Muda a Saúde, mas Bolsonaro não muda e a crise política se agrava, por Luis Nassif

A receita de Teich para o fim do isolamento é a aplicação de testes em massa na população – algo que ele sabe impossível no Brasil, já que nem os Estados Unidos conseguiram essa universalização dos testes.

Vamos a algumas conclusões sobre a mudança do Ministro da Saúde, Luiz Fernando Mandetta, pelo oncologista Nelson Teich.

Primeira conclusão – não vai mudar a política de saúde. Muda apenas a retórica. Teich vai concordar com Bolsonaro e continuar fazendo o mesmo que Mandetta fazia. Aliás, o maior risco de descontinuidade é se Bolsonaro cumprir sua ameaça de indicar pessoalmente o segundo escalão.

Em relação à saúde pública, há dois tipos de ativismo médico: os médicos ligados aos planos de saúde e os sanitaristas, ligados à saúde pública.

Assim como Mandetta, Teich é ligado aos planos de saúde, apoiado por associações (como a Associação Médica Brasileira) críticas do Mais Médicos e de políticas de apoio ao SUS (Sistema Único de Saúde). E, assim como Bolsonaro, não tem a menor sensibilidade para as vítimas, aliás uma característica moral inerente ao bolsonarismo.

Ontem foi divulgado um vídeo no qual ele recomenda que, em caso de escolher entre um idoso e um jovem, o médico deveria optar por salvar o jovem. É até uma decisão justificável, do ponto de vista individual. Como bandeira, equivale a políticas eugenistas.

Mesmo assim, do ponto de vista da saúde, não irá atropelar as recomendações sobre isolamento horizontal. Não haverá como fugir do rumo traçado por Mandetta. Porque tornou-se consenso na comunidade médica, estará sob a vigilância do STF (Supremo Tribunal Federal), Congresso, imprensa e do próprio Mandetta, que continuará com visibilidade, agora como um ouvidor geral da saúde. Aliás, pela primeira vez na história, o DEM tem a oportunidade de contar com um presidenciável.

Teich vai apenas mudar a retórica, falar em volta gradativa da atividade, em benefício da dúvida para a cloroquina – do mesmo modo que Mandetta falaria, não fosse a polarização com Bolsonaro.

A receita de Teich para o fim do isolamento é a aplicação de testes em massa na população – algo que ele sabe impossível no Brasil, já que nem os Estados Unidos conseguiram essa universalização dos testes.

Portanto, a mudança não visou nem mudar a política, nem salvar vidas. Mas apenas salvar a cara de Bolsonaro.

Segunda conclusão – Bolsonaro não irá se acalmar com a substituição. Sua única forma de atuação política é o conflito. Negociações exigem igualdade intelectual entre os interlocutores, e Bolsonaro não é apenas um bronco, como tem consciência disso. Mais que isso, tem profundo complexo de inferioridade intelectual. Sua forma de defesa é o conflito.

Se Teich for esperto, se livrará do encosto. E os próximos alvos de Bolsonaro serão o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. E, provavelmente, Ministros do STF.

Terceira conclusão – Haverá um distanciamento cada vez maior da Câmara, pela perda total de confiança não apenas em relação a Bolsonaro, mas a Paulo Guedes.

Um dos ingredientes centrais de articulação política é a confiança na palavra dos negociadores.  Paulo Guedes age como a raposa do mercado. Com o Congresso e os governadores, tem-se valido de blefes e espertezas que podem ter alguma eficácia nos jogos de mercado – nos quais a partida acaba no momento da compra ou da venda. No jogo político, é veneno na veia.

E esse jogo tem pela frente o agravamento da crise do coronavid, com os leitos de hospitais sendo ocupados e, em breve, as cenas de Manaus – com cadáveres empilhados ao lado de doentes – se espalhando por outros centros. Mais que isso, a renda básica não está chegando na ponta, assim como o capital giro para pequenas e médias empresas, ampliando a angústia da população. Em breve aparecerão os resultados da profunda incompetência do governo na condução da crise.

A guerra política mal começou.

 

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