A fute-política do Oriente Médio, por Gianluca Florenzano

Movimento de trazer craques tem como pilares as ideias de retorno financeiro, de melhorar a imagem saudita e de fomentar o futebol local.

A fute-política do Oriente Médio

por Gianluca Florenzano

Os olhos do planeta, atualmente, estão voltados à guerra entre Israel e Hamas. As cenas de barbárie provocadas por ambos os lados; primeiro o Hamas – considerado por muitos como um grupo terrorista – perpetuando um ataque sem precedentes ao território hebraico e, por outro lado; Israel respondendo com a mesma ferocidade, vem causando apreensão em todos.

De fato, como pudemos constatar pelas análises dos especialistas das mídias tradicionais e alternativas, Israel e a Faixa de Gaza, e, ampliando para um escopo maior, o Oriente Médio como um todo, é uma região de extrema complexidade que envolve conflitos internos e externos que vêm se arrastando ao longo de vários anos.

Mais ainda, historicamente, principalmente após o atentado de 11 de setembro de 2001, ocasionado pelo grupo terrorista Al-Qaeda nos Estados Unidos e, por conseguinte, a política externa de Guerra ao Terror iniciada pelo governo republicando de George W. Bush, o mundo, ao menos em sua grande maioria, passou a ver a Península Arábica de forma negativa e estereotipada.

Para se livrar dessa pecha negativa, alguns países, ou melhor dizendo, algumas ditaduras, passaram a investir em políticas de soft power, isto é, políticas para “limpar a sua imagem”. E o principal instrumento para isso foi o esporte, mais precisamente o futebol, prática que ficou conhecida pelo termo britânico sportswashing (a junção das palavras inglesas esporte com lavagem).

Quem deu o primeiro pontapé nessa iniciativa – podemos dizer assim – foi o Emirado Árabes Unidos que, em 2008, comprou o Manchester City. O time inglês, que antes da venda era um time modesto, agora se tornou uma das maiores potências mundiais, inclusive, conquistando a sua primeira Champions League (o principal torneio de mata-mata de clubes do mundo) na temporada de 2022/2023.

O Qatar (ou Catar) também não ficou para trás. Em 2011, a referida nação muçulmana tomou posse da equipe francesa do Paris Saint-Germain (PSG). O time ainda não conseguiu o feito de vencer uma Champions League, porém, seu ataque já contou com a presença de Messi, Neymar e Mbappé – considerado como um dos maiores ataques dos sonhos de qualquer fã de futebol.

Agora, chegou a vez da Arábia Saudita. Em 2021, o país adquiriu o Newcastle e já passou a fazer investimentos significativos no time inglês. Três anos antes da compra, em 2018, contudo, de acordo com a Inteligência dos Estados Unidos, o príncipe saudita, Mohamed bin Salman, teria autorizado a morte do jornalista Jamal Khashoggi – que escrevia para o The Washington Post e era conhecido por ser um ferrenho crítico do regime.

O jornalista foi assassinado de forma brutal pelos agentes da Arábia Saudita após entrar no consulado do país em Istambul, na Turquia. Portanto, talvez bem mais do que amor ao futebol, a compra do Newcastle reforça as suspeitas de ser uma estratégia de sportwashing do trono saudita.

Sim, claro, utilizar o futebol como instrumento político, especialmente para melhorar a sua imagem perante o mundo, não é uma exclusividade das ditaduras árabes e também não é recente.

Pelo contrário, há vários exemplos que podemos citar aqui. Como esquecer da Copa do Mundo de 1934 na Itália, na qual Mussolini a utilizou para fazer propaganda de seu regime fascista. Da Olimpíada de 1936 usada por Hitler pelo mesmo propósito. Ou então, da Copa do Mundo de 1978 na Argentina para saudar a ditadura que ocorria no país. E por aí vai.

Entretanto, nessa minha análise, gostaria de destacar a Arábia Saudita. Dando um passo além do que já fizeram os outros Estados do Oriente Médio, a referida potência árabe passou a trazer também jogadores de renome internacional ao seu campeonato: Cristiano Ronaldo, Benzema, Neymar e Kanté, são alguns desses atletas.

De fato, o movimento de trazer esses craques tem como pilares as ideias de retorno financeiro, de melhorar a imagem saudita e de fomentar o futebol local.

Porém, também é sobre proteção. Nos últimos anos, a Arábia Saudita tem se aprofundado na política de “abrir as suas portas” ao mundo. Se preparando para o fim do petróleo – digamos assim -, a ditadura vem buscando diversificar a sua economia, ampliar suas relações internacionais (inclusive, estava prestes a firmar um acordo com Israel antes da guerra eclodir) e se tornar um polo turístico, nos mesmos moldes de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Isso não significa dizer, no entanto, que a potência árabe vem “suavizando” seu regime autoritário e sangrento. Longe disso, na verdade, o que acontece é que cada vez mais os sauditas necessitam que os olhos do planeta se voltem para eles.

Mas por que?

Pois, também nos últimos anos, o Irã, da corrente xiita do Islã e um dos principais adversários da Arábia Saudita que pertence a corrente sunita desta religião, vem intensificando o seu programa nuclear, ou seja, o país persa – por mais que exista uma pressão internacional para que isso não aconteça – pode ter a qualquer momento em mãos a capacidade de produzir uma bomba atômica.

Dessa maneira, com os sauditas ocupando um espaço importante nos holofotes do globo, isso pode, de certo modo, inibir um possível ataque, especialmente atômico, do Irã em seu território.

Ou então, caso aconteça alguma ofensiva militar (sem necessariamente ser atômica), a referida potência árabe poderá contar com o apoio e a simpatia de uma parcela considerável da opinião internacional.

Para avaliarmos como a opinião mundial favorável é fundamental em um conflito bélico, basta olharmos para uma outra guerra que está em curso: Rússia x Ucrânia. Sem dúvidas, se não fosse pelo suporte de aliados, os ucranianos já teriam caído diante do poderio militar russo.

Não à toa, agora o atual presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, busca de qualquer forma se manter na mira das câmeras para evitar que os recursos que sustentam seu país não parem de chegar.

Desse modo, mais do que torcedores, quem vibra com o sucesso do Campeonato Saudita de Futebol (conhecido como Saudi Pro League e com alguns jogos transmitidos no Brasil pela Band) é o trono saudita. Cada jogada, drible e gol de Cristiano Ronaldo, Neymar e Benzema coloca, de certa forma, a imagem da Arábia Saudita no centro do mundo e de uma maneira positiva.

A geopolítica mundial vem se movimento nos últimos tempos e a referida potência árabe já percebeu que o futebol pode ser utilizado como uma poderosa ferramenta de proteção.

Pois, afinal de contas, quem desejaria ver um país com tantos craques em campo, ser atacado?

Gianluca Florenzano, formado em Jornalismo na PUC-SP e Mestre em Ciências Sociais também na PUC-SP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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