Análise de discurso: o que disseram os candidatos nas entrevistas ao Jornal Nacional – com Fernando Haddad

Análise de discurso: o que disseram os candidatos nas entrevistas ao Jornal Nacional – com Fernando Haddad

Com o início da campanha eleitoral, o Jornal Nacional deu início a uma série de entrevistas ao vivo com os cinco principais candidatos à Presidência nas Eleições de 2018. A ordem das entrevistas foi determinada por sorteio e cada candidato teve 27 minutos para responder sobre “os temas que marcam cada uma das candidaturas, assuntos polêmicos e a viabilidade de alguns pontos dos programas de governo”, segundo anunciou o programa.De 27 a 30 de agosto, William Bonner e Renata Vasconcellos entrevistaram os candidatos Ciro Gomes (PDT), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). Após se tornar o candidato do PT à presidência, no dia 11 de setembro, Fernando Haddad foi o quinto entrevistado pelo programa na última sexta-feira, 14 de setembro.

Os alunos de pós-graduação da FESPSP (Faculdade Escola de Sociologia e Política de São Paulo) analisaram o discurso dos 5 candidatos em suas entrevistas, fazendo um levantamento sobre os temas abordados pelo Jornal Nacional, as frases que os candidatos mais repetiram e até o tempo que os candidatos conseguiram falar nos 27 minutos concedidos pela Globo.

Confira abaixo os comentários sobre cada uma das entrevistas e a análise comparativa entre os candidatos.

Análise por candidato:

Ciro Gomes (PDT)

O candidato pelo partido PSD, Ciro Gomes, apresentou uma postura leve e cordial, chegando a sorrir e rir em determinados momentos da entrevista, demonstrando bom humor. O candidato não olhou para a câmera em nenhum momento, apenas para os entrevistadores.Utilizou linguagem simples e diversas expressões populares, como “parece o cachorro do Tom Cavalcante”, “qualquer coisa que vem pra pobre e pra classe média [meus adversários] ficam logo pirados”, “nossa nação está indo para o brejo”, “ferramentaria de poder, de grana, de ladroeira”, “um fusível para desativar esse curto circuito”. Apresentou diversos dados, como a dívida média do brasileiro “de R$ 4 mil”, “13 mil indústrias fechadas no Brasil”, “63 milhões de pessoas com nome sujo no SPC”, “o Brasil dispensou R$ 390 bilhões em refis”, “13 milhões e 700 mil desempregados, 32 milhões de pessoas absolutamente entregues a viver de bico”.

Mencionou medidas do seu plano de governo? Sim, retomar o consumo das famílias pela superação do endividamento (refinanciamento de dívidas populares); liberar metade do efetivo da Polícia Federal para combater as facções criminosas e o narcotráfico; restaurar o investimento do empresariado através da descartelização do sistema financeiro; consertar conta pública; retomada da industrialização; reforma trabalhista nova, que respeite o trabalhador.

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Quais nomes políticos citou? Carlos Lupi (defesa), Michel Temer (crítica), Eduardo Cunha (crítica), Geddel (crítica), Padilha (crítica), Moreira Franco (crítica), Lula (elogio), Dilma (crítica), Katia Abreu (elogio), Zé Alencar, Marina Silva.

 

Jair Bolsonaro (PSL)

Logo no primeiro minuto de programa, Bolsonaro mostrou o quão à vontade chegou para a entrevista: enquanto se preparava para sentar, o candidato comparou a mesa do Jornal Nacional a uma plataforma de tiro de artilharia, já trazendo à tona uma temática da sua zona de conforto e indicando o tom que pretendia estabelecer na conversa.
Assim como fizeram para os demais candidatos, que também acumulam anos de vida pública, Bonner e Renata começaram a entrevista questionando o longo tempo de atuação de Bolsonaro como político. As críticas sobre representar “o velho” na política foram facilmente rebatidas pelo candidato, que prontamente entoou a frase “sempre integrei o baixo clero em Brasília”, repetida por ele em diversas entrevistas para se diferenciar dos demais candidatos, mencionando também dados sobre sua ficha limpa.

Com um tom de deboche, Bolsonaro fez críticas à Globo em três momentos que teve alguma posição questionada: trouxe à tona a “pejotização” do jornalismo quando questionado sobre o uso de auxílio moradia, falou da diferença salarial de Bonner e Renata quando perguntado sobre desigualdade de gênero, e encerrou sua participação resgatando a fala de Roberto Marinho em apoio ao golpe militar de 1964 – colocação que fez a Globo incluir uma nota de Esclarecimento no programa para reforçar que o apoio editorial ao golpe militar foi um erro. Sem ser questionado sobre posições de seu partido, o PSL, ou sobre medidas de seu plano de governo, os entrevistadores insistiram nas perguntas sobre Paulo Guedes, economista que acompanha Bolsonaro e que estará à frente do Ministério da Fazenda em um possível governo Bolsonaro.

Durante toda a entrevista, o candidato à presidência manteve o uso de uma linguagem simples, e sempre que necessário explicou ao telespectador os conceitos mais complexos – como “desconstrução da héteronormatividade”, que detalhou como sendo o ensino de que “homem e mulher está errado”.

Mencionou medidas do seu plano de governo? Não cita expressamente medidas do plano de governo.

Quais nomes políticos citou? Lula, Dilma (críticas)

 

Geraldo Alckmin (PSDB)

O candidato Geraldo Alckmin apresentou uma postura tranquila, falou pausadamente, olhou para a câmera e articulou com eficiência seus argumentos, defendendo seus aliados e partidos dos questionamentos levantados pelos entrevistadores. Em meio aos questionamentos, conseguiu apresentar algumas de suas propostas e foi capaz de encerrar os assuntos trazidos pelos jornalistas.

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O candidato utilizou um vocabulário técnico como “superávit primário”, “concessão”, “junta de arbitragem” e siglas como IPT, BID, ICMS, PPP e OSs. Em seu discurso, demonstrou estar preocupado com a opinião pública ao repeti a pergunta retórica “O que a sociedade quer?”, respondendo então com palavras populares em tempos de crise política (“transparência”, “investigações”). Outra frase utilizada repetidamente pelo candidato foi “todos os partidos têm bons quadros”, que usou para defender suas coligações questionadas pela jornalista. Na maior parte da entrevista, o candidato retomou feitos do seu governo no estado de São Paulo.

Mencionou medidas do seu plano de governo? Sim, cita diretrizes gerais sobre a Reforma Política (reduzir o número de partidos, reduzir voto facultativo, voto distrital, proibir coligação proporcional), segurança pública (mudar a lei execuções penais, endurecer pena, tecnologia, polícia de fronteira, combate, criar agência de inteligência), criação de empregos (criação de um “canteiro de obras”: estradas, ferrovia, rodovia, portos, aeroportos, água, esgoto, habitação)

Quais nomes políticos citou? Ana Amélia (elogio), Márcio Elias Rosa (elogio), Fernando Collor de Mello (crítica), Eduardo Azeredo, Aécio Neves e Laurence Casagrande (crítica dos entrevistadores)

 

Marina Silva (Rede)                                 

Os termos “desconfiança” e “incoerência” perpassaram quase a totalidade dos temas abordados na entrevista de Marina Silva. Candidata em sua terceira eleição presidencial, a presidenciável passou mais da metade da entrevista respondendo a questionamentos sobre a falta de liderança em seu partido, a incoerência nas coligações estaduais da Rede e a ausência de posicionamento sobre os grandes problemas do Brasil. Utilizando em mais de uma ocasião a frase “ser líder não é ser dono do partido”, Marina Silva apostou no desgastado discurso de que é capaz de dialogar com os diferentes e respeitar posições contrárias, mesmo em seu partido. “Coerência” foi uma das palavras mais entoadas pelos jornalistas para questionar posturas de Marina Silva, com Bonner inclusive proferindo a frase “a senhora não tem autocrítica” quando questionou Marina sobre a atuação como ministra de Lula.  Marcada pela forma pausada de falar, a candidata iniciou a entrevista de forma calma e harmônica, mas acabou elevando o tom da fala à medida que foi cedendo aos questionamentos dos entrevistadores. 

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Mencionou medidas do seu plano de governo?Sim, cita diretrizes gerais sobre a Reforma da Previdência, como a manutenção da diferença na idade mínima para aposentadoria de homens e mulheres (mas sem dizer qual seria essa idade mínima) e o combate ao privilégio das altas aposentadorias do Legislativo e do Judiciário. Também menciona ideias para a Agricultura, como a Agricultura de baixo carbono e o financiamento da Agricultura ABC.

Quais nomes políticos citou?Dilma, Temer (críticas), Itamar Franco (elogio), Aécio (críticas), Eduardo Jorge (elogio).

 

Fernando Haddad (PT)

O candidato iniciou sua entrevista desejando boa noite aos entrevistados, ao povo brasileiro e ao presidente Lula, dizendo que muitos gostariam de ver o ex-presidente naquela cadeira, evidenciando logo de início sua ligação com Lula.

O candidato manteve uma postura calma no início, ouvindo as perguntas na íntegra, mas ao final assumiu uma postura mais incisiva, tendo sio interrompido pelos jornalistas 62 vezes.

A entrevista foi pautada basicamente por temas de corrupção, pelo histórico do partido, investigações e histórico do próprio candidato. Em nenhum momento os jornalistas perguntam sobre medidas do plano de governo de Haddad.

A entrevista ultrapassou o tempo estabelecido em pouco mais de um minuto, mesmo tendo abordado menos temas que para a média dos outros candidatos.

Mencionou medidas do seu plano de governo? Não, entrevistadores não perguntaram.

Quais nomes políticos citou? Lula, Dilma, Guido Mantega, Antônio Palocci.

 

Análise comparativa:

  1. Tempo de fala por candidato:

 

2. Tempo dedicado por tema abordado:

 

 

 

 

3. Nuvem de palavras mais usadas pelos candidatos:

 

 

 

Assinam este artigo os alunos: Beatriz Ramires de Britto, Camila P. Monteiro Costa, Danilo de Oliveira Romano, Débora Toniolo, Felipe Pragmacio Travassos Teles, Ivair J.A. Junior, Julia Isabel Miranda Travaglini, Jimmy Augusto Moreira Pitondo, Jusuá Jihad Alves Soares, Kathleen Ângulo, Larissa Regina Ramos da Silva, Marcela Pereira Pedro, Mariana de Camargo Rodrigues, Robson Leandro de Almeida, Rodrigo da Silva Pereira, Rosimeire da Silva dos Anjos, e a professora Jacqueline Quaresemin, Pós-Graduação em Opinião Pública e Inteligência de Mercado – Disciplina de Opinião Pública e Pesquisa Eleitoral, na FESPSP.

 

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2 comentários

  1. Uma matéria meio fraquinha,

    Uma matéria meio fraquinha, talvez pela inexperiência dos autores. De qualquer maneira, foi mais ou menos isso pelo que venho constatando sobre as matérias que vieram na bagagem dessas entrevistas. 

    Eu não tive coragem de ver Hadad sendo entrevistado no mesmo dia. Consegui ver parte dela depois, e não suportei a arrogância do casal do JN, na tentativa de desqualificar Haddad em tudo, o que, pra qualquer um, até mesmo da direita extgremista, seria impossível. Uma coisa é sair espantando o mundo com ideologias quaisquer, a outra é a concepção sobre a realidade. É como um ser ficar doente, saber qu está doente, mas responder a todos que vai bem ou ótimo. Pouca adianta se sua fisionomia já denuncia seu estado teminal. 

    Entre todos os candidatos, ao que estamos percebendo, Haddad é o que tem um currículo de maior grandeza. Não bastasse ter se formado em 03 faculdades, ainda é mestre e doutor. E, a meu juízo, Filosofia é uma matéria que se encaixa bem nas posições por ele tomadas. Até certo ponto, Fisolosofia se encontra com Psicologia. Ou seja, um homem com esses ensinamentos tem muito mais chances de dialogar, de manter-se calmo e até de mudar a lógica de quem pretende atacá-lo. Na verdade, o que pôde ver nessa ditadura do JN foi mais uma falta de respeito total a um entrevistado, porém previsível.

    Achava ser possível o candidato de Lula ter podido se safar daquela entrevista. Somente depois vi que foi importante para quem precisava se apresentar nacionalmente, caso de Haddad, e a Grobo seria, como deve ter sido mesmo, o maior meio de fazê-lo. Não tem nada de trouxa. Sabia o que viria pela frente, e não mostrou-se incomodado, fora do prumo, como Bolsonaro, que age como um adolescente: sempre usando mecanismos de defesa, antes de receber um tapa na cara, ele dá a sua primeiro. 

    Por fim, Alkmin foi quem mais foi explrado para responder sobre o programa de governo, seguido de Ciro. Não ter ido fundo na vida pregressa de Bolsonaro, como fez com Haddad – e somente na parte que eles acham, é mais uma incógnita sobre o que pretende a Globo em relação a Bolsonaro. Pode vir a ser seu candidato, e daí esse tratamento indeciso? 

    Eu fico com as análises de Aldo Fornazierri, que sempre nos lembra que se a Globo tivesse a influência sobre as eleições tal como dizem muitos, o PT jamais teria ficado no poder por 13 anos, mais ou menos. E se já não tava com ess bola lá atrás, quando o PSDB era o Melhor, hoje, então, tá mais perdida do que cego em tiroteiro. 

    Vale dizer que Aécio se danou; Jeressissati já se penitencia pelo apoio dado a um golpe idiota, com consequências funestas ao seu partido e ao Brasil, entre outras, e de tal forma, que Catanhêde e sua turma só manifestam medos em suas matérias publicadas. Nem Regina Duarte foi tão medrosa um dia.

  2. Como falar de programa partidário ?

    Praticando um tipo de jornalismo inquisidor, da pior forma possível, pois questiona o entrevistado, sem dar~lhe o devido e necessário tempo, para que o mesmo responda, a Rede Globo, arvora-se de representante do pior jornalismo dito investigativo, do qual se tem conhecimento.

    Definitivamente, eles não deram a menor chance, a nenhum dos candidatos entrevistados( ? ) porém o que tentaram fazer com o Fernando Haddad, extrapolou a todo e qualquer nível, pois ao colocar a questão, eles simplesmente interrompiam o raciocínio do inquirido, acumulando questiúnculas em cima da questão anteriormente colocada, e impedindo que o questionado, pudesse apresentar seus pontos de vista, números dados, etc, chegando ao ponto, de fazer um Professor experiente e qualificado, pedir que assim como tiveram a liberdade de perguntar, que dessem-lhe o direito e a liberdade de responder.

    Mais do que a tentativa de desetabilizar um candidato que a Rede não aceita que ganhe em hipótese nenhuma, eles agiram como os mais aguerridos advogados de acusação, de que se tem notícia, esquecendo eles, que a emissora tem uma concessão do governo federal, suscetível a reanálise, quando de sua renovação. 

    Quando insistiram que o partido do entrevistado, seria uma gangue, aonde quase todos estariam sendo investigados,como se alguem está sob investigação, significasse uma condenação por antecipação, sendo preciso que o Haddad lembrasse aos dois inquisidores, que nem todos os próceres petistas, estariam sendo investigados, e que alguns, sequer são citados, em qualquer irregularidade, e que a Globo, também está sendo investigada …

    Replicado, que isto não viria ao caso, ouviram o que não queriam(e que para quem lê nas entrelinhas) que sendo uma concessão federal, ela poderia ter muito o que perder, se …

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