Incertezas cercam as vacinas, mas já é tempo de planejar a vacinação

Dirigentes do Instituto Butantan e da Fiocruz conversaram sobre as perspectivas em relação às vacinas

HeungSoon / Pixabay

Num debate admiravelmente franco e realista na tarde da última quinta-feira, 23 de julho, os principais dirigentes das duas respeitadas instituições que lideram no Brasil os estudos clínicos em fase 3 das vacinas contra a covid-19 reiteraram, respondendo à provocação de um dos participantes da mesa, que “a vacina não é uma bala de prata”.

Afirmaram em seguida que, embora sejam ambas muito promissoras, a possibilidade de as duas vacinas em testes serem efetivadas dentro dos próximos meses, por se mostrarem realmente eficazes e seguras existe tanto quanto a de apenas uma delas ou mesmo nenhuma das duas funcionar. Esse panorama atravessado por incertezas foi admitido e discutido por Nísia Trindade, cientista social, presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e Dimas Covas, professor da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Instituto Butantan.

Para os menos familiarizados com a metáfora, bala de prata – a única que, disparada num tiro, mitologicamente, é capaz de liquidar de vez com lobisomens e outros monstros – é aquela solução definitiva, simples e certeira para um problema de grande complexidade. A vacina ou as vacinas contra a covid-19 a que o esforço científico certamente levará mais cedo ou mais tarde não funcionarão assim.

Elas serão, sim, um fator fundamental no controle da pandemia dentro de um período de tempo que ninguém consegue ainda estimar, mas não vão eliminar rápida e definitivamente a covid-19 e reconduzir o mundo a um estágio A.C. (Antes da Covid). Essa possibilidade não está sequer em consideração, o que seria impossível mesmo com um produto cuja eficácia beirasse os 100% – e as expectativas realistas, hoje, são de que uma primeira vacina possa ser aprovada pelos órgãos regulatórios nacionais e internacionais se, a par da segurança, comprovar uma eficácia próxima dos 50%. Não protegerá tanto nem todos, mas será uma ajuda preciosa no controle da doença.

O debate que expôs cruamente o real estado da arte e expectativas de especialistas quanto às vacinas, além dos desafios para a montagem de uma estratégia eficiente de vacinação da população a ser pensada já, foi parte do webinar “Produção e Acesso à Vacina Anti-Covid”, promovido pela Rede CoVida em parceria com a Abrasco e a Abres na semana passada.

Elucidemos essas siglas e instituições: parceira do Ciência na rua na série de webinars sobre covid-19 realizados entre abril e junho, a Rede CoVida, foi criada em março, dentro do esforço de difusão científica de várias instituições sobre a pandemia, por iniciativa do Centro de Integração de Dados de Conhecimento para a Saúde (Cidacs-Fiocruz), em especial de seu coordenador, Maurício Barreto, em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA). Abrasco é Associação Brasileira de Saúde Coletiva, e Abres, Associação Brasileira de Economia da Saúde. Juntos, esses parceiros se responsabilizaram pelo último de três importantes debates sobre a vacina para enfrentar a pandemia, organizados principalmente pelo próprio Barreto e por Manoel Barral Neto, ambos respeitados epidemiologistas, vinculados à Fiocruz e professores da UFBA.

O grupo que debateu na quinta o tema tão crucial, em meio ao mar de informações desencontradas e afirmações mais inspiradas em torcida compreensível e menos em evidências científicas sobre o ritmo de produção e disponibilização da vacina anti-covid, só reuniu currículos de peso em epidemiologia, saúde pública e ciências sociais.

Além de Nísia Trindade e Dimas Covas, entre os apresentadores estava também Carla Domingues, até o ano passado coordenadora do Programa Nacional de Imunização e ainda no quadro do Ministério da Saúde. Como debatedores, estavam Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Abrasco, epidemiologista com vasta carreira de gestor nas principais agências federais de fomento à pesquisa, e a economista Érika Aragão, presidente da Abres, professora da UFBA e pesquisadora da Rede CoVida. Finalmente, como mediadores, Maurício Barreto e Gulnar Azevedo, presidente da Abrasco e professora titular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Aprendizado e novas epidemias

Nísia Trindade afirmou que a Fiocruz está comprometida em acelerar o processo para a produção da vacina sem descuidar da eficácia e segurança do produto, entendido como um bem público. Apresentou os seis eixos de trabalho da Fundação – apoio ao diagnóstico; atenção à saúde; pesquisa e produção de vacinas e medicamentos; informação e comunicação; e educação – além de uma breve visão de seu histórico em vacinas, que vem da década de 1930. Foi então que a Fiocruz incorporou a tecnologia, inicialmente da Fundação Rockfeller, para a produção da vacina da febre amarela. Nísia observou que foi a partir da estruturação do SUS, o Sistema Único de Saúde, que a Fiocruz, ligada ao Ministério da Saúde, começou a desenvolver mais solidamente seu complexo de pesquisa e produção de vacinas, com as unidades de Biomanguinhos e Farmanguinhos.

Ela destacou, em seguida, que a realidade do mundo contemporâneo, com seu modelo de desenvolvimento econômico e ambiental, torna inevitável o surgimento de novos vírus respiratórios, e está ultrapassado o pensamento em voga na metade do século XX de que se conseguiria superar as viroses que desencadeiam. Entretanto, novos padrões de morbidade desses vírus se apresentaram. “Desde a década de 1990 vimos esses padrões irromperem”, disse, para então observar uma primeira vez que “não há bala de prata” frente a isso.

Sobre a opção que a Fiocruz fez pela parceria com a Universidade de Oxford e a AstraZeneca, Nísia Trindade explicou que antes a instituição fez prospecção para ter uma visão clara das possibilidades, e estabeleceu vários acordos de confidencialidade, considerando dois aspectos fundamentais: 1. o que seria mais rápido, e 2. qual parceria traria tecnologias de futuro, isto é, a possibilidade de aprendizagem para o país se preparar para a emergência de novas doenças.

O que a vacina de Oxford oferecia de saída era uma plataforma tecnológica que fora desenvolvida para a epidemia de MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio, na sigla em inglês) e infelizmente não finalizada. E que permitirá trabalhar não apenas na emergência, mas de forma contínua em vacinas contra malária, HIV, ebola, hepatite C, tuberculose e novos vírus respiratórios. Lembrou que os testes implicam o uso de 1,4 milhão de doses e que o acordo, dando tudo certo, possibilita a produção de 70 milhões de doses nos biorreatores da Fiocruz, com transferência de tecnologia.
Já no debate, respondendo a Reinaldo Guimarães, Nísia Trindade explicou que o valor de US$ 127 milhões no acordo com Oxford e AstraZeneka destinam-se ao insumo para a produção, dos quais US$ 90 milhões para a empresa. A parte do custo de transferência de tecnologia já está embutida aí. Além disso, terá que se investir US$ 1,60 em cada uma das 70 milhões de doses.

Acordo de co-desenvolvimento

Dimas Covas explicou que o acordo do Butantan com a empresa chinesa Sinovac é de co-desenvolvimento, não envolve pagamento de royalties, e o instituto é inteiramente responsável por toda a chamada Fase III da vacina. Normalmente, fase 3 são os testes clínicos em larga escala, mas, no acordo do Butantã, o que se chama de responsabilidade pela Fase III inclui: 1) fase 3 dos testes, 2), envase e 3) produção no país.

Trocando em miúdos, se a empresa chinesa se preparou com as fases 1 e 2 de desenvolvimento e testes clínicos para produzir algo como 300 milhões a 500 milhões de doses numa fábrica na China, cabe ao Butantan um grande trabalho para a produção tanto lá, porque é de sua responsabilidade a fase 3 dos testes clínicos, indispensáveis à produção, quanto aqui, porque se trata de colocar o instituto como produtor de 100 milhões de doses anuais da vacina.

Nesse grande trabalho, o Butantan, no momento, tem em curso a primeira etapa dessa Fase III, que é propriamente a de testes clínicos-3 com 9 mil voluntários em 10 centros de pesquisa no estado e no país. A segunda, que deve ser iniciada em outubro ou novembro, implica um acordo comercial com a Sinovac para formulação e envase aqui de 120 milhões de doses, ou seja, 60 milhões de vacinas (o produto da Sinovac prevê aplicação de duas doses em cada pessoa). E a terceira é a de produção total numa fábrica do Butantan, que está sendo readequada para obter 100 milhões de doses anuais (50 milhões de vacinas) a partir de meados de 2021. Isso, claro, se tudo der certo. Dimas Covas não informou o valor do acordo e limitou-se a dizer que ele é vantajoso para o Butantan, para São Paulo e o país.

Imensos desafios logísticos

O Brasil tinha um dos melhores programas nacionais de vacinação (PNV) do mundo, como destacou Maurício Barreto logo no inicio do webinar e como demonstrou à larga Carla Domingues em sua apresentação. Entretanto, desde o ano passado o PNV vem sofrendo um perverso desmonte, disse ela, que foi afastada da coordenação há pouco mais de um ano.

Apesar disso, é preciso que se inicie já o planejamento da vacinação anti-covid, em articulação com o Serviço de Vigilância Epidemiológica, analisando o perfil provável da vacinação em termos de faixa etária, esquema para uma ou duas doses – este último bem mais complicado – dados de segurança, de durabilidade do produto, campanha de mobilização, comunicação adequada etc.

Entre vários outros desafios, há que se considerar no planejamento, segundo Carla Domingues, perguntas como: qual será a eficácia do produto com mais chances de ser o primeiro aprovado: 40%, como em certas vacinas contra gripe? 50%? Quantos tipos de vacina serão utilizados no país simultaneamente e como será a logística de distribuição regional eficaz desses produtos? Qual o percentual da cobertura vacinal para se atingir imunidade coletiva? São muitas outras as que ela alinha para alertar e mostrar sua intensa preocupação com a ambiência pouco favorável do Ministério da Saúde para ações que exigem uma grande mobilização, planejamento e liderança.

Gulnar Azevedo, no encerramento do debate que terminou por se mostrar altamente revelador das grandes incertezas que cercam ainda a busca pela vacina anti-covid, mas também as sólidas possibilidades das instituições nacionais envolvidas nesse processo, observou que “fazer uma vacina não é simples. É uma ação complexa de busca da melhor eficácia possível, com a maior segurança, e a garantia de acesso da vacinação a toda a população”. O vídeo do debate é longo, mas é uma aula magistral e radicalmente honesta sobre a realidade em que nos encontramos nesse momento quanto à vacina contra a covid-19.

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