Qual a utilidade do homeschooling na realidade brasileira? Por Rogério Maestri

Das reformas de ensino doméstico implementadas pelo mundo, verifica-se que praticamente em todos os países, com grandes ou até imensos investimentos (caso dos EUA), os resultados foram ou nulos, negativos ou mediocremente positivos

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Qual será a utilidade do homeschooling aplicado a realidade brasileira?
Por Rogério Maestri

 

Em vários países ditos desenvolvidos como USA, UK, Canadá e Austrália aceitam o ensino domiciliar como uma das opções para as crianças. Em estatísticas do departamento norte americano dedicado ao ensino, o ensino domiciliar é utilizado como uma alternativa religiosa (38,4%), por razões familiares (16,8%), por razões morais (15,1%) e currículo da escola (12,1%), que perfazem nestes itens 82,4%. Além disso, os pais dizem que adotam o ensino domiciliar em 48,9% dos casos para oferecer um “melhor ensino”, outros motivos são citados em um total de 84% (nota-se que era possível citar mais de um caso)¹.

Porém, ao analisarmos outros países em que o homeschooling é tolerado, como a Espanha (que foi aceito por decisão da Justiça há pouco tempo), vemos que o número de pais sem religião ou que não dão importância para ela é bem mais numeroso². Este estudo mostra que, entre as razões que levam à adoção do ensino doméstico, somente 16% sobre o total (resposta única) são por motivos políticos, éticos e religiosos, sendo que os pais que alegam não ter religião nenhuma são 65% dos entrevistados, outros 10% dos pais se declaram ateus ou agnósticos. Entre os que se declaram religiosos, 75% são católicos, mas somente 19% respeitam os cultos católicos (o resto vai à igreja para casamentos, batizados, etc…).

Ao se fazer uma pesquisa sobre o rendimento escolar dos alunos que cursam escolas públicas nos USA em relação os que adotam o homeschooling, em testes padronizados, há uma leve vantagem do ensino domiciliar para o público. Entretanto, não há um único artigo que procurou validar as hipóteses de maior ou menor rendimento com um método de grupo de controle, que permitiria comparar dois grupos equivalentes, ou seja, ninguém chegou a provar que as crianças tinham maior ou menor rendimento, com pais com mesmo interesse no sucesso dos filhos.

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Uma indicação não só do interesse familiar no aprendizado dos filhos, mas como também a relação entre a confiança dos pais na eficiência da sua ajuda na melhoria do aprendizado é dado num interessante artigo denominado “Effets directs et indirects du sentiment d’efficacité parentale scolaire dans le rendement scolaire de l’enfant”, na Revue canadienne de l’éducation³, onde mostra que pais que confiam na influência positiva de sua ajuda, de fato, as crianças em testes padronizados apresentam melhor desempenho em escolas públicas normais. Ou seja, mesmo se os pais têm confiança na sua habilidade em adotar o homeschooling como método de ensino, se os seus filhos estivessem em uma escola normal e os pais ajudassem no estudo, o desempenho dos alunos seria melhor.

O que se pode concluir, a grosso modo, que para países com ensino e normas completamente diferentes das nossas não há nenhuma evidência que o homeschooling aumenta ou diminui significativamente o desempenho medido por testes padrões de domínio da língua e matemática.

Já os franceses, através de inspetores, avaliam que na questão de ciências, história e geografia há claramente uma perda do rendimento em relação ao ensino tradicional de escolas públicas4.

Consultando mais cuidadosamente as reformas que foram implementadas em todos os países, que muitas levaram aos pais adotarem o ensino doméstico, se verifica que praticamente em todos os países, com grandes ou até imensos investimentos (caso dos EUA), os resultados foram ou nulos, negativos ou mediocremente positivos.

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E eu faria uma observação empírica sobre isto: o ensino é uma tarefa que envolve múltiplos fatores, e quanto mais se reforma, mais se inova, mais se perde o ritmo de ganho na qualidade que vinha ocorrendo no passado, que era pouca, mas constante. Logo, precisamos menos reformas, aonde mais professores perdem seu tempo assistindo as novidades pedagógicas do que aperfeiçoando o seu próprio método de ensino.

Finalmente, deixem a educação em paz.

 

¹ Fonte U.S. Department of Education, National Center for Education 
Statistics, Parent Survey of the National Household Education Surveys 
Program, 1999.

² El homeschooling en España, Cabo, Carlos 2009.

³ Revue canadienne de l’éducation 39:3 (2016).

4 Bernadette Nozarian, “Acquisition et évaluation des compétences des 
enfants instruits hors institution scolaire”, Éducation et 
socialisation, 41 | 2016 - http://journals.openedition.org/edso/1745 
DOI : 10.4000/edso.1745.

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12 comentários

  1. De Ciro Gomes sobre o homeschooling da Damares:
    “Veja, vamos à um exemplo, se os filhos do Moro aprenderem português com ele, em casa, isso vai ser uma tragédia”.

  2. Da inutilidade do homeschooling como política educacional de Estado: Nenhum país saiu da merda na era moderna, sem um projeto de educação universal, público e de massa. A saída foi sempre Escola Pública na veia.

    • Almeida, também achava exatamente o que achas, mas na verdade há uma crise internacional no ensino, independente do país e do método adotado, ou o ensino anda para o lado, ou retrocede ou até aumento muito pouco.
      Fiz uma pesquisa um pouco exaustiva, em artigos norte-americanos, ingleses, franceses, canadenses e espanhóis, só vi que não há tanto problema foi na Suíça (mesmo a Finlândia, que era modelo, caiu). Não olhei em artigos orientais, pois a cultura é totalmente diferente e o problema lá é as crianças estudarem de mais e ficarem com sérios problemas mentais (suicídio é um deles).
      A grande conclusão que cheguei é que está se colocando pressão demais sobre os professores e ninguém consegue trabalhar direito.
      Quanto a doutrinação que poderia haver com o homeschooling, não fiquei preocupado, pois pode sair exatamente ao contrário.
      O que vi nos trabalhos sobre este tipo de educação, só dá resultado onde não há currículo mínimo, onde os pais ficam concentrados somente em línguas e matemática. na experiência francesa onde o currículo é mais diversificado os pais não conseguem acompanhar.

  3. Me pergunto porque esse tal de homeschooling, de uma hora pra outra, virou algo de muito importante e essencial no discurso da turminha do governo………Historia bastante estranha……Me pergunto o que esta “escondido” atras dessa proposta……Para os ricos, muito ricos, que podem mandar filhotes estudar em colegio interno nos US, Inglaterra ou Suiça, não creio que tenha serventia……pra classe media alta, ta cheio de escola de bom nivel(que custam os tubos….)em todas as capitais(ou quase..)……para classe media, tambem tem muita opção de escola de boa qualidade com preço “medio”………Imagino uma situação hipotetica de uma familia com 3 crianças de 8, 11e 15……como fazer?Contratar 3 professores? O pai ou a mãe teriam tempo de ensinar 3 crianças de nivel/idades diferentes, algo como 3 horas de ensino diario para cada criança…….no final 9 horas de ensino, ministrado por um dos pais?Quem pode e tem tempo e competencia pra isso?
    Ai fico pensando quem tem gente, meios, locais,e estão presentes em todas as partes?Todas as cidades e bairros……periferias e favelas………

    Resposta:As igrejas Evangelicas
    Finalmente me pergunto se é questão de homeschooling ou seria talvez questão de churchschooling………….

  4. A utilidade e resultados? Concordo com Maestri: Nenhuma. Como tática para ocupar o espaço do que deveria ser informação (Noticiários e Mídias Sociais) e um eventual debate crítico, cumpre bem sua função junto com outras do mesmo jaez, como “Escola sem Partido”, “Expurgo dos Comunistas”, “Golden Shower”, “os malvados evangélicos x Homossexuais” e que os pobres são culpados por um tal de “déficit”. A coisa é tão, digamos envolvente que até o Haddad caiu nessa ao trocar frases com um dos filhos deficitários de nosso Presidente da República. São tolices de tão óbvias refutações, que parece coisa armada…Oras! E são! Enquanto a imprensa e leitores forem enganchados por essas iscas fica difícil uma mudança. Repetindo Bernie Sanders; é necessário persistir no combate às tolices de conveniência: “Primeiro te ignoram, depois riem de você, depois te contestam. É aí que você os derrota”

  5. Rogério,
    acho muita gentileza sua dar-se ao trabalho de fazer todas essas pesquisas para tentar explicar o fracasso ou sucesso do emprego do ensino doméstico na sociedade brasileira.
    Não conheço no espaço da minha vida, neste país onde nasci, nenhuma iniciativa governamental que confiasse na capacidade do cidadão para sozinho e longe da sociedade educar seu filho.
    Muito pelo contrário, se para fazer do menor um futuro cidadão que desempenhasse o seu lugar na sociedade tanto para servir quanto para ser servido, era dever e interesse do estado que todos tivessem uma educação básica, DEIXAR QUE O PARTICULAR EDUCASSE SEU FILHO COMO BEM LHE APROUVESSE, representava um grande perigo para a segurança do próprio estado. Havia o perigo de que, de repente, aquele que tivesse uma educação independente começasse a pensar por si mesmo.
    O novo governo pretende, evidentemente, desconstituir o estado e acha que com isso vai permitir que produza nestas terras um estado teocrático onde todos viverão sob as bênçãos divinas.
    É tamanha a sua fé nas suas entidades e pretensão de poder que desconsideram quaisquer outras vertentes.
    Eles já se consideram a maioria honrada e virtuosa cujos preceitos são indiscutíveis.
    Teremos dalanhóis, damares, eduardos cunha, malafaias, crivellas, abençoados, heróicos e exemplos de educação para os filhos do Oiapoque ao Chuí.
    Mas, na verdade, o que pretendem num primeiro momento, é muito simples:
    1- Manter as mulheres em casa, criando filhos, com pouca ou nenhuma voz ou informação para repassar.
    2-Permitir o aumento descontrolado da população condenando meios contraceptivos e proibindo o aborto em qualquer circunstância.
    3-Criar mentes objetivas e parciais, fortemente motivadas para finalidades específicas, em especial na evangelização, na lucratividade, na fé e no aumento das desigualdades.
    4-Aumentar a discriminação contra as mulheres a níveis insuportáveis, já que a idéia é de “domínio total”, fortalecendo também os demais preconceitos contra tudo o que seja diferente.
    Pra eles é um plano perfeito, mas como nada neste mundo é perfeito, eles podem estar adiando o que eles mais temem: o fortalecimento da esquerda.
    O aumento da miséria, das desigualdades, do machismo, da falta de oportunidades, da ignorância e da consequente criminalidade a que muitas famílias estarão sujeitas, já que não se exigirá mais a obrigatoriedade do ensino público, podem criar um exército incontrolável de descontentes a curto e médio prazo.
    Ainda que se acredite controlador da força, do direito e da economia da população, o governo atual está acendendo uma bomba de pavio curto.

    • Caro Amoraiza, ao meu ver, se não ficassem com tanta discussão sobre educação e fornecesse para os professores meios materiais e $$$$, para fazerem o seu trabalho as coisas andariam muito melhores. O máximo que o Estado poderia fazer seriam cursos de atualização sob o ponto de vista de conteúdo.
      Este tal de homeschooling não vai vingar no Brasil, preparar aula, seguir os alunos e cobrar o conteúdo não é para amadores, é uma trabalheira que 99,99% dos pais brasileiros não tem tempo, paciência e dinheiro para fazer.
      Façam a regulamentação correta, que obrigue as crianças a fazer provas periódicas nas escolas sobre os conteúdos que eles tem que apreender, como no Brasil há currículo mínimo ninguém vai aguentar. Se querem escolas religiosas que façam as suas e não encham o saco do resto, os pastores estão cheio da grana, que usem para isto.

  6. Vivemos no país da discussão inútil e da perda de tempo. Essa opção (cheia de condicionantes) é pra uma classe privilegiada e pode interessar a, sei lá, 5 mil familias num universo de milhões. É uma política liberal que não atrapalha a vida de ninguém. Ser contra ou ficar desconstruindo a ideia só por ser contra o governo é só pobreza ideológica, teimosia e falta do que fazer.

  7. Não sei o que é pior, ler um artigo com “pesquisa” que não diz nada de relevante ou inteligente ou ler os comentários de ignorantes completos sobre assunto que fala um monte de asneira!!! Cada família decida e pronto, simples assim.

    • Seria simples se realmente se educasse. Vejamos o exemplo do guru da Pensilvânia ( ou arauto, como queiram), deve o estado permitir que país não eduquem seus filhos? Pombas, então vamos listar tudo o que desejamos fazer sem que o estado se intrometa.

  8. Agora você disse algo muito inteligente, foi o dilúvio sim! É Deus em tudo e pra tudo sim! Tenho direito de expressar minha fé e ensina- lá aos meus filhos, o tempo dirá que perdeu com isso.

  9. + comentários

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