Como cozinhar uma denúncia fajuta, por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Como cozinhar uma denúncia fajuta

por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

 

Quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Antes de começar o assunto deste post, dois avisos:

Falhei miseravelmente ao não perceber uma manchete com verbo atacar acionada pelo sujeito Alckmin:

  1. Na TV, Alckmin ataca Bolsonaro, que reage na web

 

Coisa rara como um sujeito tucano acionando o verbo atacar é digna de nota e um monte de “oooohhhh”.

 

O segundo aviso: a segunda e a terça-feiras me mostraram que nem todo dia as manchetes vão render textinhos, então esta série aqui será devezemquandária, mas vai se concluir no dia 7 de outubro – e no dia 8 começamos tudo outra vez com o segundo turno (se houver).

 

Isto posto, vamos aprender hoje como cozinhar uma noticinha xexelenta que não tem nada de substancial (lembrem-se: estou seguindo os preceitos do jornalismo clássico, que prescindem de um fato concreto para dar-lhe o nome de notícia).

 

Vamos ver hoje como Folha, Estadão e O Globo falam de um mesmo assunto: A denúncia do Ministério Público de São Paulo contra Fernando Haddad. Não vou entrar no mérito da coisa – não agora. Primeiro, vamos ver como manchetar a coisa:

 

  1. Promotoria denuncia Haddad (Estadão, capa)

  2. Promotoria denuncia Haddad por corrupção (Estadão, interna)

 

  1. Haddad é denunciado sob acusação de corrupção (Folha, interna)

 

  1. MP denuncia Haddad acusado de corrupção (Globo, capa)

  2. MP-SP denuncia Haddad por terceira vez, agora por corrupção e lavagem (Globo, interna)

 

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Temos dois jornais que optaram por construções em voz ativa (Estadão e Globo) e a Folha toda trabalhada na voz passiva (4). E daí?

Daí que, segundo Dona Pragmática, estamos falando de Haddad. Ele foi denunciado. Quem denunciou? Pouco importa, o agente sumiu da frase. O que importa é que ele foi denunciado sob acusação de corrupção.

Temos duas nominalizações (alguém acusou, alguém corrompeu) que já de saída trabalham pra mocozar as responsabilidades dos agentes. E, para além da mocozação, temos duas palavras de semântica negativa.

 

Essa mesma semântica negativa vai ser mais bem trabalhada pelo Globo (5), que, ao trazer o agente pra frente da oração, transforma o sujeito MP num agente que acusa Haddad de corrupção. É o Judiciário que tá acusando Haddad de ser corrupto. Temos um sujeito com credibilidade alterando o estado final de um paciente (semântico, mas pode entender como adjetivo também, eu no lugar do Haddad não teria a menor paciência) que sofre uma acusação de corrupção.

 

Tudo bem que essa frase está no canto inferior e em letras pequenas, por isso deu pra escrever uma manchete de capa com 43 caracteres. Mas mesmo a manchete interna (6), com 73 caracteres, começa a mexer com o que Talmy Givón (dentre outros linguistas) chama de iconicidade diagramática. Observe que as duas manchetes são, de longe, as mais compridas. Na chamada interna ainda temos que é a terceira vez, agora por corrupção e lavagem (o de dinheiro fica implícito). Temos vários dados linguísticos que, na prática, passam várias informações – muitas vezes isso pode confundir o leitor.

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Ah, mas o Haddad foi denunciado! Oh, que coisa!

 

É. Ohquecoisa. Aí você lê o texto do Globo e, lá embaixo, escondido no meio do sexto parágrafo, a informação de que “Contudo, não há na denúncia comprovação de que a empreiteira tenha recebido contrapartidas do então prefeito, nem que Haddad tenha feito pessoalmente o pedido.”.

 

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