Profissionalismo estamental, por Jorge Alexandre Neves

Foto Araquém Alcântara

Profissionalismo estamental, por Jorge Alexandre Neves

“Para lá vão os jornalistas, os escritores, os artistas; ali vão também os bancários, as altas patentes dos comerciários, os lojistas, os boticários, os localizados aeroviários e os de profissões liberais que não se libertaram jamais”. (João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina…).

“É difícil não se deixar impressionar pela permanente disposição de nossos profissionais para o despotismo… São histórias de elites saturadas de valores excludentes, antidemocráticos, antipovo”. (Edmundo Campos Coelho, As profissões imperiais…).

A mais nova lambança do processo de transição para o governo do deputado Jair Bolsonaro, que culminou com a decisão do Estado cubano de romper o contrato de prestação de serviços dos seus médicos, terminou por explicitar o sistema estamental formado pelos profissionais brasileiros. Algo que é, provavelmente, único no mundo.

Em seu livro “As profissões imperiais…”, Edmundo Campos Coelho mostra a especificidade do sistema profissional brasileiro. Em terras tupiniquins, os profissionais (como ocorreu com as elites de modo geral, que sempre obtiveram privilégios excepcionais) conseguiram obter o bônus da proteção legal do Estado (como ocorreu na França, por exemplo), que lhes garantiu reserva de mercado, e, ao mesmo tempo, nunca tiveram que pagar o ônus do controle estatal sobre suas remunerações (liberdade obtida pelos profissionais no mundo anglo-saxão, onde, porém, não contaram com a proteção do Estado).

Formaram, assim, uma elite cheia de privilégios e, ao mesmo tempo, umbilicalmente ligada ao Estado. Daí a citação das palavras de João Cabral, profissionais liberais que jamais quiseram se libertar do Estado que lhes dá privilégios especiais sem lhes pedir nada em troca.  Os profissionais, no Brasil, sempre foram extremamente elitistas e exclusivistas. Como explicitou Edmundo Campos Coelho, sempre odiaram o povo e nunca nutriram afeto pela democracia.

Tenho o costume mórbido de ler comentários a notícias e postagens feitas na internet. Desde o anúncio da decisão do governo cubano, tenho buscado ler os comentários de médicos brasileiros. De modo geral, são absolutamente chocantes! Um ponto que fica claro é, a menos que o Estado brasileiro lhes ofereça condições ideais de trabalho e remuneração de magistrados, não irão ocupar as vagas que serão abertas com a saída dos médicos cubanos. Um dos comentários foi exemplar, o médico listou os equipamentos mínimos que exige para ir trabalhar em qualquer lugar. Ao final, comenta, que o referido “quite” tem um custo absolutamente módico, em torno de R$ 200 mil. Onde vivem essas criaturas? Só mesmo um profissional que faz parte de um estamento elitizado para postar um comentário desses com a maior naturalidade.

Pude acompanhar, durante minha vida, parentes envolvidos com a saúde pública. Tive um tio, Alberto Neves, que começou sua vida profissional de médico no então “Serviço da Peste” (hoje Fundação Nacional de Saúde – FUNASA), no sertão do cariri cearense. Lembro-me de suas histórias sobre como, embora fosse epidemiologista, teve que fazer todo tipo de intervenções médicas. Quando viajava pelas áreas rurais, sempre levava consigo um livro de cirurgia e outro de anatomia, além de equipamento básico, como bisturis. Várias vezes teve que realizar intervenções cirúrgicas, algumas bem sucedidas, outras não. Uma das vitórias que mais gostava de celebrar foi a de ter aberto a caixa craniana de um homem que levou um tiro de bacamarte na cabeça para lhe retirar todos os fragmentos de chumbo do cérebro tendo o mesmo sobrevivido, ao final. Uma cirurgia realizada sobre a mesa da cozinha da humilde casa de taipa onde meu tio passaria aquela noite. Algum tempo depois, meu tio Alberto foi para a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), onde trabalhou durante décadas combatendo a malária nas florestas da América Central, quando teve que manter sua prática de médico generalista, inclusive realizando várias cirurgias.

Tenho um irmão que é dentista da FUNASA. Começou sua carreira em Lábrea, município do sudoeste do estado do Amazonas. Lembro-me que, antes de seu deslocamento, lhe foi recomendado que lesse e tivesse consigo um livro intitulado “Onde não há médicos”. Em muitos momentos, em seus deslocamentos pelos rios da Amazônia, teve que fazer o papel de médico. Outro parente nosso, Fernando Neves, foi médico da FUNASA, tendo atuado no atendimento à população mais vulnerável dos rincões da região Nordeste.

Meu tio Alberto, meu primo Fernando e meu irmão Jorge Eduardo fizeram a diferença sem a presença de “quites” de R$ 200 mil. Obviamente, muitas vezes tiveram que lidar com a frustração de perceber que pacientes que pereceram poderiam ter sido salvos se houvesse condições ideais de tratamento. Contudo, mantiveram a altivez vinda da convicção de que fizeram o melhor que podiam e impactaram positivamente o atendimento à saúde de milhares de pessoas necessitadas de tudo.

Obviamente, há hoje jovens médicos vocacionados que mantêm um trabalho heroico pelo Brasil afora (conheço alguns). Muitos estão congregados na Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO). Todavia, infelizmente, os resultados de pesquisas que tenho lido me levam a concluir que – no caso da esmagadora maioria dos profissionais – o nível de elitismo dos médicos brasileiros hoje é ainda maior àquele da virada do século XIX para o século XX, que foi captado por Edmundo Campos Coelho em sua pesquisa historiográfica.

Em resposta à decisão do governo cubano, o Conselho Federal de Medicina emitiu uma nota na qual esclarece duas coisas: a) “Cabe ao governo — nos diferentes níveis de gestão — oferecer aos médicos brasileiros condições adequadas para atender a população, ou seja, infraestrutura de trabalho, apoio de equipe multidisciplinar, acesso a exames e a uma rede de referência para encaminhamento de casos mais graves” e; b) “Para estimular a fixação dos médicos brasileiros em áreas distantes e de difícil provimento, o governo deve prever a criação de uma carreira de Estado para o médico, com a obrigação dos gestores de oferecerem o suporte para sua atuação, assim como remuneração adequada”.

Não é à toa que o Brasil é um caso único no mundo de país com elevada carga tributária e desigualdade estratosférica, como mostrei em minha coluna “O novo crepúsculo do liberalismo”, aqui no GGN. Esses mesmos médicos que querem uma carreira de Estado (carreira tipo a de magistrado) para a medicina, são defensores de políticas neoliberais. Para as elites brasileiras é assim, o liberalismo é para os outros, ou seja, aqueles nos andares abaixo. Para as elites (inclusive o estamento burocrático e profissional), a velha e boa proteção do Estado!

Jorge Alexandre Neves – Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia), pesquisador do CNPq e articulista do jornal Hoje em Dia. Especialista em desigualdades socioeconômicas, análise organizacional, políticas públicas e métodos quantitativos.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora