O que podemos aprender com a segunda onda da covid para evitar uma terceira crise?

Avanço do coronavírus tem leve desaceleração, mas caos pode voltar sem medidas coordenadas nacionalmente

Enfermeiras e enfermeiros protestam em Brasília contra a política de descaso do governo Bolsonaro frente à pandemia - Sergio Lima/ AFP

do Brasil de Fato

por Nara Lacerda

Nas últimas cinco semanas o Brasil viu os números de mortes e novos casos por covid-19 passarem por uma leve desaceleração. Os óbitos vêm caindo desde o início de abril e os registros de infectados, que por seis semanas ficaram acima de 450 mil e chegaram a superar meio milhão em três ocasiões, também diminuíram.

No entanto, o patamar alcançado pelo país nos últimos meses foi tão alto, que mesmo com a desaceleração, a situação é muito mais crítica que os piores momentos do ano passado. Se no inverno de 2020 registrávamos absurdos 250 mil novos contaminados e 7 mil mortos por semana, agora, temos mais de 400 mil casos a cada sete dias e há dois meses perdemos mais de 15 mil vidas por período.

Muito poderia ter sido feito nos momentos em que a propagação foi menos agressiva, registrados entre setembro e outubro de 2020. Com coordenação nacional das medidas de prevenção, a segunda onda poderia ter sido evitada. Hoje, o país vive uma desaceleração mais tímida, mas mesmo assim, o governo federal não dá mostras de que tenta se preparar para evitar mais um colapso.

Em participação no podcast A Covid-19 na Semana, a médica de família e comunidade Nathalia Neiva dos Santos, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, afirma que há muitas lições a serem aprendidas. Uma das mais importantes é a necessidade de fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

“São orientações baseadas em experiências de outros países que conseguiram controlar a receita, combinadas com uma reflexão sobre a realidade brasileira. O Brasil tem um Sistema Único de Saúde que deveria ser reforçado, tanto na atenção hospitalar, mas principalmente na atenção primária.”.

Ao falar sobre atenção primária, Nathália se refere a medidas básicas, como a testagem em massa e o monitoramento de pessoa que tiveram contato com infectados, algo que nunca aconteceu no Brasil, “são várias lições, desde o âmbito individual, dentro de casa, até o sentido mais sistêmico”.

Além do fortalecimento do SUS, a lista de ações essenciais citadas pela médica tem o controle da circulação de pessoas entre estados para evitar a propagação de novas variantes e a condução de campanhas de orientação para uso de máscaras e distanciamento. O Brasil também falhou no investimento em pesquisa e na aquisição de vacinas.

A julgar pelas declarações mais recentes do presidente Jair Bolsonaro, nada vai mudar. Na quarta-feira (5), ele insinuou que o coronavírus pode ter sido criado em laboratório, tese rechaçada pela ciência. Sem citar diretamente a China, Bolsonaro citou uma suposta “gerra química” e finalizou perguntando, “Qual país que mais cresceu seu PIB?” menção óbvia à nação asiática.

Em mais de uma oportunidade nesta semana, o presidente disse que tem um decreto pronto para proibir que estados e municípios tomem medidas de restrição da circulação. Segundo ele, o texto se baseia na Constituição Federal e garante o “direito de ir e vir”.

Na segunda-feira (3), foi divulgada uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicando que três em cada quatro brasileiros perderam alguém para a covid-19 desde o início da pandemia. 53% perderam um amigo, 25% um parente que mora em outra residência e 15% um colega de trabalho.

Ainda de acordo com o estudo, 89% das pessoas consideram a pandemia no Brasil “muito grave” ou “grave”. No dia seguinte à divulgação dos dados, o ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou à CPI da Covid que enviou uma carta a Bolsonaro em março do ano passado com um alerta sobre a gravidade da pandemia. 

Nathalia Neiva dos Santos afirma que é necessário refletir sobre os objetivos do governo, “Ao olhar como o governo federal tem trabalhado a pandemia, há posicionamentos que são escolhas. Se nega a gravidade do vírus, se nega a necessidade de reforçar o sistema de saúde público”, ressalta ela.

“Uma reflexão que a gente precisa começar a fazer sobre como se porta esse governo na sabotagem cotidiana do controle da pandemia, é de que consolidar esse regime, que é o neofascismo mesmo, passa pelo descontrole da pandemia”, alerta a médica.

Na quinta-feira (6), o Brasil chegou à marca de 15 milhões de pessoas contaminadas desde o início da pandemia. O número oficial de vidas perdidas para o coronavírus é superior a 419 mil. As estimativas de subnotificação feitas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam mais de meio milhão de mortes por covid em território nacional. 

“A gente tem a resiliência da população brasileira sendo testada, porque está sendo jogada para a marginalidade, para o empobrecimento. Uma condição, que a gente pode colocar que é de anestesia, para não construir lutas populares no futuro de resistência”, finaliza Nathalia.

Ouça o podcast na íntegra no tocador abaixo do título desta matéria. Clique aqui e acesse também as edições anteriores do projeto.

Edição: Douglas Matos

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