Precisamos falar sobre “Janeiro Branco”, por Rita Almeida

Precisamos falar sobre “Janeiro Branco”
 
por Rita Almeida

Eu, particularmente, tenho sérias críticas a todas essas campanhas de massa quando os temas são muito subjetivos. Mas se o “Janeiro Branco” já está na pauta, precisamos falar sobre ele.

Desde 2014 que esta campanha tem tomado a cena na imprensa e nas redes sociais. Foi instaurada por profissionais da área psi e a intenção é, segundo seus criadores, chamar a atenção para o tema da saúde mental, fomentando estratégias que atuem no cuidado e na prevenção do que a proposta chama de “adoecimento emocional dos indivíduos”. Janeiro é escolhido por, supostamente, ser o mês em que as pessoas refletem sobre a própria vida e sobre os projetos para o ano que se inicia. Não sei por que escolheram o “branco” como sobrenome da campanha, mas trata-se de um significante, no mínimo, discutível, num país tão racista. Destaco ainda alguns slogans colhidos do site da campanha: quem cuida da mente, cuida da vida”; “quem cuida das emoções, cuida da humanidade”; “quem cuida de si, já cuida do outro”; “sem psicoeducação não haverá solução”; “autoconhecimento: isso também tem a ver com a sua saúde mental”; “o que você não resolve em sua mente, o corpo transforma em doença”.

Sustentar um viés político na psicologia e demais campos psi tem sido um enorme desafio. Especialmente num tempo em que todos os nossos mal-estares psíquicos têm sido associados a alguma disfunção do funcionamento cerebral, como se o sistema nervoso central fosse o único ou o principal responsável pela saúde mental do ser humano. A medicalização massiva da sociedade atual, por exemplo, se sustenta neste modo de pensar. Mais do que descolar o sujeito de seu aspecto corporal, relacional, social e cultural, o discurso atual tende a compreender o psíquico como algo que acontece apenas dentro da mente do indivíduo, ou o que é pior, na estrutura ou na química do seu cérebro. Trata-se de uma concepção de corpo e/ou mente meramente orgânica ou biológica, que desconsidera o atravessamento da linguagem e, consequentemente, da política.

O “Janeiro Branco” aborda a questão da importância do cuidado em saúde mental – o que, de fato, é fundamental. Não se pode negar que o sofrimento psíquico ganhou destaque dentre os problemas de saúde que nos assolam na atualidade, assim sendo, todas as ações e mobilizações nesse campo são bem vindas.

Entretanto, é fundamental tomar tal sofrimento também pelo seu viés político, o que significa não tomar a saúde mental como algo que acontece apenas no campo do indivíduo, no seu interior, desconsiderando todos os aspectos que lhe influenciam e todas as pressões externas que lhe causam mal-estar. Dito de outro modo, trata-se de compreender que os sintomas e loucuras que se manifestam na singularidade de cada um são também uma tentativa de resistir à massificação ou de lidar, de um modo próprio, com os sintomas ou crises familiares, institucionais, sociais, ou outras no âmbito das relações do sujeito.

Também se faz necessário não cair numa narrativa ingênua de acreditar que ter saúde mental seja o mesmo que “ser feliz”. O risco é tomar tal conceito como sinônimo de estabilidade emocional, correlato a uma mera adaptação ao meio. Se ampliarmos nosso olhar para uma visada política, um sintoma singular pode ser sinal de saúde mental, algo que o sujeito sustenta a fim de denunciar uma doença que se apresenta em seu entorno. Assim sendo, trazer tal dimensão para campanhas tais como “Janeiro Branco” é cuidar para que ela ganhe uma abrangência com compromisso social e ética política, evitando ser apenas mais uma a culpabilizar o sujeito (e seu cérebro) pelo próprio mal-estar, ou a transformar qualquer desvio à norma em doença mental, a ser curada por profissionais psi. 

Cuidar da saúde mental, por essa perspectiva, é pensar nas injustiças sociais, no trânsito, na fragilização das relações de trabalho, na situação econômica e política do país, no modo como lidamos com as minorias e populações mais frágeis, no modo como educamos nossas crianças, ou seja, em todos os aspectos que interferem na vida das pessoas. Desse modo, qualificamos o debate chamando a atenção da sociedade para a importância do elo entre saúde mental e saúde social, indicando que o cuidado deve acontecer “dentro” e “fora” dos sujeitos e, sobretudo, “entre”, ou seja, em tudo o que diz respeito às nossas relações.

Assim sendo, promover saúde mental é muito mais do que ter um cérebro funcionando bem, um sujeito bem adaptado ou que perseguir um ideal de felicidade. Trata-se de uma construção que não cessa e que precisamos fazer no um a um, mas, sobretudo, no campo das inter-relações e da coletividade. No campo da saúde mental cuidar de si e cuidar do outro tem igual importância.

 

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3 comentários

  1. Iria postar em outro local mas parece oportuno aproveitar o tema

    No vídeo interessante do programa da Rede Minas, é comovente o olhar e receios do idoso LGBT com relação ao envelhecimento, podendo mesmo vir a trazer problemas mentais e/ou psíquicos. Muitos gays tem de “voltar para o armário” e uma pergunta também sobra: porque comumente não vemos nas ruas travestis idosos?

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=0wiPz5FHEm4%5D

  2. Janeiro branco

    Há sério risco que seja “parametrizado” o conceito e que todos que estejam fora do parâmetro (que pode até ter legislação própria) sejam considerados doentes, sem necessariamente sê-lo.

  3. Ano arco-íris

    Nada a ver com o mérito da discussão, aliás super importante.

    Mas essa história de colocar uma cor para cada mês de campanha de prevencao de doenças logo, logo vai levantar suspeitas da bancada evangélica alegando uma conspiração LGBT para criar comemorações anuais em alusão a essa causa.

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