“Hitler e Goethe” de Kurt Tucholsky. Dicas para uma redação sobre ‘Bolsonaro e Machado de Assis’, por Joaquim Medeiros dos Santos

“Hitler e Goethe” de Kurt Tucholsky. Dicas para uma redação sobre ‘Bolsonaro e Machado de Assis’

por Joaquim Medeiros dos Santos

ao meu amigo Jessé Souza

Em 17 de maio de 1932 Kurt Tucholsky publicou sob o pseudônimo Kaspar Hauser na revista semanal “Die Weltbühne” uma sátira intitulada “Hitler e Goethe. Uma redação escolar”.

Tucholsky pressupõe a seguinte situação: um professor de alemão, claramente identificável como representante da extrema direita, pequeno-burguês ensandecido, pede uma redação sobre “Hitler e Goethe”. Eis o mote, assustador na sua imbecilidade, que junta dois personagens incomensuráveis, Adolf Hitler e o mais universal poeta e escritor de língua alemã, Johann Wolfgang von Goethe, falecido em 22 de março de 1832, um século antes da ascensão de Hitler ao poder.

Qual mote, tal glosa: Tucholsky conseguiu entrar na cabeça de um adolescente ignorante, que escreve um texto exteriormente de acordo com as regras da redação e repleto de erros gramaticais e estilísticos. Produziu um texto satírico, uma paródia, mas também um texto perfeitamente realista, que retrata o pensamento da parcela da sociedade alemã que levou Hitler ao poder e se identificou com ele, à semelhança de uma parcela da sociedade brasileira, disposta a entregar o governo do país a uma pessoa sem a menor qualificação intelectual e moral e, ao que tudo indica, desequilibrada, com a ajuda de uma mídia canalha e de um Judiciário que não mais se pauta pela constituição e pelo direito.

A tradução desse texto é difícil, se não impossível, pois ele contém elementos da linguagem da época, inclusive da gíria de adolescentes. Uma dimensão, a sintaxe tetraplégica, expressão da ausência de lógica no encadeamento das ideias, pôde ser reproduzida sem maior dificuldade, pois não diz respeito ao plano das palavras. Espero que o leitor perceba também a boçalidade insolente, prenúncio do que os nazistas fariam oito meses e meio mais tarde, a partir da “tomada do poder” (Machtergreifung) em 30 de janeiro de 1933.

Textos literários não deveriam ser sobrecarregados com notas de rodapé A exceção é justificada pelas dificuldades desse texto escrito há oitenta e seis anos, período quase idêntico à idade do ínclito Fernando Henrique Cardoso, cuja responsabilidade na situação do país não carece de maior explicação e um dia, depois do restabelecimento do Estado Democrático de Direito, será comentada nas aulas de História Contemporânea.

Kurt Tucholsky (1890-1935) foi um grande escritor de imensa produtividade durante a República de Weimar. Soube transpor para seus textos, com brilhantismo e virtuosismo, os falares dos habitantes de Berlim da sua época, mais especificamente o humor berlinense, ácido, rápido no gatilho e amiúde cáustico e amargo. Democrata radical e polemista brilhante, fustigou sem cessar as correntes de direita da República de Weimar, sobretudo os nazistas, em poemas, crônicas e mais de quinhentas resenhas de livros, que ultrapassam em muito o âmbito restrito da crítica. Emigrou em 1929 para a Suécia, publicou até fins de 1932, teve seus livros queimados em maio e junho de 1933 e a cidadania alemã cassada pelo regime nazista em 23 de agosto de 1933. Tomou uma overdose de soníferos e faleceu em 21 de dezembro de 1935.

O texto alemão pode ser lido em https://www.textlog.de/tucholsky-hitler-goethe.html

Semelhanças com o Brasil atual não são mera coincidência.

 

HITLER E GOETHE

Uma redação escolar

Kurt Tucholsky

Introdução

Se olharmos de relance o povo alemão e sua história, deparamo-nos preferencialmente com dois heróis que conduziram o seu destino, pois um deles morreu há cem anos. O outro vive. Como seria se as coisas fossem diferentes, isso não deve ser examinado aqui, pois o professor não pediu. Por isso parece-nos importante e digno de nota traçar uma comparação entre Goethe, morto pra cacete, e Hitler, vivo pra cacete.

 

Explicação

Para explicar Goethe, só precisamos chamar a atenção ao fato de que o mesmo não foi um patriota. Nunca teve sensibilidade diante das dificuldades de Napoleão e disse: vocês não vão vencê-lo, pois esse homem é grande demais para vocês [1]. Mas isso não é verdade. Napoleão também não foi o maior alemão, o maior alemão é Hitler. Para explicar isso, só precisamos chamar a atenção ao fato de Hitler quase ter ganho a batalha de Tannenberg [2], apenas não esteve presente. Já há muitos meses Hitler é cidadão alemão [3] e quer abolir a propriedade privada, pois ela é coisa de judeu. O que não é coisa de judeu é a propriedade produtiva e não será abolida. O partido de Goethe foi muito menor do que o partido de Hitler. Goethe não é um cara legal pra caralho.

 

Fundamentação

As obras de Goethe são o Fausto, Egmont Partes I e II, as Afinidades Eletivas de Werther [4] e os Piccolomini [5]. Goethe é um marco [6] do povo alemão, do qual podemos orgulhar-nos e pelo qual os outros nos invejam. Mas eles nos invejam ainda mais por Adolf Hitler. Hitler divide-se em 3 partes: numa parte legal, numa parte real e em Goebbels [7], que nele está no lugar da boca, entre outras coisas. Goethe nunca colocou a sua vida em jogo, mas Hitler colocou esta neste [8]. Goethe foi um grande alemão. Zeppelin foi o maior alemão. Hitler é genericamente o maior dentre todos os alemães.

 

Contraste

Hitler e Goethe formam um certo contraste. Ao passo que Goethe se dedicou mais a uma atividade literária, mas falhou nas Guerras da Libertação [9] em oposição a Theodor Körner [10], Hitler nos ensinou o que significa ser um literato e ao mesmo tempo líder [Führer] de um partido com milhões de membros, que é um partido de milhões de membros. Goethe foi Conselheiro de Estado, Hitler Conselheiro de Governo [11]. A atuação de Goethe não se derramou [12] apenas sobre a vida das pessoas, mas estendeu-se também à dimensão cosmética [13]. Hitler, no entanto, é um inimigo da ordem materialista do universo e vai abolir esta quando tomar o poder, bem como a guerra perdida, o desemprego e o mau tempo. Goethe teve várias relações sentimentais com a Sra. von Stein, a Sra. von Sesenheim e Charlotte Puff [14]. Em contrapartida, Hitler só bebe água mineral e não fuma [15].

 

Comparação

No entanto, há também pontos de contato e compensação entre Hitler e von Goethe. Ambos viveram em Weimar, ambos são escritores e ambos se preocupam muito com o povo alemão, pelo qual os outros povos nos invejam tanto. Ambos também tiveram um certo sucesso, embora o sucesso de Hitler seja muito maior. Quando chegarmos ao poder, vamos abolir Goethe.

 

Exemplo

Fundamentamos a seguir com base num exemplo o quanto Hitler sobrepuja Goethe. Quando Hitler esteve na nossa cidade, saudei-o com vários outros rapazes de Juventude Hitlerista. O Osaf [16] disse: vocês são a juventude alemã e ele vai colocar a sua mão na risca de vocês. Por isso reparti meu cabelo ao meio nesse dia. Quando chegamos ao grande pavilhão, os ingressos para todos os lugares, que estavam ocupados, tinham sido totalmente vendidos e a música tocou, e ficamos postados com flores na mão, pois somos a juventude alemã. E de repente o Führer veio. Ele tem um bigode como Charles Chaplin, mas nem de longe é tão engraçado. Ficamos num clima muito solene e eu dei um passo em frente e disse “Heil”. Então os outros também disseram “Heil” e Hitler colocou a mão na risca de cada um de nós e nos fundos alguém gritou “Parados!”, pois estavam fotografando. Então ficamos imóveis e o Führer Hitler sorriu durante a fotografia. Esse foi um momento inesquecível para o resto da vida, e por isso Hitler é muito maior do que Goethe.

 

Prova

Goethe não foi classe média sadia [17]. Hitler exige passagem livre para toda a SA e SS [18] bem como que tudo mude completamente [19]. Quem vai decidir isso somos nós! [20] Goethe, enquanto tal, está suficientemente documentado por sua obra, mas Hitler enquanto tal nos arruma pão e liberdade, ao passo que Goethe quando muito fez poemas líricos, que nós enquanto Juventude Hitlerista rejeitamos, ao passo que Hitler é um partido com milhões de membros. Como prova serve também o fato de que Goethe não foi um homem nórdico [ariano], mas viajava de qualquer modo à Itália e contrabandeava seus haveres em moeda estrangeira para o exterior. Hitler, no entanto, não percebe nenhum rendimento, mas a indústria cresce sem parar.

 

Conclusão

Vimos portanto que uma comparação de Hitler e Goethe produz um resultado muito negativo para este último, que não é um partido com milhões de membros. Por isso não apoiamos Goethe. Suas últimas palavras foram mais luz [21], mas quem decide isso somos nós! [22] Se um dos dois, Schiller ou Goethe, foi maior, só Hitler vai decidir e o povo alemão pode considerar-se feliz por não ter dois caras assim!

DespertaAlemanhaMorteaosJudeusHitlerseráPresidentedoReich

quem decide somos nós!

Muito bom!

Goethe, que foi admirador de Napoleão Bonaparte, teria dito em uma conversa em 1813: “Sacudam seus grilhões; o homem [Napoleão] é grande demais para vocês, vocês não vão romper seus grilhões.” (Frank Deibel, Friedrich Gundelfinger: Goethe im Gespräch. Paderborn, 2012)

Na batalha de Tannenberg na Prússia Oriental (26 a 30 de agosto de 1914 o exército alemão, comandado pelo general da reserva Paul von Hindenburg, infligiu uma derrota acachapante ao exército russo. Eleito presidente da Alemanha em 1925 e reeleito em 1932, Hindenburg nomeou Hitler Chanceler do Reich (chefe de governo) em 30 de janeiro de 1933.

3 Poucos sabem que Adolf Hitler, natural da Áustria e apátrida por requerimento desde 30 de abril de 1925, foi naturalizado apenas em 25 de fevereiro de 1932 pelo Estado Livre de Braunschweig. Antes de 1934 a naturalização não era possível na República de Weimar, sendo admitida apenas nos Estados-membros. No original, o aluno não usa os termos corretos “Staatsbürger” (titular da nacionalidade) ou, mais simples, “Bürger” (cidadão), mas “Spießbürger”, termo intraduzível, que atesta a ignorância do aluno e é sinônimo de “filisteu”, “indivíduo medíocre e limitado”.

4 Aqui o ignaro aluno mescla duas obras de Goethe, o romance “As afinidades eletivas” (1809) e o famoso romance epistolar “Os sofrimentos do jovem Werther” (1774).
Die Piccolomini (Os Piccolomini), de 1799, é a segunda parte da trilogia dramática de Friedrich von Schiller (1759-1805)
6 Em alemão: “Marxstein”, um jogo de palavras intraduzível, indicativo da ignorância do aluno. O certo seria “Markstein” (marco, literalmente: pedra de marco, pois os marcos divisores de propriedades fundiárias e de países originalmente eram de pedra), mas o fictício aluno da sátira de Tucholsky escreve “Marxstein” (literalmente: pedra de Marx).
7 Joseph Goebbels (1897-1945) ocupou a partir de 1933 o Ministério para o Esclarecimento/a Ilustração [sic; em alemão: Volksaufklärung] do Povo e Propaganda do Terceiro Reich. Nos anos anteriores, sua atuação na difusão do nazismo foi de decisiva importância.
8 A expressão “colocou esta neste” é uma tradução literal. O aluno aprendeu que a repetição de palavras é um recurso estilístico duvidoso. Por isso abusa dos pronomes.
9 Guerras contra Napoleão Bonaparte até a sua derrota definitiva em Waterloo (1813-1815).
10 Theodor Körner (1791-1813), morto em combate em uma unidade de voluntários do exército prussiano durante as Guerras da Libertação contra Napoleão Bonaparte, foi um escritor e poeta alemão – medíocre.
11 Goethe teve esse título como funcionário do Ducado de Saxônia-Weimar-Eisenach. Hitler foi nomeado em Braunschweig Conselheiro de Governo (denominação de um cargo na administração pública) para justificar a concessão da cidadania do Estado Livre de Braunschweig, que lhe assegurava a cidadania alemã.
12 Tradução literal.
13 Provavelmente o aluno quis escrever “cósmica”.
14 Durante muitos anos, Goethe teve uma relação, talvez platônica, com Charlotte von Stein, esposa de um funcionário da corte de Weimar. “Sra. von Sesenheim”, que não existiu, refere-se a Friedrike Brion, filha de um pastor luterano da localidade de Sessenheim (Goethe grafa Sesenheim) na Alsácia, pela qual o jovem Goethe se apaixonou em 1771. E Charlotte Buff foi uma jovem, que Goethe conheceu em 1772 e pela qual ele se interessou, sem ser correspondido, pois ela era noiva de Johann Christian Kestner, com quem se casou em 1773. Ela foi o modelo do personagem Lotte no famoso romance epistolar Os sofrimentos do jovem Werther (1774). Na sátira de Tucholsky, o adolescente ignorante transforma seu sobrenome em “Puff”, que significa “bordel”.
15 A tradução literal de “não fuma” seria: “não fuma, excetuados os charutos, que ele dá aos seus lugares-tenentes” [Unterführer, literalmente: sub-líderes]. Ainda usada nos dias atuais, essa expressão, “dar um charuto a alguém” é intraduzível. Surgiu provavelmente entre oficiais do exército alemão da 1ª Guerra Mundial. Quando um oficial repreendia um subordinado, oferecia-lhe antes um charuto, para adoçar a carraspana.
16 Sigla do comandante da SA (Tropa de Assalto), milícia nazista.
17 A “classe média sadia” é até hoje um dos ideais sociais da extrema direita. Define-se pela presumida “normalidade”. É um conceito excludente de minorias.
18 Uma estrofe da famosa Canção de Horst Wessel, membro da SA inicia com os seguintes dois versos: “Abram alas para os batalhões marrons” (marrom era a cor dos uniformes da SA. Em tradução literal: “[Queremos] a rua livre para os batalhões marrons”.
19 “Tudo deve mudar completamente”: muito em voga no fim da década de 1920, a expressão vaga expressa os anseios do fascismo popular.
20 Frase muito em voga entre os apoiadores do nazismo.
21 A tradição, amparada no frágil testemunho de um médico, que não esteve presente, reza que as últimas palavras de Goethe foram “Mais luz!”.
22 “Desperta, Alemanha!”, “Morte aos Judeus” e “Hitler será Presidente do Reich” foram palavras de ordem do nazismo no ocaso da República de Weimar. Nesse texto, devem ser pronunciadas de uma assentada, com o fôlego energizado pelo ódio.
 
 
 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

2 comentários

  1. Temos capacidade para evitar guerras?

    Por essas e por outras, que entre a nossa tendência humana à boçalidade e ao orgulho da pretensão de superioridade sobre as outras pessoas :

    “… com muito gostoprefiro gabar-me de minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim.” (2 Cor. 12,9b).

    Soberba é uma manifestação negativa que denota pretensão de superioridade, podendo se manifestar individualmente ou em grupo, externada em manifestações ostensivas para menosprezar e massacrar os indivíduos considerados, por eles, como seres inferiores. O racismo, a xenofobia, o elitismo, o corporativismo, são comportamentos que se caracterizam pela soberba

    https://www.significados.com.br/soberba/

  2. Ágape

    Ágape significa amor, é uma palavra de origem grega. Ágape pode ser o amor que se doa, o amor incondicional, o amor que se entrega. O expressão ágape foi usada de várias maneiras diferentes entre os gregos, em passagens da Bíblia, em cartas , em correspondências entre amigos, era usado, da mesma forma que nos dias de hoje, se usa no inicio de um texto a palavra “prezado”.

    O termo foi muito utilizado, na Grécia antiga pelos filósofos, como Platão, significando por exemplo, o amor a uma esposa, ou esposo ou amor às crianças, aos filhos, a sua família e ao trabalho. Já para o  carinho, a afeição, a afinidade, o amor entre irmãos os gregos usavam o termo philia. Para uma afeição de natureza sexual, representado por uma atraçao física, uma lembrança era usada a expressão Eros, que representa a  deusa do amor.

    Ágape foi um termo muito utilizado pelos escritores cristãos, e aparece bastante nos textos do Novo Testamento, onde há muitas definições e exemplos de ágape, o amor filial, o amor entre os cônjuges, e o amor de Deus para com todos os seres.  Nos Mandamentos, o termo aparece no começo de cada sentença.: Amar (ágape) a Deus sobre todas as coisas. No Sermão da Montanha o termo também é referido desde a primeira sentença. O Papa Bento XVI também utiliza o ágape, em sua encíclica “Deus caritas est”, lembrando que o amor oblativo é aquele que procura o bem e a paz para todos os seres humanos.

    Ágape era também a primeira refeição que os cristãos dos primeiros séculos faziam em comum. Um banquete de confraternização.

    Data de atualização: 20/06/2013. O significado de Ágape está na categoria: Geral

     

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome