Sistema penitenciário é igual coração de mãe, sempre cabe mais um, diz Bolsonaro

Em evento para empresários e simpatizantes, candidato mantém estratégia do uso de frases de feito e sem conhecimento técnico 
 
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Foto: Agência Brasil
 
Jornal GGN – O deputado federal e candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) marcou mais um dia da sua campanha eleitoral com frases carregadas de ironia e aversão aos direitos sociais. Durante uma coletiva de imprensa, realizada logo após um almoço com empresários e simpatizantes, promovido pela Revista Voto, no Sheraton Hotel, em Porto Alegre, foi perguntado sobre propostas para resolver a superlotação do sistema prisional. A resposta do candidato não passou perto de nenhum pensamento técnico estruturado. Pelo contrário, mais uma vez foi eivada com preconceito e visão justiceira. 
 
“Se o Brasil não tiver recursos para fazer novas penitenciárias, no que depender de mim, vamos encher aquele negócio lá, igual coração de mãe, cabe mais um, vai, sem problema, ok? Não sei o que esses caras pensam, uma parte deles, quando sai, volta a cometer crimes. Parece que gostaram da convivência.”

 
Dados oficiais, de 2017, apontam que existem 240 mil pessoas além do que o sistema é capaz de suportar. Fora o problema de capacidade, um relatório produzido pelo Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias) daquele mesmo ano revelou que quatro em cada dez presos no Brasil estavam detidos sem condenação do judiciário. Aliás, a prisão temporária é um dos principais problemas da superlotação carcerária, avaliou em outro relatório o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), e explica a crise de segurança pública registrada no início de 2017, no Pará. 
 
Em pesquisa mais recente do Datafolha, Bolsonaro aparece em segundo lugar na corrida eleitoral, em termos nacionais, com 19% das intenções de voto, atrás de Lula, com 39%. No Rio Grande do Sul, o candidato do PSL leva 20% das intenções, novamente atrás de Lula, com 32%. 
 
O risco de Bolsonaro subir a rampa do Palácio do Planalto é real e poderá se reverter em um grande retrocesso à fraca democracia brasileira. Segundo o jornal gaúcho, Correio do Povo, antes da coletiva no Sheraton Hotel, Bolsonaro palestrou por quase uma hora fazendo a plateia ir aos aplausos em vários momentos. Em alguns deles quando disse:
 
“O objetivo da educação, na ponta da linha, é formar um bom empregado, um bom patrão, um bom liberal. Hoje estamos formando o quê? Militantes políticos”; “Vamos fundir (os ministérios) da Agricultura e Meio Ambiente porque eu não quero mais ONGs internacionais dentro do ministério”; e “Educação eu já disse. Temos que entrar lá no MEC com lança-chamas e expulsar o Paulo Freire.”
 
Não faltaram também falas em favor do uso de armas de fogo, especialmente para a polícia: “Se o lado que está fora da lei tem um potencial de fogo, nós temos que ter, no mínimo, o dobro do potencial de fogo do lado de cá”; “Não é dar carta branca para o policial matar. É dar carta branca para ele não morrer.”
 
Em recente entrevista para O Estado de S.Paulo, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o jordaniano Zeid Al Hussein, disse que o discurso adotado pelo candidato da extrema-direita é “um perigo”, em primeiro momento, para uma parte da população e, a longo prazo, “a todo o país”. 
 
O posicionamento de Al Hussein não é único entre analistas e especialistas em democracia, dentro e fora do país. Ainda assim, as chamadas “frases de efeito” de Jair Bolsonaro não perderam força, mantendo cativo seu eleitorado. O que explica esse tipo de manifestação política no Brasil? 
 
Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Esther Solano, que têm realizado pesquisas de campo sobre o crescimento de políticos de direita, o efeito Bolsonaro é semelhante aos fenômenos Trump (Estados Unidos) e Brexit (Reino Unido) explicado por uma grande preocupação de setores sociais com a “desordem” política decorrente do aumento de participação de movimentos negro, feminista e LGBT, ligando essa mudança ao aumento da violência e insegurança econômica.
 
“A pessoa não consegue enxergar esse mundo novo, não sabe muito bem o que fazer, e quer a volta de uma ordem existencial na qual ela se sentia muito mais à vontade”, declarou durante um evento para apresentar os resultados da sua pesquisa, chamada Crise da democracia e extremismo de direita, no mês passado, em São Paulo.
 
 

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4 comentários

  1. Então engula Bolsonaro !

    O porteiro de meu prédio me disse que vai votar no Bolsonaro.

    Perguntei se ele aceitaria trocar a carteira de trabalho Azul pela Verde-amarelo de Bolsonaro. Se ele aceitaria perder direitos trabalhistas pra continuar como porteiro.

    Ele deu uma risadinha sem graça e disse  “não sei…”

    É preciso aplicar Bolsonaro nos eleitores de Bolsonaro.

     

  2. “Em evento para empresários e

    “Em evento para empresários e simpatizantes, candidato mantém estratégia do uso de frases de efeito e sem conhecimento técnico”

     

    Se funcionou para o Trump…

    • Indigência do jornalismo, da ciência social e política

      O duro é ver este GGN reproduzir falas de Jair Bolsonaro e, na mesma matéria, reproduzir “espanto” de acadêmicos com o crescimento da direita nazifascista no Brasil. Será que esses estudiosos e acadêmicos não acompanham o que ocorrre no Brasil, desde que um golpe de Estado urdido e controlado pelo Deeep State estadunidense e pela finança internacioanal foi aplicado aqui, operado localmente por agentes do sistema judiciário brasileiro (poícias, MP e PJ), além de amplos setores das FFAA e do PIG/PPV?

      Basta observar o que fazem os juízes brasileiros, desde os de piso aos do STF, para entender por que o nazifascismo, que hoje tem Jair Bolsonaro como o mais visível representante, possui tantos adeptos. A notícia de hoje, reproduzida abaixo, é suficiente para compreender as principais razões pelas quais o Brasil está no rumo da barbárie.

       

      STF aprova terceirização irrestrita

      O Supremo Tribunal Federal (STF) considerou constitucional, por 7 votos a 4, a terceirização de atividades-fim das empresas, liberando a adoção dessa medida pelas companhias

  3. Caber cabe, mas…

    Caber mais um, cabe, é só apertar mais. O problema é que, em presídios superlotados com poucos guardas penitenciários, é inevitável que os presos acabem assumindo o controle de fato do presídio.

    A solução para a criminalidade no Brasil passa pela revisão da legislação penal, com o aumento das penas e consequente aumento da população carcerária. É óbvio que será preciso construir mais presídios. Mas construir cadeia não dá voto e custa dinheiro, frase de efeito empolga e sai de graça. O  problema é que não funciona.

    Com o endurecimento da legislação penal, a prisão será como uma esponja que irá absorver pouco a pouco a bandidagem que inunda as ruas. O processo é gradual: primeiro a revisão das leis, depois a construção de novos presídios para absorver a população carcerária que terá um grande incremento, nem tanto por conta dos novos presos chegando (pois isso depende da polícia) mas por conta dos presos antigos que não serão soltos tão rapidamente. Os frutos não serão colhidos por quem os plantou. Por este motivo ninguém quer plantar.

     

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