O absurdo do voto útil ou como a inversão dos tempos pode ferrar tudo, por Fernando Horta

O absurdo do voto útil ou como a inversão dos tempos pode ferrar tudo

por Fernando Horta

Tenho sido um afortunado nestes tempos sombrios. Meus objetos de pesquisa estão TODOS acontecendo no Brasil atual. Eu estudo o século XX, os fascismos, as guerras as lutas ideológicas, as ferramentas de cooptação, o papel dos sujeitos, da mídia, dos grandes nomes, dos movimentos sociais e etc. Eu estudo as ideias por trás da formação da Guerra Fria. Como puderam transformar aliados de guerra em inimigos “viscerais”, em pouco menos de 3 anos? Como conseguiram reescrever a História da Segunda Guerra, de forma que, em 1960, a maioria da população do planeta achava que os EUA a Inglaterra tinham sido os responsáveis por derrotar o nazi-fascismo. Eu estudo tudo isto. E ver estas coisas se repetindo, no meu país, dá uma sensação estranha de impotência. Você sabe como as coisas estão para se desenrolar, mas ninguém te ouve. Você percebe situações e estratégias usadas anteriormente, mas não há ninguém para alertar.

Confesso que é bastante ruim.

Contudo, uma das coisas que estudo, e que pensei que só fosse servir para a academia, é a inversão dos tempos na História.

Todo mundo sempre foi levado a crer que o Passado é o que passou, o Presente é o que estamos vivendo e o Futuro é o que ainda não chegou. Este sentido do tempo é chamado de “flecha do tempo”, pois acreditava-se que uma vez disparada, a “flecha” jamais retroagiria. Por centenas de milênios o homem pensou que esta percepção dos tempos era suficiente para que ele vivesse orientado e, com um relativo grau de sucesso nas tentativas de sobrevivência.

Acontece que os tempos não são ordenados da forma como sempre pensamos.

Neste ponto, alguns leitores já estão tentados a me deixarem números e indicações de médicos psiquiatras, e talvez até algum tarja preta “emergencial” … só para evitar surtos. Mas a verdade é que uma pequena reflexão sobre os tempos já coloca em sérias dúvidas na ideia de “flecha do tempo”.

O que é o Presente? Se ele é o Presente Imediato, medido pelos segundos do relógio, então é um tempo que se faz e se desfaz imediatamente, passando da condição de Futuro, para o Presente e, logo, para o Passado, sem que nos demos conta. Talvez até, se tomarmos divisões menores que o segundo, o Presente nem sequer exista. Mas, para ele existir, ele precisa tomar um pouco do Passado e do Futuro, no que Husserl chamava de “protensões” (espichos do Presente para o Futuro) e retenções (espichos do Presente para o Passado) do tempo.

“Ele estava agorinha comigo” é uma frase dita num Passado que é espichado para o Presente sem que a gente quantifique este “agorinha”. Quanto tempo precisa se passar para que o Presente se torne Passado?

O tempo chamado “Passado” também tem seus problemas. Como sabemos do Passado se não estamos mais lá? Se fomos testemunha, talvez pela memória. Mas a memória é o Passado ou uma reconstrução que eu faço a partir do que me lembro e do que entendi deste Passado? Alguém que “viveu” o período militar conhece melhor o Passado do que quem o estuda? É possível que todo o nosso Passado seja uma grande invenção? A Teoria da História já tem brigas demais neste campo. Para uns o Passado é uma completa invenção, e para outros, é um tempo existente do qual temos apenas “traços”. No meio destas duas ideias, há infinitas posições.

Contudo, a psicologia tem mostrado, com testes empíricos, que nosso Passado é uma grande invenção e que uma enorme parte de informações são adicionadas pelos sujeitos ainda que não de forma racional. A cor da roupa do primeiro encontro de dois namorados muda ao longo do tempo. Sem um registro ou uma foto, a probabilidade de que esta informação seja perdida é imensa, mas a probabilidade de que ela seja apenas “inventada” é ainda maior.

Este Passado inventado é uma das grandes ferramentas dos Estados. Os Estados, para além de administrar, coibir, forçar, organizar, punir e etc. tem a importante missão de ordenar o Passado numa narrativa coerente aos homens do Presente. Santo Agostinho chamava esta reflexão dos tempos de “teoria dos três presentes”. Como é o homem do Presente que se lembra, e lembrar é um ato que só pode ser feito no Presente, temos que o Passado é algo que o homem do Presente enuncia. Agostinho chamou isto de Passado do Presente. Da mesma forma, o Futuro também só existe pela ação de imaginar do sujeito no Presente. E aí surge o Futuro do Presente. No fundo, segundo Agostinho, todos os tempos se reúnem no Presente e só existindo através do Presente.

Se os tempos eram já de difícil discernimento para um historiador, parecia haver um consenso sobre o Futuro. O Futuro era um tempo que ainda não era. “O Futuro só Deus sabe”, diz o famoso ditado popular. Era um tempo mudo, sobre o qual ninguém falava. Especialmente historiadores. Amedrontados pelas subjetividades do Passado e pela inconstância do Presente, o Futuro era o tempo certo. Era certo de que sobre ele nada saberíamos, nada poderíamos falar. Mas a coisa também não é tão simples.

O filósofo Paul Ricoeur chamava o Passado de uma “ausência presente”. O tempo não está mais lá. Se conceitua pela inexistência dele. O Passado é o que já não é. Ainda assim, ele se faz, o tempo todo, presente no Presente. Chamamos o Passado por “aquilo que não é mais” e o damos nomes, causas, inferimos proposições e tudo mais a partir do Presente. O historiador se acostumou a ficar de costas para o Futuro, olhar e contemplar apenas o Passado. No século XX, passou a olhar para o Presente e criou a “História do Tempo Presente”. Muitos historiadores ainda têm birra com isto. Olham torto os colegas que trabalham nesta área. Afinal, o que diferenciaria a “História do Tempo Presente” de um Jornalismo? Ou ainda mais profundamente assustador, o que diferenciaria a História do Tempo Presente da Literatura?

Na minha tese de doutorado defendi a “História do Futuro”. E imaginem o tanto de celeuma que esta noção deu. Defendi o Futuro como um tempo em que a História precisa tomar para si. Precisa falar. Meu argumento é que a Guerra Fria, por exemplo, é uma antecipação dos tempos através de discursos científicos, fazendo o Futuro ser mais presente que o Presente. E assim o ciclo de desespero da Guerra Fria se mantinha.

EUA e URSS se trancaram em uma dança, em que um “antecipava” os passos que o outro iria dar (sem ter dado) e agia no Presente segundo esta informação. O Futuro não era meramente uma “possibilidade”, mas uma certeza legitimada e carimbada por “cientistas”, “teorias” e tudo mais. A Guerra Fria destruiu o mundo dezenas de vezes com explosões nucleares. No Futuro, claro. No momento em que este Futuro era tomado como verdade, ele alterava as escolhas e as ações do Presente. No momento em que um dos lados acreditava que iria perder a guerra – no Futuro – ele passava a orientar seus recursos no Presente de forma que somente a visão do Futuro (tomado como certeza) poderia explicar (na produção de bombas, por exemplo, com sua população precisando de outros investimentos). E o mesmo caminho era feito pelo outro lado num moto contínuo que consumiu o planeta inteiro.

O Futuro era, assim, um tempo Presente. Através de “cientistas” que diziam que o evento A iria acontecer ou o B, os tomadores de decisão organizavam-se. E este é o legado perigoso da Ciência para o mundo. Pela inversão dos tempos, tomando-se o Futuro no lugar do Presente, nós quase exterminamos a humanidade com armas atômicas. Várias vezes.

Hoje, os historiadores estão recontando a História do Século XX. Muitas coisas foram escritas de maneira totalmente errada. Muitos sujeitos tomaram atitudes baseadas em “cientistas” e “teorias” que, simplesmente, não tinham base suficiente para serem levadas em conta. No meu argumento, é preciso compreender o Futuro que era quando os homens do Passado tomaram as decisões do século XX, e não o próprio Passado destes homens.

Se você está meio confuso, fique tranquilo. Foram mais de quatrocentas páginas argumentando isto. Trazendo dados e noções da Guerra Fria para mostrar como a “antecipação do Futuro” gerava uma tensão com o Presente e criava a Guerra Fria.

Olhando as eleições de 2018, contudo, eu fico com a certeza de que poderia ter argumentado a mesma coisa em meia página. E de forma até mais compreensiva. Veja, por exemplo, a absurda noção de “voto útil”. O tal voto útil é a antecipação de um Futuro (tomado como certo) através de discursos científicos (pesquisas) e a valoração deste Futuro como mais importante que o Presente para a tomada de decisão dos sujeitos. E, pelo absurdo do “voto útil”, muitos passaram a votar em Mara Gabrilli, na esperança de tirar o Major Olímpio da vaga ao senado de SP. Tomaram a eleição de Suplicy como certa e passaram a antecipar um Futuro que era, por tudo o que se conhece, apenas uma projeção falha e sem muito sentido. O mesmo ocorreu com Requião no Paraná e com Dilma em Minas Gerais. Note que estes absurdos só acontecem com a esquerda intelectualizada, que acha que pode “ver” o Futuro e moldar ele. A direita tosca vota duas vezes no mesmo senador, se for necessário. E se a urna não aceitar, anula o segundo voto. E a coisa vai como uma pedrada na parede. Reto. Porém, sem sustos.

O caso mais emblemático é de Ciro Gomes. Pela antecipação de um Futuro (tomado como certo), por um meio que se diz “científico”, uma parte dos apoiadores de Ciro TEM CERTEZA que Ciro venceria (Futuro) Bolsonaro. E toma uma ação totalmente irracional e inconcebível (a retirada de uma candidatura com mais do que o dobro dos votos de Ciro) como a “ação correta” a ser feita. O nível de loucura é gigantesco. Mas não é maior que o estrago que esta noção provocou nas fileiras progressistas. Há quem ainda agora diga que é CULPA do segundo colocado no pleito Ciro não ter vencido (Futuro do Passado) Bolsonaro. É um grau de abstração absolutamente impressionante. E maior ainda é a fé inabalável que estas pessoas têm em institutos de pesquisa que, até ontem, não sabiam quem seria o primeiro colocado para o governo do RJ.

A direita funciona, neste sentido, melhor. O Presente é presente, o Futuro é Futuro e ponto final. Vou votar duas vezes no Major “pra garantir”, e era isto. E o Major fascista foi eleito.

As projeções de Futuro devem ser entendidas como exatamente são: possibilidades. Nada mais do que isto. Antecipar os tempos, sem o conhecimento exato das variáveis e dos processos envolvidos leva – quase sempre – a situações piores do que se poderia “antever”. Se a esquerda “planejadora” tivesse apenas um voto para senador, Dilma, Requião e Suplicy estariam eleitos. Se eles votassem com um voto em Dilma, Requião e Suplicy e com o outro voto em nomes novos sem chance de se eleger, Dilma, Requião e Suplicy estariam eleitos.

E só o Futuro dirá quanto eles farão falta neste momento tenebroso que vivemos.

18 comentários

  1. O passado e o presente na ótica de Marx e Engels

    “Na sociedade burguesa, o passado domina o presente; na sociedade comunista é o presente que domina o passado. Na sociedade burguesa, o capital é independente e pessoal, ao passo que o indivíduo que trabalha não tem nem independência nem personalidade. A abolição de semelhante estado de coisas que a burguesia verbera como a abolição da individualidade e da liberdade. E com razão. Porque se trata efetivamente de abolir a individualidade burguesa, a independência burguesa, a liberdade burguesa.” Marx e Engels, no Manifesto Comunista

  2. Estratégia

    Isso que você aponta como insanidade tem um outro nome: estratégia.

    Quanto ao caso Ciro, ninguém tinha CERTEZA que ele ganharia do Bolsonaro, mas qualquer um, com um mínimo de capacidade analítica, sabe que as chances de Ciro seriam muito maiores (aliás, é bom observar que, se o Ciro não tivesse concorrendo, o bolsonaro poderia ter ganhado no primeiro turno. Mas não pode falar disso, não é? avaliar o que poderia ter acontecido também é loucura!). 

    Enfim, agora somos todos Haddad. O risco maior são os discursos sectários, como o seu . 

  3. Se porém fosse portanto

    A maior loucura agora seria Ciro Gomes não apoiar Fernando Haddad neste terrivel segundo turno. Dizer “elenão”, mas não dar diretiva clara de voto também é participar da marcha da insensatez. No pretérito imperfeito dessas eleições pensei em Ciro-Haddad, mas assim não foi e o que nos move é o futuro do presente e este bate à porta. 

    • Ciro ficará neutro?

      Se Ciro é contra o Bolsonaro mas não é a favor do Haddad, ele está neutro.

      “Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que em tempos de crise moral preservam sua neutralidade –  The hottest places in Hell are reserved for those who in time of moral crisis preserve their neutrality”. – Dante, Divina Comédia

      E Ciro pode acabar nanico, como a Marina, se não escolher um lado ou se escolher o lado errado.

      O P$DB se foi e levou consigo a Marina e sua malária.

  4. Não entendi
     Juro que não entendi seu argumento. “Se a esquerda “planejadora” tivesse apenas um voto para senador, Dilma, Requião e Suplicy estariam eleitos.” Ué, mas a esquerda tinha dois votos. E um desses votos continuou indo justamente para esses candidatos. Se os eleitores de esquerda tivessem jogado fora o outro voto, esses candidatos continuariam NÃO TENDO SIDO eleitos. Não é lógico supor que um eleitor de esquerda tenha usado seus DOIS votos para impedir que um direitista fosse eleito.

    • Gabrilli

      No caso nos outros estados, não sei como se procedeu. Mas a afirmação do Fernando poderia ser aplicada em São Paulo, onde o pedido de voto útil era Suplicy e Gabrilli. Nesse caso, a votação da Gabrilli poderia ter sido engordada pelos votos úteis da esquerda, mas os eleitores nativos dela não retribuíram em Suplicy.

    • Analise com mais calma e entenderá

      Eleitores de Suplicy acreditavam que poderiam derrubar o major votando na Mara Gabrilli.
      Veja uma sequência de votos:
      Da direita: Major, Mara – Major, Mara – Major, Mara
      Da esquerda: Suplicy, Mara – Suplicy, Mara – Suplicy, Mara

      Essa estratégia foi utilizada para derrubar Dilma, pedindo para não deixar o segundo voto em senador em branco. Foi muito compartilhada via whats. Eu recebi a mensagem. E, infelizmente, funcionou.

  5. Não foi o voto útil a surpresa das urnas

    Fernando, 

    acho que é importante um olhar mais cuidadoso em relação a algumas derrotas como da Dilma. Creio que se deu devido a um passado presente imaginário imposto. Um passado que não existiu caiu sobre os mais humildes como um passado presente real. 

    Por quê conseguiram transformar uma mentira  do passado em uma verdade no presente de forma tão fácil?

    Ora, como você mesmo disse, o estado tem a missão de ordernar o Passado numa narrativa coerente. E no contexto geo-político que vivemos, ordena-se o passado de forma a manter o domínio e o status-quo transformando a política, única ferramenta do oprimido que possibilita forjar o futuro, em algo obsoleto e inimigo dele mesmo. Assim, morrem os políticos, e assim, as mentiras do passado entram nos “black mirros” dos oprimidos como uma verdade suave,  mas assustadora. 

    Dilma foi bombardeada de fakenews de forma impressionante. Eu me vi perdendo seus votos que eram garantidos. Impotência total.

    Não foi o voto  útil a surpresa das urnas. 

     

     

  6. Futuros Imaginários

    Muito boa a reflexão. Sua discussão sobre as decisões das potências mundiais durante a Guerra Fria, baseadas em futuros possíveis, lembra um pouco o livro de Richard Barbrook (https://www.editorapeiropolis.com.br/futuros-imaginarios-introducao-a-edicao-brasileira/). Ali ele conta como os Estados Unidos precisaram criar um ideal de futuro tecnológico para se contrapor ao ideal de futuro comunista. É bem interessante como um complemento às histórias mais conhecidas sobre os princípios da internet.

  7. Excelente texto Fernando

    Excelente texto Fernando Horta!

    Tenho tentando dizer isso para aqueles que de última hora passaram a defender que a “única possibilidade de vencermos o segundo turno é com Ciro Gomes”. Infelizmente não tive toda essa robustez de pensamento para argumentar. E de fato, agora o argumento passou a ser de “Eu avisei! Agora não temos como ganhar”, de forma que a culpa passa a ser de quem não abandonou Haddad. Parece que para alguns a pura imaginação é mais forte que a conjuntura desastrosa do país. Ou então muitos acabaram se perdendo numa disputa de egos? 

  8. Arrogância distorce possibilidade futura

    Fernando: com base nas informações de que dispomos, agimos para obter determinado objetivo. Você considera um absurdo o fato de que muitas pessoas defendiam o voto em Ciro por ter maiores qualidades pra vencer o fascista e além disso é o que tinha a menor rejeição. Essa posição foi defendida por dois políticos que novamente sairam  vencedores de forma espetacular: Jaques Wagner e Flávio Dino. Parece que eles entendem um pouquinho de política, pois ambos derrotaram oligarquias dominantes em seus Estados (famílias Sarney e ACM). Haddad, por muito pouco, não foi eliminado no primeiro turno. Os fatos demostram quem estava certo.

    Neste exato momento em que novamente um grande número de pessoas defendem a formação de uma frente democrática ampla pra tentar impedir a vitória do fascismo, um dirigente do PT tenta obstruir. Valter Pomar disse que frente democrática é uma “abstração” e quem vai dar a vitória ao PT são os sindicatos e os movimentos sociais. Não estariam sendo superestimadas essas organizações ? Sozinhas elas dão conta ? Essa arrogância e prepotência de alguns dirigentes do PT pode nos levar a um futuro tenebroso. As indicações disso abundam. É a repetição do erro, sem possibilidade de correção.

    Porém, pra nossa sorte, acabei de saber que Jaques Wagner assumiu o comando da campanha.

     

    • Haddad, por muito pouco, não foi eliminado no primeiro turno

      Eu, muito pouco, isto é, por causa de único número, não acertei na mega-sena acumulada.

    • Invertendo o tempo de novo…

      Essa posição foi defendida por dois políticos que novamente sairam  vencedores de forma espetacular: Jaques Wagner e Flávio Dino.

      Só para colocar os tempos e os espaços na ordem correta, ambos estes competentíssimos e vitoriosos políticos votaram e fizeram campanha para Haddad.

      Ouve um tempo em que propor a candidatura de Ciro Gomes era razoável. Esse tempo passou. Se passou quando Wagner e Dino aceitaram a necessidade da candidatura Haddad, ou se passou só no domingo, podemos debater. De preferência, a partir de 29 de outubro. Mas agora é Haddad. Ciro Gomes não está mais na urna. Ou a gente vota no Haddad, ou a gente colabora com a eleição do Bolsonaro.

      ————————-

      Há outra inversão em curso. Quando a expressão “voto útil” foi criada, ela significava que deveríamos abrir mão de candidaturas minoritárias (como as do PT) em prol de candidaturas mais “amplas” (as do PMDB) para melhor derrotar a ditadura. O tempo disso também passou, quando a ditadura passou, e o PMDB passou a se aliar, circunstancialmente, com todo mundo, inclusive os órfãos da ditadura – PDS e depois PP.

      Agora a expressão é retomada de forma sui generis: o voto útil seria a candidatura maior (a do Haddad) abrir mão para uma candidatura muito menor (a do Ciro). É a tese de que o rabo deveria abanar o cachorro, e não o contrário.

      De novo, houve um tempo para se discutir isso. Esse tempo se encerrou. A prática demonstrou qual das duas candidaturas era maior. Ou nos unimos em torno dela, ou Bolsonaro ganha.

    • Futuro

      Pois é, você já está culpando o PT pelo futuro… acho que essa arrogância é a maior que existe.

      • Tá igual ao cara que tá culpando o PT pela morte do Mestre Moa

        Tem um sujeito que se diz de esquerda mas acho que é só para enganar os incautos e se dar bem. Eu falei a ele que um eleitor do Bolsonaro tinha assassinado um eleitor do Haddad e ele disse que a culpa é do PT, e não do assassino.

        Esse tipo de argumento abre o sinal verde para os profissionais da violência continuarem assassinando impunemente, já que os culpados são os outros, e não os assassinos.

  9. Oi,
    o texto é uma ode à

    Oi,

    o texto é uma ode à hermenêutica, como se não houvesse opção à ela ao rivalizar com a linearidade do tempo moderno…

    Fico com Gabriel Tarde e sua Antecipação dos Fatos Futuros… Tratou do passado no presente, distinção passado presente, delimitação passado presente, na eterna crença de sermos resultado da história. Crença boa, diga-se de passagem. Mas também somos igualmente, ou mais, resultado das antecipações pressentidas do futuro no presente.

    Daí, usar uma hegemonia teórica hermenêutica – refiro-me a Ricoeur, obviamente – para justificar uma transição aplicada aos votos no Ciro é de uma covardia literária – ou, talvez, o que duvido, inocência – absurda.

    Texto bonitinho, mas ordinário.

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