Reitoria da USP tenta se livrar do Hospital Universitário

Jornal GGN – Os médicos do Hospital Universitário da USP estão em greve desde o início da semana reivindicando que sejam realizadas contratações para recompor as equipes. Essa é a apenas a crise mais recente de um desmonte sistemático levado a cabo nos últimos anos, com demissão de profissionais, fechamento de leitos e redução no número de atendimentos à população.

De acordo com dados de estatística do Hospital Universitário obtidos pela Folha de S. Paulo, de 2013 a 2015, as consultas ambulatoriais caíram 30%, as urgências recuaram 24%, as internações caíram 21%, os procedimentos cirúrgicos minguaram 25%. Saíram do hospital 43 médicos e 195 servidores administrativos.

Para o vice-diretor do HU, Gerson Salvador, a reitoria quer “se livrar” do hospital. “A situação é reflexo do desmonte da USP, mas a população é a maior prejudicada”.

O HU é o único hospital de referência na região do Butantã. Segundo o Conselho Gestor de Saúde do bairro, 600 mil pessoas dependem dele. “É uma região de vulnerabilidade, com 54 favelas no entorno. São pessoas sem outra opção”, diz Mario de Souza Filho, ligado ao conselho.

Mesmo em greve, os atendimentos de casos graves estão mantidos. Parte das atividades dos alunos de Medicina têm sido prejudicadas.

Da Folha de S. Paulo

Em greve, hospital da USP reduz atendimentos e enfrenta desmonte

Por Paulo Saldaña

Com médicos em greve desde o início da semana, o HU (Hospital Universitário) da USP enfrenta um desmonte nos últimos anos, com demissão de profissionais, fechamento de leitos e o consequente recuo no número de atendimentos à população.

A reivindicação dos médicos em greve não é salarial. Eles exigem contratações para recompor as equipes da unidade, localizada no Butantã, zona oeste da cidade. As consultas ambulatoriais caíram 30%, de 138 mil, em 2013, para 96 mil, em 2015. As urgências recuaram 24%, o que representa 65 mil casos a menos no período. Já nas internações, houve queda de 21% no mesmo período. Procedimentos cirúrgicos, por sua vez, minguaram 25%.

Os dados obtidos pela Folha são do serviço de Estatística do HU. O impacto nos atendimentos é resultado, segundo servidores, do desmonte do hospital. A crise no HU começou em 2014, quando a reitoria aprovou um PDV (Plano de Demissão Voluntária) na universidade. A medida foi uma das tentativas de combate à crise financeira da instituição.

Saíram do hospital desde então 43 médicos. Uma redução de 15% –o HU tem hoje 253 médicos. Além disso, 195 servidores administrativos se desligaram da unidade. Na mesma época, a reitoria propôs transferir o hospital para a Secretaria Estadual de Saúde. Houve resistência dos servidores, e o processo está parado até agora.

Como a USP congelou a partir de 2014 as contratações na universidade, o HU teve de reduzir 21% dos leitos. Foram fechados 49 e o hospital trabalha hoje com 184 leitos. Para o vice-diretor do HU, Gerson Salvador, a reitoria quer “se livrar” do hospital. “A situação é reflexo do desmonte da USP, mas a população é a maior prejudicada”.

MENOS ATENDIMENTO

Nos últimos anos, a redução dos procedimentos é maior em algumas modalidades. Nas urgências de oftalmologia, o HU registrou 11,8 mil atendimentos em 2013, contra 1,2 mil no ano passado. Uma queda de 89%. Os casos urgentes de ginecologia passaram de 11,1 mil para 6,8 mil, um recuo de 39%. As internações nesta especialidade recuaram 37% (passou de 435 para 274).

O atendimento a crianças também teve foi reduzido. As internações na área caíram 17%. Sem pessoal, o HU cancelou o serviço de pediatria à noite em março de 2015. Quem consegue ser atendido enfrenta condições ruins. O pronto-socorro tem 12 macas nos corredores, sem equipamentos de monitoramento, conforme a Folha flagrou. Outras 11 macas (monitoradas) ficam no local.

A mãe da servidora pública Janice da Silva, 50, está desde domingo nessa sala. “Não tem espaço para todo mundo e é sempre muito cheio”, diz. “Eu senti que os médicos têm feito o melhor, mas eles não dão conta.” O HU é o único hospital de referência na região. Segundo o Conselho Gestor de Saúde do Butantã, 600 mil pessoas dependem dele.

“É uma região de vulnerabilidade, com 54 favelas no entorno. São pessoas sem outra opção”, diz Mario de Souza Filho, ligado ao conselho. Mesmo em greve, os atendimentos de casos graves estão mantidos. Parte das atividades dos alunos de Medicina têm sido prejudicadas.

A reitoria não comentou a queda de atendimentos e as condições de atendimento. Ressaltou que, apesar da paralisação, o funcionamento não foi interrompido.

IMPASSE

As negociações da reitoria com servidores e professores em greve da USP estão interrompidas desde o início desta semana, quando houve a última reunião com o Cruesp (conselho de reitores). O conselho, que envolve também a Unicamp e a Unesp, ainda nem marcou nova reunião.

A situação é de impasse. A USP e as outras duas universidades ofereceram um reajuste salarial de 3%. Os servidores pedem 12,3%, sendo 9,34% de recomposição da inflação e 3% para recuperar perdas. A reitoria já sinalizou que chegou à proposta final. Servidores insistem que a pauta é mais ampla.

Além de serem contra a entrega do Hospital Universitário ao governo, os grevistas pedem contratações para recompor quadros, interrupção de projeto de alteração de carreira docente e ampliação de atendimento de creche, entre outros pontos. “Encerraram as negociações mesmo com uma pauta que não depende só de recursos”, diz Neli Wada, do Sintusp, Sindicato dos Trabalhadores da USP.

Prédios de letras, geografia, história e da ECA (Escola de Comunicação e Artes) estão ocupados. Manifestantes fizeram piquete na administração e impediram o acesso de funcionários. Professores da Unicamp aprovaram greve por tempo indeterminado.

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3 comentários

  1. Esse é o modo/modelo tucano de tratar Educação Saúde.

    Prezados leitores,

    Não se surpreendam com o desmonte de setores essenciais como os de Educação e Saúde por parte dos governos tucanos. Isso não ocorre por acaso. O projeto deles é esse mesmo. Se duvidarem, perguntem a quem estava numa universidade federal quando FHC era o presidente e Paulo Renato o ministro da Educação. 

    A filosofia do PSDB é neoliberal-privatista; apenas os endinheirados, que podem pagar por serviços que deveriam ser públicos, terão atendimento digno. Observem que o mais rico estado da federação possui uma educação fundamental e média de baixíssima qualidade. Os serviços de Saúde de responsabilidade da unidade federativa têm sido sucateados ao longo desses 20 anos. As polícias e os agentes de segurança pública têm como propósito reprimir, espancar, assassinar pessoas pobres da periferia, estudantes, integrantes de movimentos sociais, etc.

    Quase todos os serviços públicos (rodovias, ferrovias, fornecimento de energia elétrica e gás, serviços de telecomunicações, sistema de transporte de massas) foram privatizados, tiveram elevado o seu custo e nem sempre melhorada a qualidade.

    As universidades estaduais (USP, UNICAMP e UNESP) estão sendo sucateadas de forma deliberada,  planejada. O argumento ‘crise’ é mais do que falacioso. 

    O que me surpreende que o antipetismo patológico e o nazifascismo inoculados nos paulistas os cegou a tal ponto que eles foram capazes de reeleger geraldo alckmin no primeiro turno, mesmo sabendo de todos os esquemas de corrupção e desvio de dinheiro público e do desmonte dos setores essenciais que citei. O PIG/PPV é o maior responsável por essa catástrofe que assola SP.

  2. É a rotina tucana há 25 anos.

    É a rotina tucana há 25 anos. O bem estar público é sempre uma chatice que só se pode resolver dinamitando direitos trabalhistas e entregando os bens públicos (agora é a vez do pré-sal e da Petrobras) às Chevrons da vida.

  3. O mesmo está ocorrendo com a Uerj, no Rio

    A universidade está em greve há 3 meses. Ontem mais de 300 terceirizados foram demitidos, e já estavam com os salários atrasados por 7 meses. Mesmo se os professores quiserem voltar, nao há elevadores (a Uerj tem 12+1 andares, sendo que cada andar sao na verdade 2, porque as rampas ligam prédios diferentes, e há 2 lances de rampa para subir para cada andar) nem limpeza, nao há condiçoes de dar aulas.

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