Covid-19 – Trapos, retalhos e uma triste ironia, por Felipe A. P. L. Costa

Notícias apressadas e superficiais. Chutes. Erros graves e grosseiros. Cinismo. E até o mais desavergonhado sensacionalismo.

Covid-19 – Trapos, retalhos e uma triste ironia.

por Felipe A. P. L. Costa [*].

1.

Notícias apressadas e superficiais. Chutes. Erros graves e grosseiros. Cinismo. E até o mais desavergonhado sensacionalismo.

Nada de novo. É a imprensa brasileira em ação.

Era assim antes. A crise tão somente acentuou a nossa fragilidade.

2.

Em 26/5, o portal G1 estampou a manchete: ‘Brasil terá mais de 125 mil mortes por Covid-19 até o começo de agosto, de acordo com projeção de universidade dos EUA’.

Em 6/6, em matéria assinada por Marina Dias, foi a vez de a Folha de S. Paulo alardear: ‘Modelo usado pela Casa Branca projeta 5.000 mortes diárias por Covid-19 no Brasil em agosto’.

Em 11/6, a BBC Brasil decidiu requentar o assuntou: ‘Coronavírus: Brasil pode se tornar país com mais mortos em 29/7 se nada mudar, diz projeção usada pela Casa Branca’ [1].

O cheiro inicial da notícia, em maio, já não bom. Nas semanas seguintes, porém, ficou claro que muita gente está a trabalhar no modo ‘piloto automático’. Ou se desfez de qualquer vestígio de senso crítico [2].

A situação é grave, mas sensacionalismo não ajuda em nada.

3.

Como alguns leitores brasileiros já devem ter percebido, o presidente dos Estados Unidos trabalha para confundir a opinião pública do seu país. Vale qualquer coisa. No momento, ele está a usar um discurso que embaça ou nega a magnitude dos problemas domésticos. Como as desigualdades sociais e o despreparo dos Estados Unidos para enfrentar a pandemia da Covid-19.

Donald Trump está particularmente empenhado em esconder dos eleitores o fato de que alguns milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se ele não tivesse sido tão displicente. Daí a manobra ocultista, culpando o ‘comunismo’ pela crise ou apontando o dedo para ‘países amigos’ em situação supostamente muito pior. A imputação de culpa à China ilustra o primeiro tipo de manobra, assim como a anunciada saída da OMS. O falatório achincalhando a Suécia e o Brasil (ver aqui) exemplificaria o segundo.

Trump só sairá amarrado da Casa Branca. Adiar ou fraudar as eleições são dois coringas que ele tem na manga, a respeito dos quais o pessoal dele já deve ter produzido relatórios volumosos. (A alternativa habitual – iniciar uma guerra contra algum ‘inimigo perigoso’ do Terceiro Mundo – parece estar afastada. Ao menos por enquanto. Afinal, invadir e matar civis em um país cujos habitantes já estão lutando contra a pandemia poderia dar origem a um noticiário bem desfavorável.)

4.

Evocar a Casa Branca para levantar uma manchete ou sustentar um argumento é – na melhor das hipóteses – uma grande tolice.

5.

Há muita ebulição mundo afora. Muita coisa interessante.

Pena que pouco ou nada disso seja capturado, mastigado e digerido pela imprensa.

6.

Há sinais de vida na Terra.

Um primeiro exemplo: a entrevista de Karl Friston ao jornal The Guardian, em 31/5 (ver aqui), na qual o pesquisador inglês fala sobre o modelo epidemiológico que elaborou para a disseminação da Covid-19.

O modelo proposto por ele – elaborado com base em ideias originalmente formuladas pelo físico estadunidense Richard Feynman (1916-1988) – está sendo usado no Reino Unido. E as projeções são bem detalhadas. E precisas. Melhores, segundo ele, que as projeções feitas por modelos mais convencionais.

7.

Um segundo exemplo (este particularmente emocionante): a entrevista da jornalista estadunidense Laurie Garrett ao programa de notícias Democracy Now, em 6/5. Garrett é autora do atualíssimo A próxima peste (Nova Fronteira, 1995).

Embora tenha ocorrido há mais de um mês – e um mês, nesta crise, é muito tempo –, a entrevista é das mais pertinentes e informativas (ver aqui). Lança luz sobre a tragédia em curso nos EUA. (Mas também ajuda a iluminar um pouco a bagunça em que nós, brasileiros, estamos mergulhados.) Chamo atenção para a opinião dela a respeito do prazo necessário para o desenvolvimento de uma vacina universal.

8.

Uma vacina universal contra a Covid-19 – e não apenas uma vacina para os ‘eleitores de Trump’ – precisa atender a alguns requisitos. Quatro deles seriam os seguintes: (1) aplicação em dose única; (2) aplicação por via oral; (3) as condições de armazenamento e transporte não devem exigir refrigeração; e (4) produção em larga escala (> 4 bilhões de doses: mais da metade da população mundial terá de ser vacinada – será provavelmente o maior programa de vacinação da história).

(O alerta não é meu. É de Laurie Garrett.)

9.

Por falar em vacina, o convênio alardeado pelo governo do estado de São Paulo, semana retrasada (ver aqui), deve ser um entre vários outros que os chineses estão a firmar. (O mesmo raciocínio vale para o pessoal da Universidade de Oxford que vem aqui aplicar testes.) Quem está na corrida por uma vacina precisa de cobaias humanas. É normal. Faz parte do processo. (No momento, não deve ser difícil recrutar voluntários no Brasil, no Chile ou no Peru. Ou mesmo no México.)

O anúncio, no entanto, foi essencialmente uma distração. Temo que o governador paulista (assim como os governadores de outros estados) não tenha mais o necessário cacife político que o autorize a tomar as providências que deveriam ser tomadas – endurecer ou ao menos manter as medidas de mitigação, em vez de afrouxá-las (ver aqui).

A imprensa pode ainda não ter se dado conta ou talvez esteja a evitar o assunto, mas o uivo inicial que o Palácio do Planalto emitiu diante da pandemia (“Não tem jeito. Todo mundo vai se infectar”) está agora sendo reproduzido (ainda que na intimidade) por alguns governadores. O de SP não é o único.

10.

Por fim, entre as grandes ironias que estamos a viver, eu chamaria a atenção para uma das mais simbólicas: Robert May, um dos inventores da moderna epidemiologia matemática [3], faleceu no final de abril, em plena pandemia.

Nenhum veículo da imprensa brasileira deu a notícia. Folha, O Globo, Estadão, Veja, G1… – nem um pio. Nada. E olha que a renomada revista britânica Nature, uma fonte habitual de quem cobre a área científica, já publicou um obituário [4].

Soube do ocorrido por meio de matéria na imprensa estrangeira. Meio que por acidente. Isso foi em 18/5, com um atraso de três semanas. Uma triste surpresa. Em meados de abril, enquanto estava a trabalhar em artigo no qual citava o nome dele e o de Roy [Malcolm] Anderson (nascido em 1947), fui atrás de notícias recentes a respeito dos dois. O artigo foi publicado em 17/4 (aqui), May viria a falecer no dia 28 [5].

Assim que soube, tratei de obter mais informações. Não consegui encontrar um único registro na imprensa brasileira. Jornais estrangeiros deram a notícia de pronto (e.g., o português Diário de Notícias – ver aqui) e alguns logo publicaram obituários mais ou menos detalhados (e.g., The Guardian e The New York Times – ver aqui e aqui).

Não foi a primeira vez que testemunhei as barbeiragens ou o silêncio da imprensa brasileira diante do falecimento de um gigante da ciência [6]. Mas é sempre algo desolador. E um tanto quanto revoltante. Um silêncio que diz muito sobre a inércia, a cegueira e as limitações de nossa imprensa. Mas que tem muito a ver também com o ar rarefeito da cultura contemporânea.

*

Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] No dia 11, repercutindo a matéria da BBC Brasil, este GGN anunciou: ‘Brasil vai superar EUA em mortes por coronavírus no final de julho, mostra projeção’.

[2] Sobre os números e a tendência da pandemia entre nós, ver, por exemplo, os quatro artigos já publicados da série ‘Como entramos e como iremos sair da crise’ – aqui (+ aqui), aqui, aqui e aqui.

[3] A epidemiologia (não clínica) é uma província da ecologia de populações. No contexto atual, pode ser vista como a caixa de ferramentas que está sendo usada por técnicos, cientistas e estudiosos de todo o mundo na luta contra a expansão da pandemia da Covid-19. Para uma introdução ao assunto, ver Begon, M; Townsend, CR & Harper, JH. 2007. Ecologia, 4ª ed. Porto Alegre, Artmed. Uma palestra (‘Estabilidade e complexidade em ecossistemas financeiros’) ministrada por Robert May, em 2013, pode ser vista aqui. Sobre a importância histórica do trabalho dele, ver Heesterbeek, JAP & Roberts, MG. 2015. How mathematical epidemiology became a field of biology: a commentary on Anderson and May (1981) ‘The population dynamics of microparasites and their invertebrate hosts’. Philosophical Transactions of the Royal Society B 370: 20140307. Dez anos após o artigo de 1981, Anderson e May publicaram um livro que se tornaria uma obra de referência na área – Anderson, RM & May, RM. 1991 Infectious diseases of humans: Dynamics and control. Oxford, OUP.

[4] Ver Krebs, JR & Hassell, M. 2020. Robert May (1936-2020). Nature 581, doi: 10.1038/d41586-020-01364-y.

[5] Portador da doença de Alzheimer, May vivia em uma casa de repouso, onde faleceu, vítima de uma pneumonia. (Não sei dizer se a pneumonia foi provada pelo SARS-Cov-2.)

[6] Para exemplos e discussões, ver o meu O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (Edição do autor, 2017).

* * *

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3 comentários

  1. A evolução pandêmica nos eua é igual à daqui. Mas lá, é práticamente muito indiferente quem vai ganhar ou perder eleições e no Brazil de hoje é muito diferente.
    A diferença é que o Brazil está cem por cento nas mãos dos grupos mafiosos criminosos. São grupos que antes do golpe de 2016 faziam lobby em torno dos poderes e hoje eles são os poderes.
    Resumindo, no Brazil não existem mais fiéis da balança… está tudo totalmente dominado por grupos criminosos anteriormente formados afora e independentemente dos poderes constituidos. São rincipalmente os maçons, que dominaram até os postos de comandantes das nossas forças armadas, verdadeiros golpistas fascistas nazistas, que por incrível que pareça dizem-se atuando em nome de Deus… o deus deles o tal de gadú.
    Não é mais possível visualizarmos um fim para essa ditadura, restando-nos apenas fatores externos ou os internos entre eles por força de desentendimentos que os implodam.

    Só com muita ajuda de Deus e com muitas orações conseguiremos um dia livramo-nos dos assassinos traficantes de cocaína que tomaram conta do Brasil e de nossa vidas.
    Amém.

  2. Bacana essa referência ao Robert May. Não sabia que ele havia falecido, seu artigo de 1976 na Nature é um clássico na teoria de sistemas dinâmicos e caos determinístico. Como complemento ao seu artigo o grande Prof. Tsallis (CBPF-RJ) publicou recentemente um artigo utilizando, entre outros, dados do Brasil, via modelos baseados em Mecânica Estatística, apresentando ótima correlação com os números reais. (Tsallis, Constantino, and Ugur Tirnakli. “Predicting COVID-19 peaks around the world.” Frontiers in Physics 8 (2020): 217.)

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