A síndrome do “great again”, por Daniel Afonso da Silva

A síndrome do “great again”

por Daniel Afonso da Silva

Quando o presidente Barack Obama fixou uma redline para a Síria em agosto de 2012, sua aposta residia em certa convicção do lugar dos Estados Unidos no ordenamento da desordem internacional. O mandatário mais importante do planeta acreditava que o decênio de guerras, iniciado com os ataques de 11 de setembro de 2001, tinha realmente acabado com o assassinato de Osama Bin Laden em maio de 2011 e que a crise financeira mundial de 2008 vivia seus dias finais.

Mas os fantasmas das intervenções no Iraque e no Afeganistão ainda rondavam a Casa Branca. As ignomínias praticadas em Guantanamo em nome da luta contra o terror ainda enfraqueciam a legitimidade da democracia liberal norte-americana. As instabilidades políticas no mundo árabe-muçulmano seguiam efervescentes. E o desemprego estrutural crescia em toda parte.

Os protestos nas ruas árabes, da Costa do Marfim ao Egito à Tunísia à Líbia, iniciados em fins de 2010, não tardaram a chegar às cercanias sírias. Muitos observadores ocidentais vaticinaram ser a vitória política e econômica absoluta do mundo livre mundo afora.

Esse entusiasmo levou autoridades europeias e norte-americanas a seguir o clamor das ruas árabes. E, não raro, ultrapassar as palavras de apoio e fornecer armamento a rebeldes.

O regime líbio não cairia sem o empenho e a liderança da França do presidente Sarkozy, do Reino Unido do primeiro-ministro Cameron e dos Estados Unidos do presidente Obama. Esse empenho e essa liderança foram também reclamados pelas gentes nas ruas sírias. Entretanto, o presidente Bashar Al Assad afirmou peremptoriamente não ser o coronel Gaddafi; não serem os sírios, líbios; nem ser a Síria, a Líbia.

Europeus e norte-americanos entenderam a mensagem. Mas a crise humanitária no Oriente Médio causada também pelos movimentos sírios virara insuportável. Daí surgiu a ideia da redline. Espécie de acordo da última chance proposto pelo presidente Obama para coagir autoridades da Síria. A promessa norte-americana era intervir no país caso o presidente Al Assad fizesse uso de armas químicas e biológicas para dispersar protestos populares.

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A redline foi cruzada. Armas de destruição massiva foram utilizadas. Mas os Estados Unidos não cumpririam a promessa.

Essa quebra de palavra ampliou a redução da credibilidade norte-americana no meio internacional e deu início à aceleração da revisão do statu quo do sistema internacional. Os Estados Unidos – e os principais países do Ocidente – se revelaram impotentes diante dos conflitos no Oriente Médio. Mas também de demais dossiês sob sua responsabilidade.

Essa fissura levou diversos países a afirmar o “make our country great again” como programa político. Outros simplesmente tornaram-no explícito como o fez a China.

Mas os Estados Unidos estão longe de aspirar essa mutação do meio internacional. E aí também reside o imperativo do “make America great again” do presidente Donald J. Trump.

Quando potências do porte de China e Estados Unidos intentam “make country great again” para manter ou modificar o meio internacional, o conflito generalizado vira inevitável. Desde a guerra do Peloponeso, na Antiguidade, que a história tem nos ensinado ser assim. O eminente professor Graham Allison, em seu belo e recente Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap? (Houghton Mifflin Harcourt, 2017), nos recorda essa lição. Resta saber o que faremos – ou melhor, o que o os mandatários dos Estados Unidos e da China farão – com ela.

 

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5 comentários

  1. “Resta saber o que faremos –

    “Resta saber o que faremos – ou melhor, o que o os mandatários dos Estados Unidos e da China farão – com ela.”

     

    Dividirão o mundo em dois: Império chinês e império Euroamericano. Talvez daqui a 13 anos o mundo já esteja assim ou caminhando pra isso:

  2. De Tudo

    De tudo o que eu já li sobre avaliações internacionais, como todo o respeito ao seu tempo e conhecimento 

     

    Mas este texto acima é o mais inútil 

  3. Estava procurando a onde estaria a besteira, achei!

    Fui lendo e lendo, até que me deparei com as seguintes frases:

    “A redline foi cruzada. Armas de destruição massiva foram utilizadas. Mas os Estados Unidos não cumpririam a promessa.”

    Quais armas de destruição massiva que foram utilizadas. Parece que o autor esqueceu que acharam em Allepo a fonte destas armas nos depósitos das milícias pró-ocidentais.

    O sujeito ficar na França para ler os jornais de direita e querer bostejar perante os brasileiros é completamente sem noção. 

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