Por que não se deve esperar muito do novo Ministro da Saúde

Teich assume com uma desconfiança central: o fato de ser um Ministro de Bolsonaro. Seu julgamento será muito mais rigoroso que o de Mandetta. Cada vacilo será cobrado, cada concessão fuzilada. Para vencer as desconfianças, ele teria que tomar atitudes firmes, incompatíveis com o modelo Bolsonaro de truculência

Em live recente com um site de Oncologia, no começo de abril, o médico Nelson Teich não se comportou como um terraplanista. Deu explicações razoáveis sobre as falhas do sistema de saúde e as maneiras de se planejar a batalha contra o coronavirus. Mesmo a frase mais polêmica – sobre a compra de ventiladores -, colocada no contexto é menos drástica do que parece. Disse ele que há muitas prioridades de compras. Sem um planejamento pode haver compras excessivas de alguns equipamentos em detrimento de outros. Com planejamento, poderia haver remanejamentos racionais. Mas – salientou ele – o papel do gestor é se preparar para todos os cenários, mesmo os mais improváveis.

 

Seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, deixou um legado de vulnerabilidades e algumas virtudes.

Dentre as vulnerabilidades:

  1. Não acionou a rede privada, para atuar de forma complementar ao SUS (Sistema Único de Saúde), provavelmente devido às suas ligações com os planos de saúde.
  2. Permitiu aos planos acesso às reservas técnicas – depósitos realizados da Agência Nacional de Saúde, para garantir o cumprimento dos compromissos com os usuários – sem impor nenhuma contrapartida. Novamente, devido às suas ligações com a Unimed.
  3. Não montou nenhum plano de contingência para duas áreas centras de combate ao coronavirus: favelas e periferia e presídios.
  4. Atrasou drasticamente os testes com coronavirus, devido à demora em adquirir no exterior.
  5. Não articulou o trabalho de reconversão da indústria, que exigiria montar um meio campo entre órgãos de fomento e setor empresarial.
  6. Deslumbrou-se com a popularidade adquirida, planejando sua saída antes da crise chegar ao pico.

Dentre as virtudes:

  1. A articulação com Secretários de Saúde de todos os estados, independentemente de filiação partidária.
  2. Liderança da máquina pública, que trabalhou a favor, inclusive anulando o terraplanismo do presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
  3. A resistência contra o terraplanismo de Bolsonaro.

Com isso, conseguiu apagar da opinião pública o início desastroso de sua gestão, acabando com o Mais Médicos e aceitando o enfraquecimento do SUS, e a demora em tomar atitudes ante o coronavirus.

Teich assume com uma desconfiança central: o fato de ser um Ministro de Bolsonaro. Seu julgamento será muito mais rigoroso que o de Mandetta. Cada vacilo será cobrado, cada concessão fuzilada. Para vencer as desconfianças, ele teria que tomar atitudes firmes, incompatíveis com o modelo Bolsonaro de truculência. Mais ainda depois de se saber que Bolsonaro colocou olheiros do Ministério e monitoramento para evitar que Teich ganhe vida própria.

Nos primeiros movimentos, Teich deu bons sinais, acenando para a cooperação com os conselhos Secretarias estaduais de saúde. E a visão correta de que a luta contra a pandemia tem que contemplar simultaneamente a saúde, a economia e a questão social.

Mas paira sobre ele a convicção de que não conseguirá servir aos seus três senhores: a saúde, o mercado e Bolsonaro. Assim como Mandetta, fora do governo seus clientes vêm do mercado.

Suas vulnerabilidades são óbvias:

  1. Falta de conhecimento da máquina pública.
  2. Compromissos com o mercado, que, a exemplo de seu antecessor, poderá impedir a convocação da rede privada como complementar ao SUS.
  3. Necessidade permanente de prestar contas a Bolsonaro.

Por tudo isso, a probabilidade de sua gestão ser bem-sucedida é bastante pequena. O que reforça o cenário de agravamento da crise, com consequências sociais, políticas e econômicas.

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