Uma luta pela popularização da economia, por Nathan Caixeta

A mensagem de Marx é de tal modo simples que espanta a quantidade de páginas já escritas para complica-la e deixa-la inacessível por azar ou destino não tem acesso às suas ideias.

Uma luta pela popularização da economia

por Nathan Caixeta

Quantas pessoas tem acesso, linguagem e tempo suficiente para se dedicar à uma leitura acadêmica? Provavelmente, somente os acadêmicos, ou pessoas que dispõe de tempo-livre por estarem financeiramente “bem de vida”.

Agora, dedico e direciono o texto que se segue ao “povão”, que acorda cedo, canta pro galo acordar, se espreme nas várias viagens de ônibus, dedica varias horas à um trabalho quase sempre estafante e mentalmente cansativo e volta esgotado para casa, esperando que o suor corrido durante o dia seja suficiente para pagar as contas do mês e colocar comida na mesa. Esse texto que se seguirá tem por finalidade popularizar a discussão econômica. Pregando a língua do “economês”, e falando no bom e cotidiano português, na língua da rua e da periferia. Ainda, me atreverei, nesta primeira sessão do texto a realizar uma análise da classe acadêmica, dos economistas, segundos os olhos de quem os vê de fora, apontando suas barbeiragens. Resumindo, o espirito que aqui espero passar para o leitor é: recorrer sempre à cultura e à história, pois os discursos acadêmicos (e econômicos) por si não saem e nunca sairão de sua própria auto consumação, servindo apenas para conferir distinções.

Contudo, adiantando às bordoadas, pergunto: Qual a diferença entre um “doutor” (em economia, advogados, médicos, etc.) e um faxineiro? Nenhuma, exceto os olhos de quem os vê. Em terra de seres com dois olhos, boca, nariz e ouvidos, quem vê “títulos” e cargos nada mais é do que idiota. Não, isso não é xingamento. Para os gregos de séculos atrás, “o idiota” era aquele que só olhava para si. Em proporção populacional, há muito mais acadêmicos que se encaixam nesse termo. Os economistas são cegos quando sua língua não está vestida com as roupas chiques dos eixos cartesianos. Não vêem pessoas, mas números, contam vidas em termos de déficit público. Bravatas! No fundo sua pobre donzela, a ciência “econômica” que tanto defendem, é tão ciência quanto o cálculo de um troco numa padaria, em troca de alguns cigarros e de uma dose de pinga.

Revisitando Marx: A lei Geral da Acumulação Capitalista

Karl Marx foi o menos economista dos economistas. Por isso mesmo, foi o mais importante de sua geração. Seus discípulos, nunca fizeram nada na intenção de economizar no “economês” ou na linguagem de difícil acesso.

Em resumo, a imagem do velho Alemão, barbudo e gordo é carismática e chamativa. Um verdadeiro “Vovô Noel” antes que o aniversario de cristo virasse feriado no calendário. Mas quem foi, e quais as ideias essenciais desse sujeito? -, tão comemorado na academia e cujos escritos tornam tão vaidosos aqueles que os entendem minimamente. Foi um democrata dos meios de produção e de subsistência. Não é preciso relembrar as milhares de páginas que ele escreveu para dar a ideia do que isto significa, apenas relembrar uma frase por ele escrita: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. Esse era o sentido de sua militância politica e a partir dela que empreendeu suas investigações intelectuais.

Sua obra principal, mais famosa, tão falada, O Capital: crítica à economia política é sim de leitura muito complicada, provavelmente, não pela intenção de tornar difícil coisas simples, mas de explicar ao limite do esgotamento os traços principais daquilo que Marx chamou “modo de produção capitalista” e que hoje todos participamos de algum modo, desde a compra de um cigarro na “padoca”, conversas nas redes sociais, horas de trabalho dispendidas, etc.

A mensagem de Marx é de tal modo simples que espanta a quantidade de páginas já escritas para complica-la e deixa-la inacessível por azar ou destino não tem acesso às suas ideias. No capitulo 23 de “O Capital”, nosso amigo barbudo deixou “de barato” a chave para o entendimento da sociedade que estava nascendo, e que em nossos dias, já está crescida e ideologicamente formada pelos valores do individualismo egoísta, e, cujo modo de produção, destinado para a geração de dinheiro, já viaja mais rápido que a velocidade da luz, como provam as infinitas transações cotidianas entre contas bancarias, sejam na intenção de engordar os bolsos dos ricaços recolhendo seus lucros, sejam no pagamento de compras de tudo quanto é tipo de coisa, uma marmita, serviço de internet, bala ou chiclete.

No referido capitulo, Marx descreve a lei que impera sobre todas as relações sociais ocorridas no capitalismo. A lei da acumulação. Resumidamente essa lei é, em primeiro lugar, dinâmica, portanto, governa as relações sociais capitalistas, enquanto as desrespeita. Por isso mesmo, a “Economia (e a sociedade) Capitalista” de modo geral vive entre ciclos de expansão e crise. Duas perguntas básicas necessitam ser feitas para o entendimento do capitalismo, em seus aspectos mais gerais:

Qual a base social que funda o modo de produção dessa sociedade?

A base social que funda essa sociedade é a disputa pela propriedade dos meios de produção, de subsistência e do dinheiro. No entanto, ao contrário do que querem os liberais de proveta, ou até mesmo “os sessentões”, como nosso Ministro da Economia, essa disputa entre os indivíduos está longe de ser livre de barragens histórico-culturais, dependendo apenas da “livre iniciativa”, do “empreendedorismo” e do “mérito”. Ao contrário, essa luta tem história. Não podendo conta-la toda, resumirei sua essência: Aqueles que tem os meios de produção, isto é, meios de fazer dinheiro, acabam por comandar os meios de subsistência e a própria distribuição da riqueza que sempre assume múltiplas formas (máquinas, prédios, joias, bitcoins, vacas leiteiras, etc.), para ao final, transformar-se em dinheiro, pois com dinheiro na “mão” compra-se qualquer coisa, inclusive nada.  Logo, são inseparáveis e dada vez mais concentrados os controles dos meios de produção, de subsistência e de dinheiro.

Quem não os possui, isto é, a grande maioria das pessoas, como conseguem sobreviver, comer, vestir e morar? Vendem sua força de trabalho para os poucos que possuem os meios de produção, recebendo para tanto um salário, sempre menor (em volume) do que o lucro que aqueles detentores dos meios de produção acumulam explorando essa força de trabalho. O motivo é simples: tudo que existe materialmente só adquire valor mediante a aplicação da força de trabalho. Uma árvore é cortada em pedaços retos de diferentes tamanhos e se transforma em uma cadeira. Vários elementos dispersos da natureza são combinados por diferentes processos para produção dos celulares, sem os quais, ninguém hoje consegue viver. Logo, uns poucos tem riqueza e meios de reproduzi-la, e outros muitos, não tem nada, senão sua força de trabalho. Quem tem riqueza manda, quem tem juízo e fome, obedece e trabalha, assim funciona no capitalismo, pois este “sistema” não reproduz para as pessoas, mas usa as pessoas para a produção de dinheiro concentrado na mão de uma parcela cada vez menor da população.

Dai, vamos a segunda questão, ela sim respondida por Marx no capitulo sobre a lei geral da acumulação capitalista.

Como é capaz que se produza tanta riqueza, desenvolvam-se tantas tecnologias e meios abundantes de vida, tão mau distribuídos entre as pessoas, de modo que existam, no mesmo “bonde” do espaço-tempo, bilionários e trabalhadores pobres e “sem tetos” famintos?

Se o objetivo do capitalismo é a produção de dinheiro, valorizando “o capital” investido na compra de meios de produção e força de trabalho por quem domina o dinheiro, então o destino inevitável desse processo é a acumulação ilimitada de riqueza através de três facetas “magnificas” do capitalismo: A possibilidade de centralizar o comando sobre o dinheiro, aumentando sua capacidade de acumulação; A capacidade de revolucionar os meios técnicos de produção e consumo, criando (ao destruir) novas formas de acumular pela criação de novas tecnologias, desde bombas atômicas à Iphones, de Vacinas antivirais à internet que, hoje literalmente conecta em frações de tempo que rompem os espaços físicos, de modos cada vez mais velozes e potentes de produção de bens básicos (comida, vestuário, itens de higiene), bens complexos (aviões, carros, vacinas, etc.) até bens que fluam entre o “básico” e o supérfluo (Habitações, Celulares, etc.); Mediante o comando centralizado dos meios de produção e a criação de novas tecnologias, o capitalismo opera a “redundância do trabalho”, não no sentido de torna-lo menos necessário para a produção de mercadorias, mas de torna-lo “mais produtivo”, pois cada vez menos trabalho é necessário para produzir uma quantidade cada vez maior de bens.

Aí está a lei geral da acumulação capitalista: ao acumular “sem freios”, o capital “cria” a força de trabalho que ele irá explorar, pois tornando o trabalho mais produtivo, pela revolução dos meios técnicos de produção e consumo, acaba por liberar “tempo” de produção, dispensando também os trabalhadores que o executam. Contudo, o mesmo processo que dispensa trabalhadores, amontoando-os naquilo que Marx chamou “exercito industrial de reservas”, também opera no sentido de absorve-los, ao dispersar a força de trabalho entre os vários setores (novos e antigos) da produção de mercadorias e serviços.

Contudo, quanto mais acumula e dispensa trabalho, mais o capital desvaloriza o trabalho, pois sua necessidade de acumular cresce muito além daquele que pode ser atendida pela exploração do trabalho. Logo, o trabalho se torna uma base miserável de valorização, e o trabalhador se torna, uma mercadoria descartável, porém não eliminável, porque ainda persiste como individuo humano. Enquanto os que detém os controles dos meios de produção, subsistência e dinheiro acumulam, criando tecnologias e desvalorizando o trabalho, massas crescente de desvalidos, desprotegidos e degradados são criadas e abrigadas no espaço de competição do mercado de trabalho, em empregos precários cada vez mais associados ao “empreendedorismo de si”, tais como motoristas, entregadores e outras formas de trabalho por aplicativo.

Logo, a mesma lei que determina a abundância material e a crescente geração de meios técnicos de melhoria das condições de vida, também determina a distribuição desigual dessa abundância, pois enquanto ente social desvalorizado, o trabalhador recebe cada vez parcelas menores de tudo aquilo que se produz de riqueza. Ainda mais grave, ao serem dispensados, enquanto mercadorias descartáveis, e não conseguindo se realocar adequadamente no mercado de trabalho, cresce a população de pessoas famintas e abandonadas cuja única esperança é a ilusão. Eis, o feitiço do capital sobre o homem, diria o velho barbudo: as coisas tem relações sociais (pois usam as pessoas), e as pessoas tem relações de mercadoria, pois isso se tornam para o simples objetivo de ter condições mínimas de vida.

Por fim, permito-me interpretar à moda da poesia nascida da periferia estes conceitos sobre o capitalismo. Na canção “Diário de um detento”, o grupo Racionais Mc’s, constrói um depoimento sobre o massacre do Carandiru, ocorrido em 2 de outubro de 1992 na cidade de São Paulo. O capitalismo, tal como aqui brevemente descrito, gerido pela lei da acumulação infinita e concentrada de riqueza, é um Carandiru em escala sistêmica, ocorrendo, como processo de encarceramento do homem ao trabalho. Às algemas, bem parecem com o dinheiro, ao mesmo tempo, prisioneiro e carcereiro do indivíduo moderno. O capital aponta as armas para as cabeças dos que não detém os meios de subsistência, na forma da exigência do consumismo exacerbado, referido à felicidade. O tempo-livre liberado pela revolução tecnológica é capturado por quem tem dinheiro. Os outros, desprotegidos, famintos, precarizados, refazem cotidianamente o verso cantado por Mano Brown:

“Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá
Tanto faz, os dias são iguais
Acendo um cigarro, e vejo o dia passar
Mato o tempo pra ele não me matar
[… Os que detém dinheiro e tempo-livre]
Olhando pra cá, curiosos, é lógico
Não, não é não, não é o zoológico
Minha vida não tem tanto valor
Quanto seu celular, seu computador
[todo pobre, preto, favelado imigrante, trabalhador, mulher, transgénero, vias transversais do descarte social, lutam, tudo dizem, Mas]
O Robocop do governo é frio, não sente pena
Só ódio e ri como a hiena”

Surrupiando, enfim, os versos de Zeca Pagodinho em “Eta Povo Pra Lutar” desafio à contraprova aqueles “bem de vida”:

“Eta povo pra lutar, vai gostar de trabalhar
Nunca vi tão disposto, nunca está de cara feia
Sempre traz escancarado
Um franco sorriso no rosto […]
Então, por que que essa gente que tem
Não aprende a lição
Com esse povo que nada tem
Mas tem bom coração”

Sobre o Autor: Graduado em Economia pelas Faculdades de Campinas (FACAMP), mestrando em desenvolvimento econômico pela Instituto de Economia da UNICAMP. Pesquisador do Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP (NEC-FACAMP)

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