Partidos devem desenvolver roteiro programático consensual sobre combate à miséria, por Wanderley Guilherme dos Santos

Foto: Ricardo Stuckert/IL

Por Wanderley Guilherme dos Santos

Políticos Laico

No Segunda Opinião

Na rota entre BR-2002 e BR-2018 operou-se a transformação de um país em que todos ganhavam em outro no qual todos perdem. Em 2002, após três tentativas, Lula conseguiu persuadir o eleitorado de que os planos econômicos fracassariam enquanto não houvesse significativa promoção social dos pobres e muito pobres. A desigualdade extrema permitiu que a primeira das várias medidas com modesto gasto público, o programa bolsa-família, proporcionasse sensível aumento na renda familiar.  O impacto no consumo aliviou parte da capacidade ociosa da indústria voltada para consumo de massa sem massa para consumir. Criticar o modelo como consumista é o mesmo que se irritar com o guarda-chuva depois do temporal.  Ademais, o consumismo produziu tremores na estratificação social, origem do ódio de parcela da classe média a Lula, responsável pelo forçado convívio com a antiga laia de miseráveis.

A rede de proteção tecida durante os mandatos de Lula exigia reformulações institucionais, resistentes a espasmos de crise econômica e às iniciativas demolidoras de conservadores homicidas. Essa cautela não foi observada por Lula e nem por Dilma. Mas à chegada impetuosa da crise internacional, Lula, em memorável discurso de 2008, recomendou à população continuar comprando, consumindo. Foi um de seus grandes momentos, adiando os efeitos da catástrofe global. A Dilma caberia preparar o país para transição a uma democracia de massa, tecnologicamente atualizada. Nesse trecho deu-se o assalto ao mandato da presidente.

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Não participo do coral que atribui a Dilma Rousseff inteira responsabilidade pelo desastre econômico e político sucedido. À época, programas de aceleração do crescimento geravam plataformas para importante salto na economia. Entre outros erros de cálculo, porém, o recurso a desonerações fiscais supunha vigorosa contrapartida do empresariado, sem instrumentos que a conferissem e avaliassem. Como notório, o empresariado adorou o aumento na margem de lucros e só empresou, mesmo, o golpe parlamentar de 2016.

Depois do atual furacão reacionário, completou-se a inversão da prioridade de 2002. Hoje, é indispensável criterioso planejamento que permita o combate eficaz à miséria. Sem severa higiene institucional, o país verá consolidar-se um hiato intransponível em relação às economias tecnologicamente revolucionadas do século XXI. Aproveitar oportunidades nessa corrida impõe admitir-se que nenhum dos grandes partidos brasileiros, isoladamente, dispõe de conhecimento e material humano para tanto. Sem roteiro programático mais ou menos consensual entre os partidos, não haverá futuro promissor para o país, condenado à mediocridade e à indistinção no enorme bloco das nações colonizadas sem a necessidade de ocupação militar. Assunto para políticos laicos, sem pretensão à canonização em vida.

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10 comentários

  1. socialismo/capitalismo

    CAPITALISMO/ SOCIALISMO. O antagonismo criado na tentativa de forjar uma diferenciação cretina e indecente entre o tão famoso capital privado do capital social, desconsiderando-se que, é impossível haver uma sociedade que não seja capitalista e um capital que não seja socialista na relação do conviver humano, é a maior mazela que pode haver para a humanidade.   

  2. Um país sequestrado …

    E ainda insistem em discutir sobre este farsesco processo eleitoral ?

    GILMAR MANDA SOLTAR PAULO PRETO, OPERADOR DO PSDB

    O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes concedeu habeas corpus a Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, apontado pela Lava Jato como operador do PSDB; recursos recebidos por ele são ligados principalmente ao ex-governador José Serra; segundo autoridades suíças, ele mantinha o equivalente a R$ 113 milhões em contas fora do Brasil

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  3. Qual wanderley assinou o texto?

    O Wanderley Cardoso, ou o Guilherme dos Santos?

    WGS deseja recolocar o gênio na garrafa, ou a rolha na champanhe.

    Não dá.

    Não sem uma ruptura dramática com a inclinação a acordos e consensos costurados em gabinetes, acima e alheios a mobilização popular.

    Não se altera as condições de países perfiféricos sem um projeto de revolução, caro wgs.

    Até porque, o modelo de representatividade (que nunca funcionou bem por aqui, e nem nos países ricos, é verdade) está obsoleto e sua carcaça está abandonada.

    Os chacais como bolsopatas, trumpianos, macrons, moros e outros salivam a espera da putrefação.

    Ele (wgs) sabe (ou deveria saber) que o capital não deixa espaço para qualquer inclusão nas suas periferias geopolíticas, porque ali estão as reservas necessárias para manutenção de seus estamentos no centro do capital.

    Não faremos omelete sem quebrar ovos, wanderley…Até Wanderley Cardoso saberia disso.

    Nunca seremos um Canadá nem Nova Zelândia, meu filho. 

  4. A 5 meses da eleição

    o Prof. procura o que é unanimidade entre os partidos verdadeiramente de esquerda: ter em seu programa políticas públicas claras de combate à miséria.

    Talvez o prof. esteja se referindo à “nova frente de esquerda” do DEM-PP-PR em torno de Ciro.

  5. Sem Lula, eleição é referendo aprovatório ao fascismo de toga

    e de terno.

    Alguém tem de avisar ao professor que programas de governo só saem do papel com luta política. O golpe foi para impedir o programa de governo de Dilma ser aplicado. Lula está preso para impedir que o programa de governo dele volte a ser aplicado.

    A eleição sem Lula é para só permitir candidatos (com chance) que deem continuidade ao “ponte para o futuro”. Ou Ciro já se acertou e governará com o golpe com gosto, ou será governado pelo golpe a contragosto se for eleito sem Lula. Sem a base popular de Lula, Ciro não tem como nem ser uma “noviça rebelde”, nem se quisesse, pois seria derrubado de uma forma ou de outra, nem que tirassem da cartola um parlamentarismo para tirar o governo das mãos dele.

    O único jeito de usar as eleições como instrumento contra o golpe é tendo uma candidatura de massa Lula-13 (com ou sem Lula) que referende o lulismo nas urnas, impondo uma derrota ao golpe, à Globo, ao lavajatismo, ao Itaú, ao Trump.

  6. Seu eu fosse o Prof Wanderley

    Seu eu fosse o Prof Wanderley tentava mandar esse artigo para o Globo. Vai que eles publicam depois que o sociologo desancou o Lula e o PT após a prisão, para defender o Ciro. E viva o Jessé de Souza!

     

    • Antes de ironizar

      Recomendo a leitura do artigo do André Singer na Piauí deste mês. Depois de lê-lo, você vai ficar com vergonha de não ter entendido o que o professor Wanderley escreveu.

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