Boulos no Roda Viva: virtudes e limitações, por Roberto Bitencourt da Silva

Boulos no Roda Viva: virtudes e limitações

por Roberto Bitencourt da Silva

Em que pese o trato educado e gentil, praticamente todos os entrevistadores do candidato presidencial Guilherme Boulos (PSOL/PCB), ontem, no programa televisivo Roda Viva, foram patéticos. Fracos, inconsistentes, dotados de um reacionarismo dogmático e de ideias liberal-conservadoras abstratas semirreligiosas. Quase nenhuma relação com fatos e evidências, eis a marca do grosso das perguntas feitas a Boulos. Um retrato do jornalismo da televisão brasileira.

Guilherme Boulos, com essa entrevista, teve a oportunidade de apresentar-se como candidato à Nação, ainda que em programa de baixa audiência. Foi importante. Mostrou muita sobriedade, segurança e densidade. Um conhecimento expressivo demonstrado na defesa, sobretudo, dos temas reforma tributária e reforma urbana.

As suas ponderações em torno da dimensão participativa da democracia foram bastante articuladas e pertinentes, chamando a atenção para alternativas outras de exercício de governo e poder, distantes da espúria transação negocista parlamentar e empresarial.

Um envolvimento político mais estreito da população, via instrumentos como referendos, plebiscitos etc., é de suma importância, particularmente para as classes trabalhadoras subalternas, marginalizadas, oprimidas e da pequena burguesia – em diferentes graus, consistindo nos sem-voz e desapossados de legitimidade, pelas oligarquias políticas e pelo oligopólio de comunicação, para interferir nos processos decisórios do País e na construção da opinião e da agenda pública.

Sem essa participação política dilatada, não haverá mudanças de fato no Brasil, enraizamento social democrático, nem teremos capacidade de perseguir a ruptura com a dependência externa, a alienação cultural e política, a elevada expropriação de direitos e dignidade do Povo.

Todavia, uma limitação programática apresentada pelo candidato, e séria, ainda que esperada, é a ideia subjacente, em seu discurso, da prevalência de um país rico, mas injusto. A bandeira da reforma tributária progressiva, explorada em diferentes oportunidades por Boulos, reflete certo eixo do seu programa eleitoral – de inspiração keynesiana ou cepalina.

Com isso, a questão social – junto com a questão democrática – ganha primazia sem a devida articulação com a questão nacional. Uma limitação que inviabilizaria, na prática, a consecução dos objetivos associados à democracia e à justiça social. Do ponto de vista de uma candidatura que se pretenda sintonizada com as esquerdas, é preciso aprofundar e repercutir o diagnóstico de nossos problemas nacionais nos setores produtivos e financeiros.

A crise é inédita, muito profunda, que tem aumentado a nossa dependência, inclusive do mercado internacional, em função do peso demasiado do setor primário-exportador como fonte de divisas e dinamismo econômico.

A crise econômica, política e moral que se abate sobre o País tem alienado riquezas e centros decisórios nacionais. Tem ampliado as desigualdades e a espoliação sobre os trabalhadores. Por isso, a reforma tributária é muito importante, mas não poderá ser tratada como panaceia. Não se pode criar ilusão a respeito. Os meios de evasão fiscal e remessas de lucros para o exterior são imensos, para quem detém o capital. Lembro que mais de 30% do PIB corresponde ao controle patrimonial/empresarial por corporações estrangeiras (conglomerados multinacionais).

Se o foco das preocupações econômicas de Boulos for somente regulação de bancos e tributação progressiva, transmite-se uma ideia ilusória de que dá para ajustar as coisas, assegurar democracia e igualdade social, com a base produtiva existente, com a composição heterogênea das classes dominantes internas e externas existentes. Não dá. Nunca deu. Menos ainda em nosso tempo, devido à reconfiguração aprofundada da dependência, já sob um status neocolonial.

O Brasil está se desindustrializando há décadas. A participação da indústria no PIB, hoje, resvalando em cerca de 11%, é a mais baixa da história desde os anos 1940. E ocorre sob o influxo não de uma transição tecnológica e produtiva autossustentada pelo País. Mas, por decisão de quem controla o setor econômico, basicamente as multinacionais. Isso implica em avolumada apropriação e transferência de excedentes da economia nacional para fora. Resulta em importação sistemática de máquinas, equipamentos, componentes e produtos. O setor de serviços já apresenta enorme participação do capital estrangeiro também, há duas décadas.

Um olhar sobre o balanço de pagamentos é esclarecedor. Aumenta-se a transferência de excedentes para fora, criam-se déficits tremendos e contínuos no balanço de pagamentos. Algumas das formas para viabilizar os compromissos com as remessas de lucros, propriedade intelectual, royalties etc. do capital internacional, são os juros oficiais altos e a elevação da dívida pública, de modo a obter divisas. Um círculo fechado, que estoura no orçamento emperrado da União, dos estados e municípios, com juros e serviços de dividas. Fenômeno que contrai investimentos públicos produtivos e a satisfação de necessidades populares.

Para além dos efeitos financeiros, essa mazela implica em desnecessidade de criação própria, de engenho inventivo autóctone e da própria educação e da ciência e tecnologia. Envolve o crescimento da oferta de empregos precários, simples e de baixa qualificação. Trata-se de uma das raízes da hiperespoliação, crescente, da maioria trabalhadora. As famosas “perdas internacionais”, a que se referia Leonel Brizola.

Existem outros problemas, mas esse é dos mais centrais e que não pode passar despercebido em uma candidatura das esquerdas. Esse perfil de candidatura exige mais do que preocupação eleitoral. Demanda atuação política didática, mobilizatória e esclarecedora para nossa gente. Uma visão de médio e longo prazo. Incidir no debate nacional e na formatação consistente da agenda pública.

A questão em foco precisa ser alçada ao primeiro plano das propostas de Boulos. PSOL e PCB possuem quadros próprios, de valor, com sensibilidade e conhecimento sobre esses relevantes problemas. Nildo Ouriques talvez seja o quadro partidário mais expressivo a denunciar esse tipo de mazela e a propor soluções a respeito.

O partido tem quem possa adensar o programa e ajudar Boulos no esclarecimento popular sobre nossos graves problemas. Atributos como inteligência, estofo intelectual, capacidade pedagógica de tradução e elucidação o candidato os possui, sem dúvida. Oferecer convicções firmes e claras, sem tergiversações e ilusões. É preciso aproveitar a capacidade onde existe. E tem lá dentro do PSOL e do PCB. Em todo caso, para uma apresentação, Boulos ofereceu um belo cartão de visita.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

5 Comentários

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Dorival Moreira

- 2018-05-09 13:14:14

E o PIB percapita

A esquerda é bem míope para a questão do nosso PIB percapita nos colocar numa posição muito distante das dos países subdesenvolvidos.

B.V.D.

- 2018-05-09 08:56:29

Boulos pode bater o Ciro ou ser seu ministro

O Boulos é muito bom, pra ganhar meu voto ele tem que mostrar que sabe lidar com a centena de políticos corruptos que derrubaram a Dilma e que vai por gente excelente no Min. da Fazenda e BC pro país não quebrar ou ter grande inflação.

Se o Ciro falar + merda, como dizer que vai meter bala nos PFs se forem prendê-lo pela lava jato (o que os políciais que cumprem decisão de 1 juiz, promotor, delegado tem de culpa?) vou votar no Boulos.

João de Paiva

- 2018-05-09 04:28:18

Preciosismo acadêmico e um aponta de inveja

Limitados, na verdade desqualificados, neoliberalistas chinfirins são os entrevistadores. Boulos respondeu com clareza tudo o que lhe foi pergunatado e muito mais; Boulos escapou com elegância e sobriedade de todas as cascas de banana, arapucas e ciladas que o antro neoliberal-tucano lhe armou. O articulista cobra de Boulos que ele tivesse, em 1p0min de entrevista, em que foi perguntado sobre diferentes temas, ele pudesse apresenar em detalhes um extenso e abrangente Plano de Governo. Não sei como um historiador e cientista político experiente pode enxergar limitações ou falhas de Guilherme Boulos numa entrevista em que os perguntadores são tão fracos e sectários; deve ser preciosismo de acadêmico ou uma ponta de inveja, algo que muitos intelectuais como ele sempre nutriram e nutrem contra o Ex-Presidente Lula, um líder popular, mas que não freqüentou a Academia, como ele e Boulos.

Lá no 4o parágrafo o articulista comete um sério erro conceitual, como destaco a seguir:

"Um envolvimento político mais estreito da população, via instrumentos como referendos, plebiscitos etc., é de suma importância, particularmente para as classes trabalhadoras subalternas, marginalizadas, oprimidas e da pequena burguesia – em diferentes graus, consistindo nos sem-voz e desapossados de legitimidade, pelas oligarquias políticas e pelo oligopólio de comunicação, para interferir nos processos decisórios do País e na construção da opinião e da agenda pública."

Na verdade as classes trabalhadoras, subalternas, marginalizadas e oprimidas não estão deapossadas de legitimidade, mas sim de representação política e de respeito pelos seus direitos por parte daqueles incumbidos de aplicar e fiscalizar a aplicação das leis, em nome do já extinto Estado Social de Direito e Democrático.

 

Eduardo Outro

- 2018-05-08 19:55:21

Nas entrelinhas:  "Boulos,

Nas entrelinhas: 

"Boulos, você ainda está muito verde, estude bastante, lá no seu partido tem gente muita boa, aprenda com eles, evolua mais e no futuro, quem sabe, mas por ora Ciro é o melhor". 

"Boulos, aprenda mais sobre as famosas perdas internacionais, como dizia o Brizola, criador do PDT, partido de Ciro, o melhor"

"Boulos, sua apresentação foi um belo cartão de visita. Continue assim que terá ainda um melhor, igual ao do Ciro, o melhor" 

 

J.J. Lopez

- 2018-05-08 19:47:00

Boulos take it easy!

Boulos é um campeão da Fórmula 2 que querem que ele faça sua estréia no GP de Fórmula 1 em Mônaco. Só que esquecem que  essa pista tem muitas armadilhas para um jovem piloto sem experiência que pode quem sabe bater na primeira curva e sair da corrida.

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