Descoordenação política dificulta enfrentamento da pandemia no Brasil

Falta de padrão em testagem e tomadas de decisão desarticuladas comprometem o combate à covid-19 e enfraquecem decisões de flexibilização

O Brasil é o país que menos testa entre os 20 países com maior taxa de óbitos, ficando atrás da China, Estados Unidos, México, Peru e Turquia – Foto: Governo do Estado de São Paulo /Flickr

do Jornal da USP

Descoordenação política dificulta enfrentamento da pandemia no Brasil

Descoordenação nacional de políticas públicas dificulta enfrentamento da pandemia de covid-19 no território brasileiro e enfraquece decisões de flexibilização de distanciamento social. A avaliação é dos pesquisadores da Rede de Pesquisa Solidária que, em seu 13º boletim, mapeou informações sobre a testagem de covid-19 no Brasil, identificou diferenças entre os tipos de testes realizados e apurou imprecisão das informações apresentadas pelas Secretarias Estaduais de Saúde (SES)  de cobertura da testagem.

Segundo o boletim, o Brasil é o que menos testa entre os 20 países com maior taxa de óbitos. Está atrás da China, Estados Unidos, México, Peru e Turquia. Além de não realizar o volume necessário, tampouco consegue fazer o número suficiente para identificar a proporção de brasileiros que já manteve contato com o vírus. A lacuna de informação sobre a presença e circulação do vírus entre a população está na base da subnotificação de casos positivos. A média de positividade dos testes no País foi de 36% em junho de 2020, bem acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de até 5%.

Testes RT-PCR/Teste rápido/sorológico

Grande parte dos Estados torna público apenas o total de testes, sem classificação por tipo. Somente 14 Estados prestaram contas do número de testes realizado por RT-PCR (sigla em inglês de reverse-transcriptase polymerase chain reaction), que identifica com maior precisão as pessoas infectadas, e por testes rápidos (IgM) e sorológicos (Igc), que apontam quem já teve contato com o vírus e possui anticorpos, ambos utilizados no rastreamento e disseminação do vírus.

Testes RT-PCR/teste rápido/sorológico e número total de testes para os Estados que não diferenciam o tipo de teste realizado (por 100 mil habitantes)

Testes realizados nos Estados brasileiros

As plataformas oficiais das SES e os boletins estaduais apresentam dados muito diferenciados, o que, segundo o boletim, denota ausência de padrão nacional. Os Estados do Acre, Amapá, Goiás, Rondônia, Rio de Janeiro, Roraima, São Paulo e Tocantins não aparecem na tabela porque as informações sobre os testes realizados não constavam nas plataformas oficiais.

Unidades Federativas e  informações sobre testes realizados

Positividade dos testes realizados no Brasil

 

A fim de avaliar a cobertura de testes realizados e como se comparam com a evolução da pandemia nos Estados brasileiros, foi estimada a porcentagem de casos positivos entre o total de testes realizados nos Estados brasileiros. Nesta estimativa, considerou-se o total de testes realizados, independente do tipo do teste, conforme informado pelas SES. A Figura 4 apresenta a positividade dos testes realizados na semana de 31 de maio a 6 de junho para todos os Estados brasileiros e também para todo o País. O Rio de Janeiro e Tocantins não estão representados nesta figura por não apresentarem dados de testagem no período de análise.

Como pode ser observado, o Estado de Minas Gerais apresenta mais de 100% de positividade, por isso o número de casos novos de covid-19 foi superior ao número de testes realizados na semana. Apesar da figura revelar informações importantes, segundo os pesquisadores, é preciso esclarecer que a ausência de informações atualizadas diariamente sobre os testes realizados nos Estados limita a capacidade de entendimento das oscilações dessas taxas. Pela Figura 4 também é possível verificar que somente o Distrito Federal apresentou uma positividade inferior a 10%, ainda assim superior à recomendação de 5% da OMS. A linha vermelha se refere à orientação da OMS de positividade (5%).

Positividade dos testes realizados nos Estados entre 31/5 e 6/6 (%)

Rede de Pesquisa Solidária é uma iniciativa de pesquisadores para calibrar o foco e aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas dos governos federal, estaduais e municipais que procuram atuar em meio à crise da covid-19 para salvar vidas. O alvo é melhorar o debate e o trabalho de gestores públicos, autoridades, congressistas, imprensa, comunidade acadêmica e empresários, todos preocupados com as ações concretas que têm impacto na vida da população. Trabalhando na intersecção das Humanidades com as áreas de Exatas e Biológicas, trata-se de uma rede multidisciplinar e multi-institucional que está em contato com centros de excelência no exterior, como as Universidades de Oxford e Chicago.

A coordenação científica está com a professora Lorena Barberia (Ciência Política USP). No comitê de coordenação estão: Glauco Arbix (Sociologia-USP e Observatório da Inovação), João Paulo Veiga (Ciência Política-USP), Graziela Castello, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Fábio Senne (Nic.br) e José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP (INCT-InCor). O comitê de coordenação representa quatro instituições de apoio: o Cebrap, o Observatório da Inovação, o Nic.br e o InCor.

A divulgação dos resultados das atividades é feita semanalmente por meio de um boletim, elaborado por Glauco Arbix, João Paulo Veiga e Lorena Barberia. São mais de 40 pesquisadores e várias instituições de apoio que sustentam as pesquisas voltadas para acompanhar, comparar e analisar as políticas públicas que o governo federal e os Estados tomam diante da crise. “Distanciamento social, mercado de trabalho, rede de proteção social e percepção de comunidades carentes são alguns dos alvos de nossa pesquisa. Somos cientistas políticos, sociólogos, médicos, psicólogos e antropólogos, alunos e professores, inteiramente preocupados com o curso da crise provocada pelo coronavírus no mundo e em nosso país”, define Arbix.

As notas anteriores estão disponíveis neste link.

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1 comentário

  1. Brasil se tornou pária internacional, sem aliados nem simpatias

    Em poucos anos, perdeu-se praticamente tudo o que o país conquistou desde a transição para a democracia, e levará décadas até se compensar essa perda de confiança. A perda de “soft power” sairá cara para os brasileiros.

    Nada ilustra tão claramente a perda de soft power pelo Brasil quanto a resistência crescente na Europa contra o acordo de livre-comércio Mercosul-União Europeia e o desmatamento da Amazônia. Três parlamentos nacionais europeus votaram contra a ratificação. Centenas de ONGs protestam contra a cooperação com a América do Sul, sobretudo por causa do Brasil. Bancos, fundos e empresas querem retirar seus investimentos se os incêndios na região amazônica não diminuírem.

    É inegável: no momento, criticar abertamente o Brasil vale a pena. Com isso, se conquistam votos entre eleitores, empresas ganham clientes, e organizações não governamentais angariam doações e atenção. Isso mostra que a imagem do Brasil nunca foi tão ruim como agora – algo que sairá caro para o país.

    É uma questão de “poder suave”– ou melhor, da perda dele. Nas décadas desde o retorno à democracia, em 1985, o Brasil pôde acumular uma reserva considerável de soft power – termo cunhado pelo cientista político americano Joseph Nye para designar a influência que um país exerce no mundo sem empregar incentivos econômicos ou poder militar.

    O Brasil sempre utilizou seu soft power estrategicamente. Com destreza de negociação e diplomacia, os governos democráticos ampliaram sua influência mundial. Por certo tempo, o país jogou numa liga da política internacional mais elevada do que lhe permitiriam seu poder econômico ou potencial de ameaça: na discussão do clima, no livre comércio, na defesa dos direitos humanos, no combate à pobreza, na política global de saúde, mesmo na crise financeira de 2008, o Brasil sentou-se à mesa de negociações junto com as grandes potências.

    Pela capacidade de falar e se entender com todos, o Brasil tinha influência. Por isso, o politólogo Parag Khanna já o via como um dos ganhadores da globalização; todas as potências queriam tê-lo como parceiro, por ser capaz de impulsionar ou restringir o êxito delas. Além disso, o Brasil era uma nação cultural e esportiva admirada em todo o mundo, um cobiçado destino de viagens e de residência para muitos. Também isso constituía o soft power brasileiro.

    Mas esses tempos se foram. “Poucos países perderam tanto a reputação como o Brasil”, comenta Rubens Ricupero, jurista e ex-embaixador. Sob a ditadura militar, a imagem do país no mundo era igualmente ruim, mas em compensação a economia nacional apresentou crescimento recorde.

    O rebaixamento começou com os grandes escândalos de corrupção, que atravessaram toda a América Latina e lançaram uma sombra retroativa sobre os governos Lula e Dilma. A eleição do populista de direita Jair Bolsonaro como presidente acelerou o declínio. Seus permanentes ataques à democracia, sua governança caótica, a persistente crise econômica, e agora, acima de tudo, a má gestão da crise da covid-19, colocando o país no segundo lugar de casos confirmados e mortes: tudo isso transformou o Brasil num pária do mundo. Sem aliados, sem simpatias.

    Os custos dessa perda de soft power já se fazem sentir desde já: há poucos dias, 29 bancos e fundos globais enviaram uma carta aberta ao governo brasileiro. Administradores de um total de 3,75 trilhões de dólares em ativos, eles expressaram apreensão pelo aumento do desmatamento na Amazônia e o declínio da política ambiental e de direitos humanos.

    Desse modo, os protagonistas financeiros reagiram à pressão de seus acionistas. Para eles, uma política agrária justa, a proteção da floresta tropical, de minorias e indígenas e uma política de gênero são base para seus investimentos no Brasil – senão, vão retirar seu capital.

    Serão necessárias décadas para recuperar essa confiança.

    Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.
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