o pequeno Joseph conseguiu se recuperar. A invenção de Pasteur se tornou um marco na luta contra as doenças infecciosas. Para lembrar o feito e marcar a data, a Organização Mundial da Saúde instituiu o Dia Mundial das Zoonoses, comemorado todos os anos em 6 de julho [4].

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Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Estou a me referir às estatísticas de 2016 (WHO 2018): pneumonias (e outras infecções do trato respiratório inferior) mataram 2,96 milhões de seres humanos; diarreias (amebiana e outras), 1,38 milhão; tuberculose, 1,29 milhão; Aids, 1 milhão; malária, 446 mil; e meningite, 279 mil. O percentual já foi maior, tendo caído ao longo dos últimos anos: 33% (1996), 23% (2000) e 15% (2016) – ver WHO (1996) e WHO (2018).

[2] Todos os grupos taxonômicos que abrigam patógenos humanos exibem percentuais expressivos de espécies de origem zoonótica. Vejamos: são 80% dos vírus, 50% das bactérias, 40% dos fungos, 70% dos protozoários e 95% dos vermes. Para detalhes, ver Taylor et al. (2001).

[3] Mesmo a lambida de um animal infectado pode ser perigosa, pois o vírus presente na saliva pode penetrar em lesões ínfimas. Para detalhes, ver Tortora et al. (2006). Sobre as estatísticas, ver WHO (2018).

[4] A data passou despercebida por aqui. O que não é bem uma surpresa. Mas é uma pena. Afinal, nem mesmo uma pandemia em curso foi capaz de fazer com que os observadores brasileiros (notadamente a imprensa) abrissem os olhos. (Não custa lembrar: a Covid-19 é uma doença emergente de origem zoonótica.) Em outros países, os observadores (incluindo a imprensa) costumam manter ao menos um dos olhos bem abertos – ver aqui e aqui.

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Referências citadas.

+ Dufour, HD & Carroll, SB. 2013. Great myths die hard. Nature 502: 32-3.

+ Taylor LH; Latham SM & Woolhouse MEJ. 2001. Risk factors for human disease emergence. Philosophical Transactions of the Royal Society of London B 356: 983-9.

+ Tortora, GJ; Funke, BR & Case, CL. 2006. Microbiologia, 8ª ed. Porto Alegre, Artmed.

+ WHO. 1996. World health report 1996: fighting disease, fostering development. Genebra, World Health Organization.

+ WHO. 2018. Global health estimates 2016: disease burden by cause, age, sex, by country and by region, 2000-2016. Genebra, World Health Organization.

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