Política ou barbárie: contar ou quebrar cabeças, por Fernando Limongi

‘Um candidato que prefere quebrar cabeças a contá-las, esteve próximo da vitória em primeiro turno’
 
Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil
 
Jornal GGN – O respeito a contagem de votos não é algo simples e que deva ser desprezado, o sistema de corrida eleitoral existe para substituir o recurso à violência para a imposição de propostas políticas defendidas por distintos grupos na sociedade. Nesse contexto, o cientista político e colunista do jornal Valor, Fernando Limongi, avalia que o resultado eleitoral de domingo é motivo de grande preocupação.
 
“Um candidato que faz apologia aberta à violência, que prefere quebrar cabeças a contá-las, esteve próximo da vitória em primeiro turno”. Limongi faz referência a célebre frase que James Fitzjames Stephen escreveu em 1873 para John Stuart Mill, onde dizia:
 
“Nós concordamos em medir forças contando cabeças em lugar de quebrá-las, mas o princípio é exatamente o mesmo. Não é o lado mais sábio que ganha, mas aquele que, na ocasião, mostrou ter força superior (na qual a sabedoria, sem dúvida, é um elemento) alistando maior número em seu apoio. A minoria não cede por ser convencida de que está errada, mas porque é convencida que é uma minoria.”
 
A passagem nos lembra do frágil equilíbrio que sustenta a democracia. “Mas é esse respeito aos resultados da mera contagem de votos que distingue os povos civilizados dos bárbaros. Após as eleições, o conflito não desaparece, e o mecanismo eleitoral sobrevive apenas se perdedores e vencedores dispensarem o recurso à violência e à supressão de seus adversários”, pontua Limongi.
 
Mas, no caso de Bolsonaro, seu discurso apoiado por um núcleo duro de eleitores, representa grande perigo à democracia, vencendo ou não as eleições. Limongi lembra, por exemplo, que o candidato disse em recente entrevista para “um repórter empenhado em lhe dar oportunidade para se mostrar dócil e humano”, respondeu Bolsonaro:
 
“Eu prefiro a cadeia cheia de vagabundos do que o cemitério cheio de inocentes”. O cientista político traduz a fala do político:
 
“Trocando em miúdos, o candidato anunciou que pretende suspender os códigos civil e penal. Na lógica bipolar do capitão da artilharia, vagabundos são inimigos que, se ainda não delinquiram, é por ter lhes faltado oportunidade para tanto, o que justificaria a prisão preventiva deles”.
 
Outra questão preocupante para o sistema democrático brasileiro é que o discurso usado por Bolsonaro passa a ser replicado por outros políticos, num efeito castaca onde se admite a defesa do uso da violência no lugar das leis. João Doria, candidato ao governo do Estado de São Paulo disse, também recentemente, em entrevista a uma rádio:
 
“Não façam enfrentamento com a Polícia Militar nem com a Civil. Porque, a partir de 1º de janeiro, ou se rendem ou vão para o chão (…) Se fizer o enfrentamento com a polícia e atirar, a polícia atira. E atira para matar”.
 
Limongi observa que frases que tiram a justificativa do uso das leis e fazem apologia ao uso de força estão sendo recebidas com naturalidade “sem causar repúdio ou espanto”:
 
“Provavelmente, muitos dos eleitores desses candidatos também acreditam que estão metidos em uma guerra civil não declarada e que, para vencê-la, seria preciso recorrer a poderes excepcionais, fechar os olhos para detalhes e legalismos bobos. Muitos só conseguem ver-se entre os inocentes ameaçados e nem sequer sonham que, algum dia, possam ser incluídos entre os vagabundos que o capitão quer perseguir. Essa garantia, contudo, ensina o mais básico liberalismo, só pode ser obtida com o respeito à lei”.
 
Ao mesmo tempo, o cientista político avalia que Bolsonaro cresceu, ao ponto de quase vencer em primeiro turno, justamente por deixar de expor “suas ideias radicais e insanas”. Quando seu vice e guro acabaram falando mais do que deveriam, colocando em risco a campanha foram convidados a ficarem quietos pelo candidato do PSL com essas palavras: “Faz um favor, junta essa galera aí num canto, todo mundo sai na porrada e fica quieto. Fica quieto todo mundo até as eleições”.
 
A estratégia deu certo. Mas, lembra o cientista-político, houve aqueles que, com medo do avanço de Fernando Haddad abriram a boca:
 
“Haddad. Quem mora com Moro, a sra. Wolff, recorreu ao Instagram para voltar a pôr a boca no trombone, postando que todo voto “tem seu valor, exceto votar em bandido”. Wolff substituiu o “#EleNão” pelo “#Não pode ter sido em vão”. Entenda-se: aceita-se o voto em um apologista da tortura, alguém que acha que a morte de Herzog foi um acidente de trabalho, mas é inadmissível votar, mesmo que indiretamente, em quem meu marido prende”.
 
Porém, por do que fez a Sra Wolff, fez seu marido ao liberar a delação de Palocci há uma semana do dia de votação do primeiro turno. 
 
“Moro despiu a toga e partiu para a guerrilha, mandando às favas a compostura”. Seguiram assim, os ministros do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e Luiz Fux.
 
“Gilmar Mendes encontrou rival à altura. Como no episódio da liberação das gravações das conversas entre Dilma e Lula, o julgador deixou claro que pauta suas ações por código de ética próprio, que o colocaria acima das leis. A causa pede sacrifícios. O ministro Fux foi outro que achou que era tempo de apelar e justificou a censura preventiva, alegando que uma entrevista com Lula poderia gerar “desinformação na véspera do sufrágio.””
 
Apesar dos esforços dos magistrados, elas não eram necessários, reflete Limongi. Haddad não conseguiu ampliar mais a adesão do eleitorado, recebendo neste primeiro turno um pouco mais dos votos dos eleitores fiéis do PT. “A estratégia imposta por Lula salvou o partido da derrocada, mas contribuiu para alimentar a reação que quase deu a vitória a Bolsonaro no primeiro turno”, completando:
 
“Como afirmou Fitzjames Stephen, a sabedoria conta para conquistar o voto da maioria. Bolsonaro e Haddad passaram ao segundo turno, mas são os candidatos mais rejeitados pelos eleitores. Algo como 50% dos eleitores afirmam que não votariam em um dos dois em hipótese alguma. Queiram ou não, terão que fazê-lo. São estas as opções que restam. Vai vencer quem for capaz de convencê-los de que representa o mal menor. Esperamos que o façam usando as cabeça em vez de quebrá-las”. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.
 
 

1 comentário

  1. Arf!

    Nossa que bolôlô doido, hein? Ôblesqbom!

     

    Quanta ingenuidade em dividir a vida social e a política em “bárbaros” e “civilizados”, como se esse processo de classificação, per si, não traga elementos de violência simbólica, onde tais análises acabam por corroborar práticas naturalizadas de violência por imaginar que a violência política tenha apenas uma face (a mais dramática ou sangrenta)!

    Com isso, chama-se de práticas “civilizadas” aquilo que tem por objeto excluir e alijar desde sua gênese, ou seja, a geração de desigualdade!

    Como se a política que se diga “civilizada” não seja, no caso dos processos políticos imanentes ao capitalismo, eles mesmos formas sutis de violência para “convencer” o anti-estamento de que ele deve se comportar por “ser minoria” (e não por estar errado, como o texto disse).

    Uma tese chula de quantificação da política em “minorias” e “maiorias”.

    O golpe de 2016 nos revelou quando “civilizada” pode ser a violência política!

    Olha só, eles nem torturaram o Lula (ainda)!

    Façamos do limongi uma limonada!

    Meus zeus, o discurso policialesco-racista-facista-classista do bolsopata não está sendo aceito com naturalidade, ele já está naturalizado desde 1808:

    A Intendência Geral de Polícia foi criada para “caçar pretos vadios nas ruas”!

    O discurso do bolsopara está só emoldurando práticas seculares!

    Temos antes dele (o coiso) a 4ª maior população carcerária do planeta, embora sejamos nem de longe um dos países mais populosos.

    Matamos desde há muito tempo 50 a 60 mil pessoas por ano com emprego de arma de fogo!!!!!!

    Putz…

    É a incompreensão clara de que o sistema oscila entre práticas mais ou menos violentas, trazendo interações imbólicas e orgânicas, que permite a transformação do ethos social violento, que por sua vez já existe e está entranhado de cima a baixo em nossa estrutura social em plataforma de governo!

    Esse “cientista” perdeu uma grande chance de fechar o bebedor de lavagem!

    Não há civilidade possível para dar conta de processos políticos dentro do sistema capitalista, porque esse sistema é feito e montado para excluir qualquer forma de representação que o ameace!

    O maior ou menor nível de violência tem a ver com a demanda de seus controladores (medo da superação do capitalismo, ou a necessidade de gerar novos ciclos de expansão), e não como uma resposta (apenas) da população a instintos “violentos ou civilizados”.

    Quanta asneira dita com rótulo de ciência!

    Tá difícil!!!! Cada vez mais difícil!!!!

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