Uma extrema direita forte nunca é algo positivo, por João Paulo Charleaux

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

por João Paulo Charleaux

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Em algumas redações, há um debate latente a respeito de como cobrir a candidatura Bolsonaro e o que ele representa para a democracia. Resumindo em uma frase: há uma relutância em algumas redações sobre classificá-lo ou não como um político populista de extrema direita.

Eu pergunto a quem estuda o assunto com base na ciência. Neste caso, na ciência política. Em seguida, informo ao leitor o que esses estudiosos dizem, quais são as suas conclusões. Classificar Bolsonaro como político de extrema direita populista não é, portanto, uma questão de opinião ou de gosto pessoal, mas de ouvir as fontes que trabalham com o assunto. Haverá outras, que pensam diferente? Que venham. O debate é necessário. E precisamos saber.

Na semana passada, entrevistei cientistas sociais do Centro Berkeley de Estudos da Direita, na Universidade da Califórnia. Também conversei com autores de livros sobre o assunto, na área da ciência política – italianos, chilenos, brasileiros. Eles se referem a Bolsonaro como um político da extrema direita populista. Um se referiu a ele como fascista. Outro, como simplesmente autoritário. O mesmo acontece nos principais jornais do mundo: New York Times, CNN, Le Monde e até a Fox News.

Ontem, logo após a apuração dos votos, conversei com Maria Herminia Tavares de Almeida, professora titular de Ciência Política da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

Ela classifica Bolsonaro como “extrema direita”. E vai além: “Ter uma extrema direita forte não é positivo em nenhuma circunstância. Não tem nada de positivo nisso. Uma coisa é uma sociedade plural, diversa. Porém, quando essa divisão se dá em torno de uma opção que envolve a extrema direita, me parece muito negativo.” Publicamos hoje no Nexo.

PS: Aos que se perguntam o que há de ciência na ciência política, informo que eu também me faço essa pergunta. Aliás, publiquei um texto exatamente sobre isso, em agosto de 2016, perguntando a cientistas políticos “o que há de ciência na ciência política?” A resposta, clique (aqui).

do Nexo 

‘Uma extrema direita forte nunca é algo positivo’

por João Paulo Charleaux

Marina Hermínia Tavares de Almeida, professora da USP e do Cebrap, fala ao ‘Nexo’ sobre as ‘questões democráticas’ envolvidas na eleição e critica a centro-esquerda por ser ‘incapaz de lidar’ com o temas como segurança e corrupção

A passagem do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) para o segundo turno das eleições presidenciais de 2018, com 46% dos votos válidos, representa um risco real para a democracia, disse ao Nexo, por telefone, logo após o fim da apuração, neste domingo (7), Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular de Ciência Política da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

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“Ter uma extrema direita forte não é positivo em nenhuma circunstância. Não tem nada de positivo nisso”, afirmou a pesquisadora. “Uma coisa é uma sociedade plural, diversa. Porém, quando essa divisão se dá em torno de uma opção que envolve a extrema direita, me parece muito negativo.”

Maria Hermínia considera “raro ver candidatos tão pouco comprometidos com as regras democráticas, com os valores democráticos, terem uma votação tão expressiva quanto essa que o candidato Jair Bolsonaro teve”.

Para ela, o campo democrático terá missão “difícil” se quiser fazer valer seus valores no Brasil daqui em diante.

O que o resultado do primeiro turno revela sobre o Brasil?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA Revela que uma parcela importante do eleitorado fez uma opção por um candidato de extrema direita, e isso não é um coisa comum em nenhum lugar no mundo, em nenhuma democracia do mundo. Em geral, a extrema direita até tem certa força nas democracias consolidadas. Porém, ultimamente, é raro ver candidatos tão pouco comprometidos com as regras democráticas, com os valores democráticos, terem uma votação tão expressiva quanto essa que o candidato Jair Bolsonaro teve.

É uma candidatura que junta coisas muito diferentes, junta um contingente da população que está desanimada, que está desacreditada da política, e para a qual a natureza do regime não tem muita importância. Junta pessoas que estão legitimamente assustadas com a questão da segurança, junta pessoas que ficaram indignadas com a revelação dos casos de corrupção atingindo o PT, seus aliados e o PSDB também. Junta tudo isso, enfim, num caldo de antipetismo. Não dá para entender o crescimento de Bolsonaro sem entender a rejeição ao Partidos dos Trabalhadores.

Estamos numa situação difícil agora. Temos um segundo turno imprevisível porque depende muito de como os candidatos vão se mover, buscando alianças. Haddad parte de uma posição desconfortável. Ele terá de lutar mais, abrir mais o leque, para poder fazer uma coalizão que se oponha ao avanço do Bolsonaro.

Houve nessa campanha o aparecimento recorrente de palavras como populismo, extrema direita e até fascismo. A que se deve isso? E que consequências traz?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA O candidato Bolsonaro já declarou publicamente que é a favor da tortura. Ele já elogiou a ditadura militar, já disse que seu herói é um torturador. Então, é inevitável que esses termos apareçam. Ele fez declarações públicas a esse respeito, ainda que depois diga que estava exagerando, que não estava falando sério. Ele, na verdade, tem uma história de muito pouco compromisso com a democracia. Isso é um fato.

Essa divisão da sociedade pode ser positiva de alguma maneira? Pode ser um conflito dialético, que produza uma democracia melhor, mais fortalecida?

ARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA Ter uma extrema direita forte não é positivo em nenhuma circunstância. Não tem nada de positivo nisso. Uma coisa é uma sociedade plural, diversa. Porém, quando essa divisão se dá em torno de uma opção que envolve a extrema direita, me parece muito negativo. Eu nunca vi isso acontecer no país desse jeito. Talvez na véspera [do golpe] de 1964 ou no final da crise do [presidente Getúlio] Vargas [que se matou em 1954], mas foram momentos de crise. Isso, da forma como estamos vivendo agora, é novidade.

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Como essas forças vão se alinhar no segundo turno?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA Aprendi na minha vida profissional a não fazer previsão. A gente vê o discurso do Haddad, com ele acenando para as forças que competiram com ele, que estão mais ao centro. Eu imagino que esse seja o gesto que ele vai fazer. Mas imaginar qual será o resultado disso, dizer que parcela do eleitorado vai acompanhar suas lideranças caso elas componham alguma frente, essas são coisas que a gente não sabe.

Haddad foi claro em duas coisas: é uma frente pela democracia e é uma frente em defesa do pacto da Constituição de 1988.

Isso impõe uma questão interessante para o PSDB agora, não?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA O PSDB sai muito enfraquecido e, talvez, dividido também. A parte do PSDB que está ganhando a eleição é muito conservadora. Provavelmente, é um setor que fará aliança com Bolsonaro [minutos depois da entrevista, o ex-prefeito de São Paulo e candidato ao governo do Estado, João Doria, de fato declarou apoio a Bolsonaro]. Ele já havia declarado que faria oposição cerrada ao PT.

Imagino que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha outra posição. Ele tem prestígio e liderança moral no PSDB, mas ele não tem o comando do partido. O candidato [Antonio] Anastasia [que teve 29% dos votos e passou ao segundo turno contra Romeu Zema, do Novo, com 42%, em Minas Gerais] também está numa posição bem difícil.

O PSDB, enfim, saiu bastante enfraquecido destas eleições. Na verdade, eu diria que o PSDB é o grande perdedor do impeachment [da presidente Dilma Rousseff]. Nessa crise que levou à radicalização, o PSDB saiu perdendo.

É impossível prever se o PSDB vai para o lado do Bolsonaro ou do Haddad?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA As pesquisas mostram que uma parte do eleitorado vai para o Bolsonaro. Se tem 60% dos eleitores do partido indo numa determinada direção, eu [enquanto partido], na melhor das hipóteses, fico neutro.

Muito se falou, durante a eleição, que essa era uma campanha antissistêmica, antipolítica. Como a política sai dessa disputa?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA Isso não descreve bem o que está acontecendo. O que há é uma reação de parte do eleitorado ao establishment, mas as pessoas foram votar. Então, de fato, elas participaram. Houve uma abstenção de 20%, que não é muito discrepante em relação aos anos anteriores. A antipolítica não faz você votar. Não teria sentido.

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O candidato da extrema direita tem uma mensagem contra o sistema estabelecido, contra os partidos, e, com isso, teve uma votação expressiva. A gente não sabe o que move a cabeça do eleitor dele. Então, você não consegue saber com precisão o que é rejeição à política, o que é simpatia simplesmente às coisas que ele propõe. Provavelmente, tem uma parcela do eleitorado que está de acordo com o que ele diz. E há o antipetismo, que é uma atitude de evitar o candidato do lado oposto. Mas não tem pesquisa sobre isso. Qualquer coisa é chute.

Que peso teve o submundo de notícias falsas nas redes?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA O candidato com a maior votação [Bolsonaro] não tinha horário eleitoral, não tinha estrutura partidária nacional, e se apoiou claramente nas redes sociais, no WhatsApp, no Facebook. Isso é uma novidade na história das eleições brasileiras. Não dá para dizer que tudo foi definido com base nisso porque, obviamente, o horário eleitoral beneficiou o Haddad, que ninguém conhecia fora de São Paulo e que acabou tendo uma votação expressiva no país inteiro graças ao horário eleitoral.

No caso do Bolsonaro, ele tinha apenas alguns segundos na televisão e recorreu às redes sociais. Aí, nesse caso, você tem um fenômeno preciso e importante. Os colegas que começaram a estudar isso dizem que não é algo criado agora, para a eleição. Essa rede que apoia o Bolsonaro, esses grupos de redes sociais, foram se consolidando ao longo destes anos, desde pelo menos a campanha pelo impeachment de Dilma. Essa eu considero uma novidade importante.

A sra. considera que houve temas importantes negligenciados nessa campanha?

MARIA HERMÍNIA TAVARES DE ALMEIDA As forças democráticas, de centro-esquerda, não foram capazes de lidar com dois temas que foram importantes nesta eleição. O primeiro tema é o da corrupção, que ficou como um tema da extrema direita. Isso é grave. Não tem razão para as forças democráticas abrirem mão dessa bandeira.

A outra é a questão da segurança. As forças democráticas, sobretudo as de centro-esquerda, têm imensa dificuldade de lidar. O Bolsonaro dá uma resposta ruim, tosca, bruta na direção de um sentimento legítimo da população que teme por sua segurança individual. Esses temas foram capturados pela candidatura de extrema direita. Não tem por que ser assim.

 

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2 comentários

  1. Inacreditável
    Se o PcdoBrasil um dia ganhar as eleições nacionais, como já ganhou no nordeste, é antidemocrático? Qualquer partido compostos por brasileiros, e sem subserviência a congêneres estrangeiros pode governar o país. Democracia é ganhar e perder no voto. O impeachment de Dilma desrespeitou a vontade de milhões de eleitores. Mas se o Bolsonaro foi legitimamente eleito, o que esse artigo argumenta está fora da ordem democrática.

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