Sobre Bolsonaro no JN, por Luiz Augusto Campos

Sobre Bolsonaro no JN

por Luiz Augusto Campos

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Bons jornalistas sabem que pessoas polêmicas e contraditórias tendem naturalmente à incoerência quando as deixamos falar livremente. Mas a sanha por encurralar um candidato como Jair Bolsonaro em seus próprios absurdos tem feito com que nossos entrevistadores esqueçam tal princípio. Nessa linha, William Bonner e Renata Vasconcellos acabaram oferecendo a Bolsonaro mais um palco para seus discursos prontos. Como muitos jornalistas, eles ainda não perceberam que o candidato atrai votos porque é a realização paradoxal de tudo aquilo que a imprensa tradicional mais despreza, mas também a encarnação do pensamento que ela inoculou em parte da população. De um lado, trata-se de uma pessoa xucra, orgulhosa de sua ignorância e sem a politesse vazia que a classe média tanto admira. Do outro lado, porém, Bolsonaro coloca-se como um sem-noção anti-establishment, quase nunca citado nos grandes escândalos midiáticos e cuja virilidade seria fundamental para demolir “tudo que aí está”.

Portanto, o desprezo da grande mídia por ele não nos deve cegar para a contribuição que ela própria deu para seu atual sucesso. No conjunto, o noticiário hegemônico bombardeia os telespectadores diariamente com matérias que insistem na ideia de que vivemos uma anárquica guerra urbana, produzida pelo tráfico de drogas e autorizada por um Estado paralisado por uma corrupção endêmica e atávica. Ora, segundo tal imaginário seria inocente esperar alguma mudança via política institucional e democrática pois ela própria já está contaminada. Logo, nada mais adequado que eleger um truculento capitão do exército, ausente nos célebres esquemas de corrupção denunciados pela imprensa. Ao termo, Bolsonaro é o ovo que a serpente midiática botou e que agora, sem intencionar, está chocando toda vez que tenta acuá-lo.

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Adianta pouco a essa altura desencavar improbidades do candidato, sejam elas o aumento do seu patrimônio familiar ou seu luxuoso apartamento funcional. Isso tudo sempre parecerá pequeno perto de escândalos como do Mensalão e, sobretudo, da Lava-Jato. Apontar seu despreparo intelectual também é uma estratégia limitada, pois sua recorrente admissão de ignorância é muitas vezes vista como sinônimo de sinceridade. O mesmo vale para sua notória inabilidade em propor ou fazer aprovar projetos de leis nas décadas em que foi parlamentar: afinal, nada mais compatível com um deputado supostamente antissistema.

Os operadores da imprensa tradicional são incapazes de ver isso porque acreditam piamente no mito segundo o qual bons políticos são aqueles que compatibilizam competência e ética, pouco importando seus projetos ou valores ideológicos. Mas é justamente nesses últimos quesitos que Bolsonaro patina. Uma parte da população quer sim comprar armas na loja de conveniência para poder se defender, mas ainda não foi avisada que a liberação irrestrita do porte daria o mesmo direito aos black blocs, ao MST, e à petralhada comunista do Foro de São Paulo. Uma parte da população acha que o Estado tem que diminuir porque não é atendida a contento em nenhuma repartição pública, mas ainda não foi avisada que um dos “Postos Ipiranga” de Bolsonaro quer reduzir sua aposentadoria.

Em vez de gastar a retórica desafiando Bolsonaro a admitir as barbaridades que defende – afinal, são elas que lhe rendem apoio –, talvez seja o momento de deixá-lo falar sobre seus projetos e valores políticos, livremente.

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3 comentários

  1. Se alguém quer vencer o Bolsobosta, não pode entrar no chiqueiro

    É impossível vencer o Bolsonaro lutando com ele dentro do seu Spa: o chiqueiro.

    Não adianta lançar pérolas ao Bolsonaro.

  2. O problema é nao ter nenhum
    O problema é nao ter nenhum contra exemplo pelo lado esquerdo. Afinal, a esquerda adooora uma autocrítica; confrontar a direita, jamais. Fazem pose de acadêmicos esperando, sabe-se lá, serem “reconhecidos” como rivais respeitaveis… “Cavalheiros”, por assim dizer.

    Até mesmo a esquerda nanica – e principalmente ela, que teria o papel de ser “radical”, no sentido de ir na raiz – parece nao perceber isso: quem viu logo a primeira cena do primeiro debate, o da Bandeirantes, teve chance de notar. O Guilerme Boulos interrogou o Boçalnaro sobre a tal Val, e ouviu de pronto que nao merecia resposta por ser um “desqualificado”…

    É assim que a direita sempre tratou a esquerda, e nao é so o Boçalnaro, nao. Ou seja, esse pessoal tem de ser combatido, desmoralizado, desqualificado…nada de debate “acadêmico” com estupidos.

    Punhos de renda com essa gente (incluindo tucanos, rede globo, etc) é receita para perder feio. E, que nao se iludam: depois da derrota o sarrafo vai baixar mais pesado ainda!

    Muita gente nao percebeu ainda com quem está lidando.

  3. Ainda existe um eleitorado que pode trocar Bozo por outro

    Acho que os adversários de direita do Bozo estão certos em insistir em saturar o eleitor do Bozo com a agenda de imbecilidades. Note que quanto mais ele se prende à sua agenda homofobia, kit gay, misogenia, racismo, bala, porrete e porrada, família, apelar para Deus em vão, menos ele se parece diante do eleitor médio como um líder capaz de resolver os problemas econômicos que fazem o eleitor sofrer (o maior fator de decisão do voto). Em 2014, Pastor Everaldo começou com algo em torno de 3 a 5% nas pesquisas e comeu poeira de Luciana Genro nas urnas, com seu discurso fraco para um presidente. Marina também despencou por falta de confiança do eleitor em sua capacidade de liderar uma nação com os problemas que o Brasil tem.

    Não tenho dados estatísticos, mas creio que o eleitor de Bozo se divide basicamente em 4 perfis:

    1o grupo) Extrema-direita tipo neonazista. Chama o PSDB e a Globo de “comunista”. Faz da campanha do Bozo sua própria “parada do orgulho homofóbico”. É misógeno. Quer ditadura (para os outros). Tem ódio de PT, PCdoB, Psol. Tem ódio de pobre. É privilegiado dentro da pirâmide social, mas é analfabeto político.

    2o. grupo) Extrema-direita pragmática: se não tem um FHC na prateleira de candidatos, vai de Bozo mesmo com Paulo Guedes governando e Bozo chamando o Mourão para “articular com a ameaça de golpe” com o Congresso para passar as medidas neoliberais de Guedes. São os ruralistas, empresários reacionários, banqueiros, rentistas, todos apátridas, médicos conservadores e parte conservadora da elite do funcionalismo, sobretudo do judiciário e das polícias. Nesse grupo tem até gays que votam em Bozo, porque detestam o Brasil, a não ser para ganhar dinheiro saqueando o povo. Para os bilionários o negócio é eleger Guedes, para os menos ricos o negócio é Bozo colocar um camburão ou tanque de guerra na porta de cada condomínio rico para fazer a segurança, e bombardear as favelas. Se pudessem morariam em Miami (alguns já moram, exceto os bilionários que preferem a Suíça, Paris ou Londres). Numericamente é o menor número de eleitores, pois é o topo da pirâmide social. Esse grupo deve crescer se Bozo se mantiver na frente como único candidato de direita viável.

    3o. grupo) Corporativismo policial-militar: é a base eleitoral inicial do Bozo que deu a ele visibilidade e alimentou as redes sociais no início. É um grupo que se organizou em torno de temas como a PEC-300 (salário nacional de policiais igual aos do DF) e que elege as bancadas da bala no Congresso há alguns anos. É o equivalente de direita aos sindicalismo de esquerda.

    4o. grupo) O eleitor revoltado (de classe média ou pobre) que ligou a tecla “foda-se”: é o cara que caiu na ideologia da anti-política. Não acredita em mais nenhum discurso, nem do Bozo, mas vota nele para esculhambar de vez, como se votasse nulo, para punir os demais políticos. Não é o voto na esperança, é na raiva. Detalhe: paradoxalmente parte desse eleitorado pode votar no Bozo no 1o. turno, e depois de desalopiar o fígado com esse voto, votar pragmaticamente “com a mão no bolso” no adversário do Bozo no segundo turno.

    Sem dispor de estatísticas, suspeito que que os 3 primeiros gurpos dão cerca de metade dos votos que Bozo tem nas pesquisas, e só a minoria pragmática desse grupo mudaria o voto se outro candidato de direita subisse e Bozo caísse. 

    Suspeito que a outra metade do eleitorado do Bozo é do 4o. grupo. Esse 4o grupo é mais volúvel a mudar de voto, porque ele vota no Bozo por esculhambação da política. É nele que Alckmin investe em seu marketing. E até Haddad ou Boulos como “fato novo” pode ganhar algum ponto ainda no primeiro turno, caso esse eleitor abra a guarda para dialogar com a realidade (coisa que acho difícil mas não impossível).

    Se meu palpite estiver certo, Bozo teria cerca de 10 a 12% consolidado e outros 10 a 12% que parecem ser dele mas ainda podem mudar de voto, se tiver um fato suficientemente forte para fazer esse eleitor se religar à realidade e desligar a tecla “foda-se”.

    O endosso do mercado a Alckmin desconstruir o Bozo, e mesmo a investida de Meirelles e Amoedo em “dividir” a direita, para mim indica quase certeza do mercado na derrota do Bozo no segundo turno. Estão jogando todas as fichas para ver se algum outro se viabiliza para tentar vencer Haddad no segundo turno.

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