Home Destaque Secundário Uma luta pela popularização da Economia (2): Revisitando Keynes, por Nathan Caixeta

Uma luta pela popularização da Economia (2): Revisitando Keynes, por Nathan Caixeta

Uma luta pela popularização da Economia (2): Revisitando Keynes, por Nathan Caixeta

Uma luta pela popularização da Economia (2): Revisitando Keynes

por Nathan Caixeta

Em 19 de Fevereiro de 2021, o Jornal GGN agraciou-me ao ceder seu espaço para a divulgação de um artigo intitulado “Uma Luta pela Popularização da Economia” (Link:https://jornalggn.com.br/entenda/uma-luta-pela-popularizacao-da-economia-por-nathan-caixeta/) , no qual além de desenhar as linhas gerais da conduta espiritual, moral e pública de um jovem economista ante ao academicismo exacerbado, destinou-se a revisitar a lei geral da acumulação capitalista de Karl Marx. Espero ter para além de informado e entretido os leitores com a linguagem propositalmente “popular”, ter aguçado a curiosidade sobre as ideias de outros autores do pensamento social e econômico. Para tanto proponho, neste texto, e nos próximos que virão, trazer em poucas linhas, de forma acessível, um resumo da vida e obra desses pensadores. Textos estes que serão destinados a todos aqueles que labutam no “mundo vasto mundo”, tendo o peito cerrado, cotidianamente, pelas Sete Facas do poema de Carlos Drummond de Andrade.

Keynes e Noel Rosa: De Bloomsbury ao botequim

John Maynard Keynes foi reconhecidamente um “bon vivant”, boêmio e mulherengo, nascido no círculo mais notório da intelectualidade europeia de seu tempo. Quando criança em sua casa, era corrente a presença de artistas, músicos, escritores, poetas, etc. Seu pai, professor, assegurou-lhe uma educação de primeira linha, o que mais tarde rendeu frutos em seu interesse por Filosofia, Matemática e História. Já homem feito, Keynes assemelhava muito ao estilo de vida noturno do nosso músico e compositor Noel Rosa, a genialidade na “cuca”, o Bourbon na mão e a indispensável reunião com os amigos. Noel, no botequim, Keynes no famoso círculo de Bloomsbury, que colecionava os mais ilustres pensadores e artistas do início do século XX.

Formado em Matemática em Cambridge, o interesse de Keynes pela Economia nasceu de modo um tanto esquisito. Por acaso, ou frustração, acabou empregado no governo Britânico, dedicado a inspecionar as relações comerciais entre o império Inglês e a Índia, ainda colonial. Por influência de seu pai, acabou aluno do notável economista Alfred Marshall (que merecerá um escrito a parte posteriormente), donde nasceu seu interesse pela economia, mais especificamente sobre as relações que envolviam a composição e distribuição da renda gerada pela sociedade. De Marshall, para além da inestimável “virtude intelectual”, legou o inconformismo quanto aos preceitos que guardavam hermeticamente o “saber econômico” dentro dos quadros do chamado “equilíbrio geral”.

Fato curioso, porém, sintomático, é que a primeira grande obra de Keynes e que o projetaria como escritor renomado não foi sobre teoria econômica, mas um ensaio sobre “As consequências Econômicas da Paz”, publicado em 1919, no qual alertava as inviabilidades da moldura geopolítica internacional do pós Primeira Guerra Mundial. Por virtude, e azar, Keynes estava correto, a ordem internacional fundada em acordos políticos insustentáveis, o já decadente padrão ouro-libra e as impagáveis reparações de guerra cobradas da Alemanha pelos vencedores da Guerra, nada menos que fundariam duas décadas (1920-1930) de confusão no plano político-econômico mundial, frutos da paz remendada com arrame enferrujado. Com tal sorte analítica, Keynes, se fosse Noel, jogaria no bicho e, de certo, rechearia os bolsos.

Keynes e as escamas do senso comum

Famoso e conceituado, Keynes, mais maduro, viria a lecionar Economia em Cambridge até o fim de sua vida, carregando em sua postura intelectual, a mesma fluidez imaginativa com que conduzia sua vida pessoal, estando fora de qualquer “casinha”, desde os blocos bens alinhados das chaminés que decoravam as paisagens urbanas da City Londrina, à “casinha” de sapé cuja nobreza vem da simplicidade, do concreto ao abstrato, do chão mais tenro ao vôo do pensamento, feito abelha, de flor em flor, sem guardar saudade.

Não havia como não notar, quando o homem alto, de largo corpanzil, bigode inconfundivelmente fino passava pelos corredores da universidade de Cambridge, e entre uma espiada e outra no mercado de ações, construía o imenso monolito de seu pensamento. Mono, mas múltiplo, porque fluido e despreocupado com as ordens do saber comum. Keynes, em conferência proferida na Alemanha, fora questionado por algum gaiato bávaro: porque de mudar tanto de opinião? Em simples, aguda e marcante ironia, respondeu: “mudo de opinião, porque a realidade muda”.

A resposta ilustra bem o espirito do nosso velho mestre que no ato de autoconfissão, na apresentação de sua “Teoria Geral”, escreveu: “a dificuldade não reside nas ideias novas, senão em fugir às antigas, que se insinuam pelos escaninhos do entendimento daqueles que, como quase todos nós, receberam a mesma formação”, tal labuta, parafraseando-o: é desfazer-se das escamas que revestem o senso comum, o saber “auto profético”, aquilo que pela falta do novo, conduz de imediato à mesmice, à pasmaceira, ao repeteco. Sem dúvidas, propõem-se em sua obra não em criticar aquilo que reinava como “saber econômico” em sua época, mas em fundar novos horizontes, inexplorados, não visitados, porque jamais avistados. Logo, coragem, lucidez e a diletante pratica do assassinato das “vacas sagradas” do pensamento econômico resumem bem quem foi John Maynard Keynes, enquanto, filósofo, matemático, historiador e homem público. Como em “Velha Roupa Colorida” do cantor e compositor Belchior, Keynes construiu seu navegar pelo pensamento, cantando na alma: “O que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo. E precisamos todos rejuvenescer”.

Keynes e os “Keynesianos”: entre ouros e tolos

Nas masmorras do academicismo, Maynard é badalado, contrariado e, por vezes, vulgarmente utilizado enquanto referência teórica. Os chamados “Keynesianos”, sejam antigos, ou novos, são igualmente filhos bastardos de uma frondosa árvore do pensamento, plantada por Keynes cujas raízes encontram-se em sua obra, nos caminhos transviados de sua evolução teórica. Poucos, e por poucos, digo, raros, quase tratos finos de um ourives habilidoso, foram aqueles que conseguiram perseguir os ramos do pensamento de Keynes. É possível citar os mais notáveis, Hyman Minsky, George Shackle, José Carlos Braga e Luiz Gonzaga Belluzzo. Tipos como Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Randall Wray, José Oreiro e outros, não são desprezíveis, senão pelo fato de terem lido a densa obra do velho mestre, no mínimo, de olhos fechados.

Tenho para mim que o método de análise da economia capitalista empreendido por Keynes parte antes do “fato econômico”, sendo este, o último a figurar em seus esforços argumentativos. Keynes parte, de fato, da filosofia moral, do saber aristotélico, da psicanálise freudiana, da análise da sociedade e da política, para que uma vez feitas as considerações de ordem psicossocial, filosóficas e históricas, o “fato econômico” viesse fechar o quadro, como enfeite de um monumento em muito mais brilhante do que aquele construído pelos “economicismo autofágico”, como demonstram, desde os clássicos, de Adam Smith á Bentham, de Jevons à Pigou, até os novos, de Robert Lucas à Thomas Piketty.

A exposição do pensamento de Keynes, por sua complexidade, pode ter varias entradas, todas sem saídas, pois as dúvidas plantadas pelo velho mestre persistem como espinhas na garganta dos economistas atuais. Para uma exposição sintética e compreensível do núcleo de seu pensamento, partirei da filosofia moral à psicologia, desta à história, e por fim, as repercussões sociais de seu pensamento.

As concepções filosóficas, psicossociais e históricas de John Maynard Keynes

As contribuições filosóficas e as pílulas das incursões de Keynes pela psicologia e a história encontram-se mais em seus artigos de opinião do que em seus textos econômicos, embora tais concepções constituíam a base de suas investigações econômicas.

De saída, Keynes transbordava seu asco quanto ao utilitarismo da filosofia moral dos economistas clássicos, segundo o qual o egoísmo auto esclarecido conduziria ao bem-estar geral pela via da livre concorrência. Em igual, transbordamento, trazia de Aristóteles, Filósofo Grego e G. Moore, uma noção que acenava para a beleza humana do melhoramento do saber, das condições de vida, da busca do “supremo bem” como fundamento dos homens públicos, no curso da administração das “coisas” e dos homens. De Freud, “pai” da psicanálise, Maynard retirou o néctar amargo do “amor ao dinheiro”, face material do mal-estar da civilização (moderna). De Marx tirou o esquema básico de reprodução da economia monetária da produção, expressão positiva do capitalismo. Marshall, seu professor, legou-lhe a fundamental observância da concorrência capitalista como processo em que: “Os capitalistas movem todas as peças do tabuleiro de xadrez, tanto brancas, quanto pretas”.

Colocando em ordem expositiva esses pilares constitutivos do pensamento de Keynes, retem-se, duplamente, as âncoras teóricas de sua obra e o caminho que o conduziu à fundação de um novo paradigma econômico que viria a impactar o século XX, sobremaneira, tanto nas concepções que moldaram a ordem econômica internacional do pós-guerra, quanto a confecção de políticas econômicas nos chamados 30 anos gloriosos do capitalismo (1950-1980), nos quais as taxas de crescimento das economias capitalistas apresentaram recordes históricos, jamais atingidos até os dias atuais, à exceção do modelo chinês, diga-se, an passant, o mais “keynesiano” dos modelos econômicos.

Filosoficamente, Keynes observava no homem moderno as manchas ególatras do utilitarismo individualista e, ao mesmo tempo, o potencial de ordenação do espaço público para a fruição individual da liberdade, do suprimento das necessidades humanas a partir da organização “socializada” da produção e distribuição da riqueza social realizada por um Estado, nem “máximo”, nem “mínimo”, mas ao ponto de garantir a auto-suficiência da dinâmica econômica a partir do direcionamento das decisões de gasto, tomadas privadamente, mas subordinadas às decisões sobre as formas de alocação da riqueza.

A determinação das decisões dos agentes sociais seguia o ordenamento psicológico do ser nascido da modernidade. Embotados pela submissão ao assalariamento compulsório, à concorrência vulpinas, os indivíduos permanecem submetidos ao cárcere do dinheiro, presos nas algemas freudianas das pulsões de morte, libertos pelas chaves das pulsões de vida, isto é, pela posse ou renúncia do dinheiro, elemento que inspira paixão e desespero, acalanto e desassossego no individuo moderno, justamente, por constituir-se, por um lado, como objetivo da produção capitalista (não por menos, denominada por Keynes como “economia monetária da produção), e por outro, objeto de desejo dos que participam do jogo concorrencial cujas posições “de largada”, na corrida pela “maximização de suas utilidades” eram “desiguais e combinadas”, porque escalonadas pela lógica da preferencia pela liquidez.

Aqueles detentores da propriedade decidem a forma de alocação da riqueza. Quando permanece em sua forma liquida, isto é, em dinheiro, a riqueza perfaz o caminho da morte, acalentando as intranquilidades nascidas da incerteza quanto ao futuro. Uma vez posta à serviço da produção, na forma de investimentos (construção de fabricas, compra de maquinas, etc.), tal ato impulsiona a absorção de mão de obra que uma vez sendo paga com salários, põem-se a consumir aquilo que foi produzido. Neste ponto, fixa-se a mensagem central das investigações econômicas de Keynes: os fatores psicológicos e sociais que levam os indivíduos possuidores da riqueza e da propriedade a alocarem seus recursos, determina o nível de investimento e de emprego do conjunto da sociedade.

 Logo, o emprego não é ato decisório e consciente dos agentes individuais, mas é subordinado às decisões sobre a forma de alocação da riqueza. Os determinantes dessas decisões enunciam outro ponto fundamental do pensamento de Keynes, nascido de suas investigações filosóficas. Decidir pela alocação da riqueza representa a contraposição entre presente e futuro. A base de conhecimentos sobre o futuro, senão nula, é marginal. Logo, o presente é utilizado como espelho do futuro, legando do passado o fundamento para o ocultamento psicológico da incerteza radical, própria da condição humana. A “ação humana” encontra-se, de fato, numa “sinuca de bico”, entre a aposta cega no futuro e o apego a convenções sociais e psicológicas estabelecidas pelo conjunto da sociedade para basear as decisões dos agentes econômicos ne alocação da riqueza, e subsequentemente, dos gastos com investimento e consumo. O volume de emprego do conjunto da sociedade permanece nas rebarbas do processo decisório, faturando a posição pouco nobre de fixar-se como retalho involuntário do processo econômico de formação das decisões, marcado pela incerteza radical, pelas pulsões de vida, sendo engolidas pelas pulsões de morte, pelo ato de fabricar o futuro, a partir da frágil e fina camada do conhecimento humano, coberta pelo saber imanente da coletividade. Em brevidade cômica, resumo a questão essencial da insuficiência do emprego e da renda na sociedade capitalista, surrupiando uma das mais brilhantes frases do nosso Nelson Rodrigues: “toda unanimidade é burra”. Deve-se a este fato, a abundancia potencial de riqueza contrastada à escassez distributiva, ato contraditório, no qual poucos (os que detém a propriedade e a riqueza) comandam o destino de muitos (que detém somente sua força de trabalho para vender). O medo dos detentores da riqueza de que seu dinheiro vire poeira tão logo desabem as convenções que embasam seu frágil conhecimento sobre o futuro é tal que, de forma unanime, libertos do trabalho, prendem-se à naturalização da propriedade como expressão de seu mérito social. Contudo, à moda de Maynard, conclui-se: qual o mérito na exploração de uns pelos outros, à miséria dos explorados e a angustia dos exploradores? , ambos amantes do dinheiro, os primeiros concubinos, os últimos infiéis confessos até que a próxima crise financeira os separe.

O Fato e o Problema Econômico: Keynes, o Humanista

No capitulo 24 de sua “Teoria Geral” e no notório artigo “As possibilidades econômicas para os nossos netos” de 1928, Keynes apresenta o resumo de sua filosofia social tal como possíveis implicações em deixar o sistema capitalista “à sua própria sorte”, contrariando tal quadro com breves e ricas recomendações para confecção de um capitalismo humanista que trouxesse, pela via do Estado, a melhor distribuição da renda e da riqueza, assim como, da fruição do tempo-livre nascido da eterna e permanente revolução dos meios técnicos de produção. O fato econômico, ultima pedra em seu monolito, apontava para um futuro assustador que hoje assistimos como presente inescapável: elevação das desigualdades, concentração da riqueza, elevado desemprego tecnológico e insuficiência crônica de recursos naturais e materiais para o atendimento das necessidades básicas de vida. Pois é, Maynard, de certo, bombaria na “loteca”, se a aposta fosse sobre os destinos do capitalismo. Nos idos atuais do capitalismo, os 1% mais ricos detém mais que o dobro da riqueza dos outros 99% da população mundial, segundo relatório da Oxfam.

Para tanto, Keynes propõe soluções práticas, próprias ao seu tempo, mas que em muito elucidam os dramas econômicos e sociais do presente, da crise de 2008 ao furação pandêmico: 1) A socialização do investimento a partir do orçamento público, evitando flutuações abruptas do nível de emprego da sociedade; 2) A eutanásia do rentista, de modo que as decisões sobre a alocação da riqueza fluíssem sem peias para o setor produtivo da economia; 3) Tributação progressiva sobre renda e patrimônio, reduzindo a desigualdade e freando a concentração desmesurada da renda e da riqueza; 4) A atuação dos Estados Nacionais e organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, etc.), no sentido de proteger a atividade econômica dos crônicos impactos externos emanados da divisão internacional do trabalho e da produção; 5) a existência de um fundo de compensações internacional, fixado em uma moeda única para os fluxos monetários, desbancando disputas pela hegemonia monetária e permitindo a promoção de politicas de pleno emprego no interior economias nacionais.

Pode-se dizer, que as “distopias” de Keynes estão inscritas no passado, entre sucessos e fracassos, estes últimos em função da incapacidade dos homens públicos em defrontar a influência dos ricos e poderoso. Contudo, tais recomendações permanecem tão atuais em termos de sua necessidade histórica, embora ainda opacas em termos das possibilidades concretas de que o “sonho” se torne realidade. Em conclusão, verifica-se no capitalismo atual, que a doutrina da austeridade fiscal derrota os propósitos da socialização do investimento, “sem entrar em campo”, pois tal doutrina fornece as carniças que alimentam os abutres das “boas maneiras fiscais”; o rentista, por seu turno, transformou sua cicuta em chardonnay, pois as configurações atuais do sistema financeiro internacional são tais que o endividamento e a acumulação de riqueza privada “sem limites” tem por fundamento a elevação dos níveis de dívida pública; a moeda internacional? bem, resta saber se há que negociar com os norte-americanos (que não abrem mão de seu sonho falido), ou com os chineses, donos de um regime político, econômico e monetário inconciliável com ideias ecumênicos. O mestre Maynard pode ter perdido parte das batalhas post-mortem, mas ganhou a guerra em ter sido aquilo que a nós, netos de seu tempo, feitores do mundo atual, recomendou: ter acima do espirito e das vontades utilitárias, o espirito publico e a busca do bem-estar comum como princípio de nossas investigações, na ruptura da moral canhestra e nas incursões pelo vasto mundo do saber.

Sobre o autor: Graduado em Economia pelas Faculdades de Campinas (FACAMP), mestrando em desenvolvimento econômico pela Instituto de Economia da UNICAMP. Pesquisador do Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP (NEC-FACAMP)

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