Estudantes ocupam 20 escolas no Rio Grande do Sul

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Do Sul 21

 
Luís Eduardo Gomes

Goteiras, enchentes em dias de chuvas, corrimão que dá choque, banheiros interditados, buracos em salas de aula. Por reivindicar a solução desses e de uma série de outros problemas estruturais – sem falar no parcelamento de salários que leva os professores a não conseguirem dar aulas de qualidade -, um grupo de estudantes ocupa desde o último sábado o Colégio Estadual Paula Soares, localizado na rua Gen. Auto, ao lado do Palácio Piratini, em Porto Alegre.

“O nosso prédio, por ele ser tombado, não pode sofrer grandes mudanças na estrutura. Então, por exemplo, o teto tem muitas goteiras, tanto é que tem várias [salas] alagadas. A escola fica inteiramente alagada. O corrimão dá choque”, diz Maria Saldanha, 16 anos, estudante do 2º ano do Ensino Médio. “A última vez que a escola recebeu um repasse de verbas para reformas – básicas, porque o repasse foi muito baixo – foi há 25 anos”, complementa Luiza Ninov, 17 anos, do 3º ano.

Apesar de o local estar ocupado desde sábado, na manhã desta segunda-feira, quando pais e estudantes chegaram para a aula, ocorreram momentos de tensão. Pais chegaram a chamar policiais, que foram à escola com armas apontadas para os adolescentes, segundo relato dos alunos. A decisão causou indignação entre estudantes e professores. Posteriormente, no entanto, a situação se acalmou.

“O diálogo foi tenso, porque pais, professores e direção não estavam aceitando, em um primeiro momento. Muitos professores querem dar aula, mas a gente reivindicou que as salas estão em condições de precariedade estrutural e, com o parcelamento dos salários, o professor não tem mais motivação nem instrumentos para dar uma aula de qualidade”, diz Luiza.

Segundo os estudantes, há cerca de 20 alunos dormindo no local desde sábado. Eles estão acampadas no saguão de acesso do colégio, porque é “o único local em que não chove”.

A chuva é justamente um dos maiores problemas da escola. “Mesmo chovendo [dentro da sala] tem aula normal”, diz Jéssica Schnornberger, 18 anos, aluna do 3º ano. Infiltrações são visíveis em todas as paredes. “Chove como na rua. Tem que ver a cachoeira que se forma”, completa Thamity Moreira, 17 anos, também do 3º ano.

Desde domingo, quando choveu forte na Capital, os estudantes se organizaram para tirar a água de algumas salas com baldes e para salvar livros novos da chuva. “Limpamos o alagamento. Tentamos tirar o máximo possível de água porque não tinha como entrar no colégio”, diz Luiza.

Os alunos, aliás, estão divididos em comissões para realizar a limpeza, cuidar da segurança, preparar a alimentação e buscar aprimorar a escola durante a ocupação. Eles dizem não estar usando produtos do colégio, apenas o gás, que prometem repor ao final da ocupação. Os jovens recebem alimentos doados por professores e pais que apoiam a ocupação, estudantes e professores da UFRGS e ex-alunos.

Apesar do esforço, estudantes reclamam que não são compreendidas por muitos pais. “Tem até algumas mídias distorcendo e pessoas falando que nós somos vagabundos, maconheiros. E não é isso, a gente quer uma educação de qualidade, mas também uma infraestrutura de qualidade, porque, sem segurança, sem uma estrutura de qualidade, não tem como ter ensino”, diz Maria.

Poças d’água eram vistas na escola nessa tarde | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Poças d’água eram vistas na escola nessa tarde | Foto: Joana Berwanger/Sul21
 

Problemas estruturais graves

Na tarde desta segunda, mesmo depois de os alunos terem se organizado para fazer a limpeza do local, ainda era possível ver poças d’água nos corredores. Como a fiação é aparente, em alguns pontos protegida apenas por durex, o risco de ocorrer um curto-circuito é grande.

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A escola também é permeada por buracos no chão, no teto e nas paredes. Em algumas salas, pedaços de madeira foram colocados para tapar buracos. O piso de algumas salas range, aparentando que falta pouco para desmoronar. “O piso está cedendo assim desde que a gente entrou”, diz Jéssica, que ingressou na escola em 2014.

O colégio está com vários banheiros interditados, com apenas um feminino e um masculino em funcionamento. Ao menos um está fechado em razão de buracos no teto. Os estudantes também reclamam que, mesmo naquele que está funcionando, não há fechaduras nas portas e, portanto, não há privacidade. “Quando tu vai no banheiro, tu tem que segurar a porta ou levar outra guria para segurar a porta para ti. Não tem privacidade”, reclama Bárbara Salaberri, 17 anos, aluna 2º ano. “Qualquer um pode entrar e fazer o que quiser ali”.

As alunas também reclamam de falta de luz frequente e do risco constante que correm devido às condições precárias dos equipamentos. Recentemente, um armário caiu em uma sala. Há cerca de dois anos, um ventilador caiu sobre um aluno que fazia uma prova do Enem. Várias lâmpadas também já caíram.”Tem relatos de proliferação de cogumelos no telhado devido à umidade. Um aluno estava no meio da aula de Literatura e a professora viu um cogumelo cair no teto em cima da classe”, conta Luiza.

A escola Paula Soares tem cerca de 900 alunos, do primário ao Ensino Médio. As condições precárias, no entanto, afetam a todos. “As salas das crianças são as piores. É muito úmido, tem muito mofo e o cheiro é horrível”, conta Jéssica.

Na semana passada, o governador José Ivo Sartori  e o secretário da Educação, Vieira da Cunha, visitaram a escola em uma cerimônia de entrega de classes novas. Nesta segunda, muitas dessas classes estavam cobertas pela água. “Semana passada, o Sartori e o Vieira da Cunha estiveram aqui para inaugurar classes e cadeiras novas, e agora essas mesmas classes e cadeiras estão quase destruídas por causa chuva”, diz Bárbara.

Os problemas, no entanto, vão além das condições estruturais precárias. A escola até tem dois laboratórios de informática, mas os alunos mal têm fraquentado os espaços este ano porque, devido à falta de pagamento, a instituição está sem internet. Também há um laboratório de ciências que não é usado. “Esse ano a gente não foi nenhuma vez na sala de informática”, dizem as colegas Jéssica e Thamity.

A precariedade também se estende para o quadro funcional. Segundo os estudantes, apenas duas pessoas são responsáveis pela limpeza da escola e a responsável pelo controle de um dos portões é uma senhora de idade avançada que sofre de mal de parkinson. No momento, a escola também está sem coordenadora, sem supervisora, sem profissionais do SOE e faltariam professores para algumas disciplinas.

Outro problema que as estudantes apontam é o fechamento de turmas, o que leva à superlotação das salas. “As turmas estão superlotadas e fica muito difícil, porque acaba se acumulando um nível de barulho dentro da sala, então tu não consegue acompanhar a professora, às vezes tem alguém que não vai respeitar a palavra da professora e vai ficar gritando. Fica difícil ter uma aula”, diz Maria. De acordo com ela, sua turma conta com 37 alunos atualmente.

Assim como em outras escolas ocupadas, os jovens também reclamam da falta de segurança no entorno da Paula Soares. Apesar de o colégio ser vizinho ao Palácio Piratini e de instalações da Brigada Militar, as estudantes reclamam que há muitos assaltos nos horários de entrada e saída de cada turno, especialmente nas ruas Duque de Caxias, Fernando Machado e na Praça da Matriz. Eles também reclamam da má iluminação durante a noite. “Várias meninas já registraram BOs em função dos assaltos frequentes, diz Luiza.

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Já no último ano, Jéssica e Thamity dizem que estão participando da ocupação pensando nas próximas gerações de alunos. “Se vier mudança, nós não vamos ver”, afirma a segunda. Questionadas sobre como conseguem se preparar para o Enem nas condições atuais da escola, ambas dizem que fazem cursinho. “Entrar na faculdade é a meta. Todo mundo quer melhorar de vida”, diz Jéssica.

Thamity, que diz ter sido chamada de “desocupada” por um pai nesta manhã, conta que estagia na Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre para conseguir pagar o cursinho. Elas dizem que o que as motiva a participar da ocupação é chamar a atenção para as condições precárias da escola.

Vinte escolas ocupadas

Segundo a página Ocupa Tudo RS, já há 20 escolas ocupadas por estudantes no Estado – dez em Porto Alegre, sete em Rio Grande, uma em Pelotas, uma em Passo Fundo e outra em Viamão. As estudantes dizem que há uma coordenação com outros colégios ocupados e está sendo montada uma rede para, por exemplo, gerir as doações que recebem. “Se a gente demonstrar essa união estudantil, ele (Sartori) vai ter que, de um jeito ou de outro, nos atender, porque ele vai ver que essa nova geração é uma geração de luta, que não vai aceitar mais nenhum desaforo”, diz Maria.

“Aqui no Paula Soares é o primeiro ato de reivindicação, porque a escola tem uma fama de ser bem parada”, conta Luiza. “Ex-alunos e professores até estão nos parabenizando porque dizem que, na época deles, eram muito acomodados e aceitavam aquilo. Agora, que a gente está virando uma escola de luta, óbvio que vai ter comentários negativos, mas eles estão dando todo o apoio porque é assim que se começa uma mudança”.

Essa nova postura “de luta”, no entanto, já gerou reações, segundo as estudantes. Elas dizem que os alunos foram proibidos de fazer protestos políticos depois que penduraram uma faixa com os dizeres “Globo golpista” na porta da escola. Eles teriam sido denunciados por funcionários do governo do Estado. “A grande maioria aqui se posiciona a favor da esquerda, a favor dos projetos sociais porque nós usufruímos desses projetos sociais. Nós estudamos numa escola pública, nós temos cotas na Ufrgs por sermos estudantes de escolas pública, nós somos do movimento negro, do movimento da juventude e nós reivindicamos melhorias”, diz Luiza.

Reação dos pais

Pela manhã, muitos pais ficaram indignados e reclamaram que os organizadores da ocupação bloquearam as entradas e impediram o acesso de grande parte dos estudantes. A Brigada Militar chegou a ser acionada. Para terça-feira, pais prometem voltar a acionar a polícia caso não consigam deixar seus filhos na escola. Nesta tarde, um grupo de pais contrários ao movimento dos estudantes estava reunido com a direção da escola para cobrar uma resposta.

Silnei Legal, pai de um aluno da 7ª série, diz que é favorável às reivindicações dos estudantes, mas questiona o fato deles terem “imposto” aos demais alunos um bloqueio na escola. Ele também reclama que representantes de entidades estudantis de fora da escola estão ajudando a organizar o movimento e a barrar as aulas. “Sou totalmente a favor das reivindicações dos alunos. Creio que nós pais devemos estar do lado deles, apoiando qualquer tipo de manifestação, desde que seja ordeira, que não bloqueie o direito dos professores que querem dar aula e não fazer parte da greve e que não bloqueie também os pais e alunos de entrar no colégio”, diz.

Marcelo Gentil, pai de um aluno da 3ª série do Ensino Fundamental, é mais veemente contra a ocupação. “Todo mundo tem direito de fazer greve e todo mundo tem direito de trabalhar e estudar, mas esse grupo invadiu o colégio, pulando o muro, e não deixam ninguém entrar para estudar e muito menos para trabalhar. Nesse ponto, eles estão errados”, afirma. Ele ainda minimiza os problemas estruturais afirmando que não é só na Paula Soares que tem problemas. “Não é só nesse colégio, tem muitos colégios piores”.

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Para Silnei, os alunos deveriam pensar em alternativas e unir esforços com pais e professores em suas reivindicações. “Eu acho que se tudo é discutido a gente consegue chegar num senso comum. Disponibilizem para esse pessoas umas três, quatro salas para eles terem o espaço deles. Vamos panfletar quando os pais chegarem. Vamos na Secretaria da Educação. Vamos trabalhar para que a gente consiga as melhorias para esse colégio, mas não de uma forma imposta”, afirma, ponderando, no entanto, que é contra o uso de violência contra os estudantes. “Eu não quero que ocorra que nem em São Paulo em que a polícia entrou e tirou a força os estudantes, não vejo dessa forma”.

Os estudantes rebatem, no entanto, afirmando que os pais que reclamam só estariam preocupados em deixar os filhos no colégio, e não com as condições da escola. “No primeiro momento, os pais estavam assustados, porque eles veem a escola como um local para deixar os filhos em segurança”, diz Luzia. “Como se fosse um depósito”, completa Maria.

Também prometem que, durante a ocupação, serão promovidas atividades para envolver todas as crianças e jovens interessadas. “Pela manhã, a gente sabe que os pais não têm com quem deixar seus filhos, então eles podem trazer as crianças, vai ter atividades dirigidas por alguns professores que apoiam a ocupação, por professores da Ufrgs, formados da Ufrgs e profissionais que se disponibilizaram através de trabalho voluntário. Atividades de cidadania em geral, criação de horta, teatro, dança, aula de percussão, atividades culturais que incitem a cidadania das crianças para que elas conheçam os seus direitos”, diz Luiza. “Eu conversei com alunos de 9 anos e eles falaram que acham normal entrar com a escola alagada e tomar choque no corrimão”.

Apesar da reação de alguns pais, há muitos outros que estão apoiando o movimento. Entre os professores, também há divisão. Rudileia Paré Neves, vice-diretora do turno da tarde, defendeu o direito de mobilização dos alunos. “Eu vejo como um movimento legítimo, onde eles estão exercendo a cidadania, como muitas vezes os professores em sala de aula falam que eles devem exercer. Não é um momento fácil para ninguém. Pela primeira vez, talvez, os alunos dessa escola estão se mobilizando desse jeito, porque pela primeira vez eles tenham tido um apoio de parte da comunidade, de alguns professores, de que eles têm autonomia sim para se posicionarem e darem opinião sobre aquilo que eles acreditam”, diz.

Ela ainda questiona a reação exaltada de alguns pais e professores. “Se, como alguns pais e alguns colegas estão dizendo, que eles estão agindo de forma equivocada, esse momento agora não é de fazer essa avaliação. Esse momento é mais adiante. Agora, acho que cabe a nós, que somos da escola, dar apoio aos alunos e buscar um entendimento para resolver esse impasse, chamando a atenção do governo para as reivindicações deles, que são legítimas.

Em assembleia realizada durante a tarde desta quarta, os estudantes decidiram manter a ocupação por tempo indeterminado e, em vez das aulas, realizar atividades extracurriculares.

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