New York Times: A democracia do Brasil pode ser salva?, por Robert Muggah

Jornal GGN – Em artigo no The New York Times, Robert Muggah, co-fundador de um think tank no Rio de Janeiro, aborada a ascensão de um perigoso populista de direita que ataca a divisão e a desunião, e que parece estar indo para a presidência. 

Muggah lembra que somos a quarta maior democracia do mundo e estamos às voltas com este problema. O ex-capitão obteve mais de 46% dos votos durante a primeira rodada das eleições presidenciais. O autor aponta para o fato do capitão enfrentar o segundo colocado, Fernando Haddad, do PT, em um segundo turno no dia 28 de outubro. Haddad conseguir apenas 27% dos votos e, mesmo que todos os outros candidatos esquerdistas e centristas o endossem, ele lutará para parar a ascensão de Bolsonaro.

Os brasileiros estão frustrados, desiludidos e zangados, aponta Muggah. E os protestos, que datam de antes da ascensão de Bolsonaro, vinham acontecendo contra a política cínica, a corrupção crescente, a estagnação econômica e os níveis de criminalidade de ‘tirar o fôlego’. E, embora as pesquisas indiquem que a maioria dos brasileiros apoia a democracia, está-se mais desunido do que nunca. Mais da metade admitiu que iria apoiar um governo não-democrático se ‘resolvesse problemas’. E lembra que Bolsonaro está neste contingente, já que declarou que não aceitaria o resultado de uma eleição onde ele não seja declarado vencedor.

Para Muggah, a democracia do Brasil está oscilando no limite, mas seu colapso não é inevitável. Seu rejuvenescimento exigirá visão, humidade, tolerância e coragem para enfrentar o que parecem ser diferenças intransponíveis. Para ele, não importa quem vença a segunda rodada, as próximas semanas e meses verão o aprofundamento da polarização e o aumento do ódio. Isso não torna menos importante a busca de um meio termo progressivo e soluções reais para os problemas do Brasil, diz ele.

A eleição ressalta a escalada da política de divisão do Brasil, considera. A polarização política do país é profundamente pessoal, atravessando idade, gênero e classe. Muitos estão abertamente se perguntando se seus pais, irmãos ou colegas, que apoiaram Bolsonaro, eram sempre autoritários. E aqueles que não o apoiaram estão visivelmente nervosos, temerosos do ressentimento violento que sua campanha desencadeou.

Leia também:  Remédios para o fascismo, por Ion de Andrade

O sucesso de Bolsonaro se deve muito ao seu poder de dividir, considera Muggah. Muitos de seus principais seguidores – especialmente os jovens que compõem sua base – estão comprometidos com sua cruzada contra a corrupção e o combate ao comunismo. Outros, incluindo mulheres de classe média, são atraídos mais estreitamente por sua mensagem ‘dura no crime’. E parte da elite empresarial do país vê em Bolsonaro – juntamente com seu companheiro de chapa, o general aposentado do Exército Antônio Hamilton Mourão, e seu consultor financeiro pró-mercado, Paulo Guedes – um baluarte contra o retorno do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, e de seu líder hoje preso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os três principais partidos políticos do Brasil compartilham a culpa pela fragmentação do país. Tanto Lula quanto sua sucessora, Dilma Rousseff, invocaram regularmente a retórica ‘nós contra eles’ durante seus 13 anos no poder, especialmente quando confrontados com os crescentes escândalos de corrupção descobertos pelas investigações da Operação Lava Jato. Os outros dois partidos principais, PMDB e PSDB, também colocaram o Brasil em rota de colisão quando votaram pela destituição de Dilma Rousseff, em agosto de 2016. Descrita pelos partidários de Dilma Rousseff como um golpe ilegal, o impeachment dividiu ainda mais os brasileiros.

No entanto, diz Muggah, é Bolsonaro quem representa a maior ameaça à manutenção da democracia do Brasil. Ele prometeu alegremente limpar Brasília e restaurar violentamente a lei e a ordem. Mas os brasileiros devem dar uma boa olhada em seu histórico à medida que o segundo turno se aproxima: depois de cumprir sete mandatos ao longo de quase três décadas, primeiro como membro do Conselho da Cidade e depois como congressista, ele entregou apenas dois projetos. Enquanto ele claramente tem as credenciais para liderar uma reação autoritária, muitos duvidam que ele tenha as habilidades para governar em um ambiente multipartidário que depende da construção de coalizões.

Leia também:  Democracia sempre requer mais democracia, daí a vertigem que o Brasil vem sofrendo, por Álvaro Miranda

Bolsonaro e seu companheiro de chapa são orgulhosos apologistas da ditadura militar que reinou de 1964 a 1985, diz Muggah. Ele disse uma vez que sua única falha era não ter matado mais pessoas. Sua equipe também apóia a repressão violenta ao crime: ele apóia abertamente a expansão dos poderes policiais para o uso de força letal, reduzindo a idade da responsabilidade penal de 18 para 16 anos e trazendo de volta a pena de morte. Ele defende maior envolvimento religioso na vida pública, aponta Muggah. No ano passado, ele declarou que o Brasil é um país cristão, que não existe tal coisa como um estado laico, e aqueles que discordam devem sair ou se curvar à maioria. Lembra ainda que ele recebeu repetidas denúncias do procurador-geral por propagação do discurso de ódio e é abertamente hostil às comunidades afro-brasileiras, populações indígenas emembros de movimentos sem terra, que ele descreveu como terroristas.

Os brasileiros podem abraçar a política de divisão e o apelo sedutor de soluções simplistas, seguindo o caminho de autoritários populistas da Hungria, Polônia e Filipinas. Alternativamente, eles podem preservar e renovar sua jovem democracia, finaliza.

 

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

16 comentários

  1. Queria saber onde o imbecil

    Queria saber onde o imbecil viu “nós contra eles” nos 13 anos do PT.  Deve ter se informado pela globonews.

  2. Essa insistencia do bolsonaro

    Essa insistencia do bolsonaro de questionar a credibilidade das urnas eletronicas tem o unico intuito de criar uma narrativa que justifique no futuro uma suspensao dos direitos democraticos.Primeiro ele cria a praga,depois ele se vende como o veneno para combater-la.Ja que as urnas nao funcionam para que votar?(diria o candidato a ditador).

  3. Bolsonaro foi um

    Bolsonaro foi um militar.

    Como militar ele não vai para guerra lutar onde ele é mais fraco!

    Se por um acaso ele for a algum debate, será um debate pegadinha…

    As perguntas serão de duplo sentido e vai misturar 1964 com os dias atuais!

    Vai falar que o PT quis doutrinar as Forças Armadas!

    E a regra de ouro!

    O que a internet dá, pode tirar…

    Use a rede para combater os fakes news, a dúvida dos usuários obrigarão os eleitores a ouvir os candidatos!

    Se nada for feito, a votação não mudará por causa de debates, por que cada lado vai torcer e achar que seu lado venceu…

    Usar os programas para combater fakes sem acusar quem o fez…

    Agora o que todos os conhecidos meus que votaram no bolsonaro tinha algumas palavras em comum: “…para mudar isso ai…”

    Sabemos que vai ser uma furada…

  4. Por que acredito na virada de Haddad?
    Tivemos 30% de votis brancos, nulos e abstencies.

    Bolsonaro teve 32% dos votos totais (46% de 70).
    Haddad teve 21% dos votos totais (29,3% de 70).

    Nas pesquisas, uma diferença de até 12% era plenamente revertida.

    Na última pesquisa do Ibope, Bolsonaro acresceu 9% do 1o para o 2o turno. Haddad acresceu 21%.

    Da 42 x 41 para Haddad.

    Sobre a vantagem da direita, isto não se deve a Bolsonaro. Se deve aos evangélicos que votaram no candidato que melhor expressava a pauta conservadora.

    A virada não só eh possível, como ocorrerá.

    • O Haddad perdeu 6 votos no primeiro turno

      Nesse segundo turno, e e mais cinco eleitores do Haddad estamos fazendo nossas economias para ir votar, já que estamos vivendo fora do nosso domicílio eleitoral.

  5. Imprecisões em Tempo de Meia Informação

    Está certo que a informação no Brasil virou uma piada, ou melhor, fake news, desinformação e manipulação, por parte da própria mídia monopólio e do ativismo no whatsapp de certo candidato, mas nem por isso precisa-se dizer “mais de 46%” de votos para Bolsonaro, de fato 0,03%, ou seja, 46,03%, enquanto os 27% desinformados para Haddad, ao final são 29,28%.

    Tá difícil a coisa…

  6. O conluio midiático-penal deu

    O conluio midiático-penal deu o golpe e agora temos isso: a extrema direita e do pior tipo.

    Aterrorizante.

  7. :: * * * * 04:13 * * * * .:.

    :
    : * * * * 04:13 * * * * .:. Ouvindo As Vozes do Bra♥♥S♥♥il e postando:

    #Haddad13

    #Haddad13eManuela

    #Haddad13omelhorparaoBrasil

     

     

     

  8. Cutucando por baixo com jeito, o de cima cai e não levanta mais
    Desesperar, Jamais(Ivan Lins e Vitor Martins) Desesperar, jamais
    Aprendemos muito nesses anos
    Afinal de contas não tem cabimento
    Entregar o jogo no segundo turno

    Nada de correr da raia
    Nada de morrer na praia
    Nada! Nada! Nada de esquecer

    No balanço de perdas e danos
    Já tivemos muitos desenganos
    Já tivemos muito que chorar
    Mas agora, acho que chegou a hora
    De fazer valer o dito popular
    Desesperar, jamais
    Cutucou por baixo, o de cima cai
    Desesperar jamais
    Cutucou com jeito, não levanta mais

  9. A democracia pode ser salva? Bem. Depende de nós

    Depende de nós

    (Ivan Lins)

     

    Depende de nós
    Quem já foi ou ainda é criança
    Que acredita ou tem esperança
    Quem faz tudo pra um mundo melhor

    Depende de nós
    Que o circo esteja armado
    Que o palhaço esteja engraçado
    Que o riso esteja no ar
    Sem que a gente precise sonhar

    Que os ventos cantem nos galhos
    Que as folhas bebam orvalhos
    Que o sol descortine mais as manhãs

    Depende de nós
    Se este mundo ainda tem jeito
    Apesar do que o homem tem feito
    Se a vida sobreviverá

  10. Já era.
    O fascista está

    Já era.

    O fascista está eleito com a benção do judiciário mais fascista e bandido da face da terra.

    Preparemo-nos para uma época negra. Para mim mais negra que a de 1964 a 1985.

    Isto é prova cabal de que as pesquisas que mostravam o brasileiro como um analfabeto funcional ignorante estavam corretíssimas.

    Um povo que saiu a apenas 30 anos de uma ditadura que destruiu o país e agora pede de volta uma pior ainda tem mais é que se foder mesmo.

    Desculpe a expressão mas não encontro outra.

  11. Sabem, tantos intelectuais

    Sabem, tantos intelectuais ianques já se manifestaram preocupados com a ascensão de Bolsonaro que quase pensei em votar nele de birra. Não que eu ache que o imbecil vá melhorar o Brasil ou algo assim… É mais uma questão de orgulho infantil da minha parte (admito).

    John Oliver recentemente declarou que “Bolsonaro não é o melhor que vocês tem Brasil” ou algo do tipo. Fiquei ofendido com a arrogância do inglezinho. Veja bem, ele acha que sabe mais sobre o meu país do que eu. Na cabeça de colonizador desse bostinha, o Brasil é o país tropical dos esteriótipos de hollywood: um lugar de praias paradisíacas e gente servil e sorridente. Nada poderia estar mais longe da realidade.

    O Brasil é um país selvagem, com gente violenta, egoísta e desonesta. Essa é a realidade. No final das contas, Bolsonaro é a cara do brasileiro médio e por isso vai ganhar. Com Bolsonaro eleito, pelo menos a imagem internacional do Brasil vai mudar. O país do Futebol e Carnaval, essa piada ridícula, vai se tornar no país do tiroteio e das pessoas cruéis.

    Dos males que virão, esse seria o menor.

  12. Sugestão ao NYT

    Deixo uma sugestão de pauta para a turma da firma que produz o New York Times: que tal uma reportagem sobre como a iniciativa privada dos EUA, tendo sequestrado aquele país, sabota democracias de diversos países, inclusive dos próprios EUA (mantendo ali uma plutocracia disfaçada de democracia)? Poderiam aproveitar a liberdade de imprensa e de expressão e apontar, tanto os métodos de corrupção e aliciamento, de lawfare e de terrorismo armado, os nomes tanto dos que trabalham nessa sabotagem agora, sob o governo que eles têm nesse momento, quanto das pessoas que estão nessa tarefa independente dos governos, as pessoas que transformaram essa sabotagem em política de estado faz uns 100, 150 anos.

    Poderia, a turma dos diretores, funcionários e contratados da firma, aproveitar e divulgar vulnerabilidades legais e morais, daqueles plutocratas, que tal?

  13. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome