Os relatos de 100% das UTIs lotadas no Rio Grande do Sul

Tanto a rede pública, como a privada estão com 100% de sua capacidade ocupada, enquanto que os médicos já precisam escolher entre quem irá viver.

Jornal GGN – Com 100% do total de 3 mil leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva) lotados, o Rio Grande do Sul vive um cenário dramático. Tanto a rede pública, como a privada estão com 100% de sua capacidade ocupada, enquanto que os médicos já precisam escolher entre quem irá viver.

“É uma coisa que a gente nunca viu aqui em Porto Alegre”, relatou o médico Túlio Tonietto, do Hospital Moinhos de Vento, que está entre os 6 hospitais de excelência do Brasil, o único da região Sul do país. Mas toda a capacidade tecnológica, estrutura e expertise médica não está bastando.

“O que mais me marca nessa pandemia é a impossibilidade de conseguir absorver todos os pacientes que precisam de UTI. Somos um hospital de ponta, o terceiro melhor hospital do Brasil. Na quarta de manhã, por exemplo, havia seis pacientes em ventilação mecânica na emergência. Lá não é o local adequado. Fizemos um mutirão para transportar alguns deles. À noite, já havia nove pacientes de novo na mesma situação. É uma coisa que a gente nunca viu aqui em Porto Alegre”, relatou, em entrevista ao Estadão.

Para o médico José Augusto Pellegrini, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, já não há dúvidas “de que não vamos dar conta da transmissão desenfreada que está acontecendo”.

Enquanto o Rio Grande do Sul está em bandeira preta, a pior classificação de risco pelo governo, as mortes continuam a crescer, assim como os números de contágios e necessidade de hospitalizações. Nesta quinta (04), foram 188 mortes por Covid-19 e 9.994 novos casos confirmados em 24h.

O médico Leandro Figueiredo, da Beneficência Portuguesa de Pelotas, disse que o cenário ocorre ao mesmo tempo que “as pessoas não têm noção” do que está acontecendo. “A gente que está no hospital vê a gravidade e rapidez com que a doença evolui”, alertou.

“No início da pandemia a gente estava bem preparado e não viu todo esse volume de casos. De novembro para cá o atendimento aumentou muito, tanto no pronto atendimento quanto na UTI”, narrou o médico de Pelotas.

Segundo ele, a dificuldade de abrir novos leitos é de conseguir também pessoal, médicos e enfermeiros para atender. Figueiredo relata também o desgaste e a alta demanda do trabalho, com desgastes físicos e mentais, o chamado bornout.

“Eu trabalho todos os dias das 8h às 18h e faço plantões noturnos nas quartas e sextas-feiras a cada quinze dias. Também faço plantão de 24h em dois fins de semana por mês. Nesse meio-tempo preciso cobrir algum colega que está doente”, contou.

Mapa de Leitos da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul mostra 100% de ocupação de leitos de UTI Adulto no estado

O médico intensivista do Hospital Moinhos de Vento, da capital, também comentou a impotência dos profissionais ao ter que deixar os pacientes em isolamento. “Outra coisa muito impactante é o isolamento ao qual os pacientes estão submetidos.”

“O momento da entubação é muito triste. Quando dá, a gente faz uma chamada de vídeo com a família e esse encontro é uma coisa que mexe com todo mundo. Nós dizemos que logo eles vão se reencontrar, mas sabemos que isso provavelmente não vai acontecer. Isso mexe muito com a equipe assistencial”, narrou.

O médico constatou, também, que o perfil dos pacientes internados por Covid-19 vem mudando, atingindo também os mais jovens e com poucas comorbidades. “Hoje chegou uma paciente de 38 anos, sem comorbidades que talvez precise de intubação”, lembrou.

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), pediu ajuda do governo federal, em uma carta conjunta assinada por 14 governadores, solicitando que o presidente Jair Bolsonaro adote providências para adquirir mais vacinas contra o novo coronavírus.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora