Vacinação de adolescentes e 2ª dose antecipada: temas importantes seguem sem unidade no Brasil

Sem direcionamento nacional, estados e municípios tomam decisões chave por conta própria, e PNI segue com discrepâncias

Agência Brasil

do Brasil de fato

por Nara Lacerda

Neste sábado (17), o Brasil completa sete meses do início da campanha de vacinação contra a covid-19. Mais de um semestre depois da primeira inoculação, ainda não há direcionamento nacional quanto a temas importantes e gargalos que poderiam ser resolvidos com medidas simples, como a mera orientação básica à população.

Entre os debates que marcaram a semana, estão decisões tomadas por estados e municípios sobre a antecipação da segunda dose e a imunização de adolescentes. Sem unidade em todo o país para esses temas, há chance de que eles acabem causando discrepâncias no Plano Nacional de Imunização (PNI).

A conversa em torno da vacinação para menores de 18 anos voltou à pauta no último domingo (11), quando o governo de São Paulo anunciou um novo calendário de imunização, incluindo pessoas a partir de 12 anos. Nesse mesmo dia, as autoridades estaduais informaram que têm como meta vacinar toda a população paulista adulta até agosto.

Em reação imediata, a Sociedade Brasileira de Imunizações considerou o anúncio uma espécie de estratégia política e disse que tratar do assunto agora pode causar confusão. Para a entidade, o ideal é aguardar o avanço da vacinação em adultos e as definições do PNI.

O anúncio do governo de São Paulo veio seguido de um alerta da prefeitura da capital. Na segunda-feira (12), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que a cidade não tinha doses suficientes para seguir o cronograma estadual.

Dois dias depois, a contagem de cidades do estado que interromperam a vacinação por falta de doses chegava a 30 municípios. Essa realidade se repete pelo Brasil. Na última semana, houve informações sobre paralisação em Goiânia e Curitiba, por exemplo. 

Em participação no podcast A Covid-19 na Semana, a médica de família e comunidade Nathalia Neiva dos Santos, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, afirma que há ausência de coordenação nacional desde o início da campanha.

“Quando o Ministério da Saúde anunciou o Plano de Operacionalização da Vacinação, em março deste ano, havia uma falta de concretude de como se daria a vacinação”, aponta a médica.

Segundo Natália, em consequência disso, estados e municípios têm colocado em prática medidas antecipadas, “sem de fato conseguir cumprir um cronograma que foi estabelecido inicialmente obedecendo o padrão comportamental do vírus. É um espelho da falta de centro e de governo”.

Ao portal UOL, o Ministério da Saúde disse que a vacinação para adolescentes está em estudo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária já havia atestado a segurança da aplicação de doses da Pfizer entre os jovens. Mas, mesmo assim, não há ainda um direcionamento nacional oficial.

O assunto também foi tratado pelo Supremo Tribunal Federal. Na terça-feira (13), o ministro Gilmar Mendes determinou que o governo analise a necessidade de inclusão de cidadãos entre 12 e 18 anos no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação, com priorização dos grupos de risco.

Para além dessa questão, há outros obstáculos que precisam ser superados, entre eles a falta de retorno para a segunda dose. Ainda, segundo cálculos da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista, 20% dos brasileiros com mais de 40 anos, que já poderiam estar imunizados, ainda não procuraram os postos de saúde.

Mesmo com essas questões não resolvidas, pelo menos sete estados brasileiros já informaram que vão antecipar a segunda aplicação da vacina para os imunizantes da Pfizer e Astrazeneca, outra decisão importante que não conta com coordenação nacional.

No caso da Astrazeneca, a  Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) orienta a manutenção do prazo de 12 semanas entre as duas doses. “A pergunta que fica é: em qual momento  se viu um estímulo à adesão à vacinação? Há pouca campanha. Do que adianta começar a fazer algo que não é recomendação?”, questiona Nathália Neiva.

A correria, na opinião da médica, “passa por cima de orientações científicas”. Ela teme que os anúncios de medidas não orientadas possam “iludir” a população para o fim de uma crise que ainda deve perdurar. 

É fato que a semana que se encerra neste sábado (17) confirma tendência de queda no ritmo de crescimento da covid-19 em solo nacional. Segundo a Fiocruz, pela primeira vez desde dezembro, nenhum estado tem ocupação de UTIs superior a 90%.

No entanto, o Brasil chegou a um patamar tão alto de contaminações e mortes por dia que os números mais baixos de hoje ainda são piores do que os registrados nos momentos mais dramáticos da pandemia em 2020.

Há quase um mês, o país é a nação do mundo que registra a pior média diária de óbitos, segundo a plataforma Our World In Data, da Universidade de Oxford. Os registros da variante delta em território nacional também estão crescendo. Segundo estudos, ela é mais infecciosa.

“Enquanto a vacina for encarada como uma solução individual, vai dar uma falsa sensação de segurança e de controle. Essa campanha é uma estratégia coletiva. Precisa funcionar de forma organizada, com uma perspectiva ampliada. Não adianta fazer um puxadinho no Plano Nacional de Imunização”, finaliza Nathália.

Edição: Vinicius Segalla

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