Às voltas com Jimmy Carter, por Daniel Afonso da Silva

Washington, julho de 1979.

Tocava ao presidente Jimmy Carter (1977-1981) gerir o momento de maior desilusão dos norte-americanos frente à sua presidência. Os fantasmas do Vietnã e do escândalo de Watergate não estavam superados e se somavam à aceleração da degradação da vida material das pessoas como resultado dos efeitos de crise energética, fiscal, econômica, social, política e cultural que os choques do petróleo e a nova política econômica do presidente Richard Nixon (1969-1974) promovia.

Um discurso sobre o assunto fora anunciado. Mais um na série dos muitos pronunciados desde a sua investidura no dia 20 de janeiro de 1977.

Esse discurso teria lugar no início de julho de 1979.

Sua primeira versão estava em fabricação. O presidente Carter proporia mais um diagnóstico da situação do país. Equipes de rádio e televisão estavam a postos e em ação. Órgãos da imprensa nacional e internacional também. Todos mobilizados para apreender a impressão geral da nação.

Dias antes da emissão, por dispersa razão, o pronunciamento foi cancelado. O sentimento geral da população, captado por institutos de pesquisa e observação, indicava que o presidente diria apenas mais do mesmo. Que seria novamente banal e trivial. O próprio presidente se convenceu disso e, por isso, cancelou a manifestação.

Esse gesto foi recebido como expressão de desespero e impotência.

Ensimesmado, o governador da Geórgia tornado presidente da república, que vencera as eleições presidenciais com a promessa de não mentir aos americanos, se rendeu às suas dependências em Camp David. Desde aí e após profunda meditação, ele decidiu convocar para diálogo os representantes dos mais diversos segmentos da sociedade norte-americana. Lideranças políticas, empresariais, religiosas, públicas e privadas.

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Essa iniciativa foi reconhecida como inédita na democracia americana. Seu objetivo era promover um exame de consciência coletivo. Seu interesse, avivar a comunhão e o comprometimento nacionais do povo e da nação.

Feito o ajuntamento e o exame de consciência, o presidente Carter consolidou sua intuição. Reconheceu que a sociedade americana vivia, em verdade, momento de profundo malaise.  Uma “crisis of spirit”. Sendo assim, avaliou, portanto, que o problema nacional era muito “mais sério que meramente assuntos de energia e inflação”.

Diante dessa constatação, convocou uma emissão presidencial televisionada e em cadeia nacional para o dia 15 de julho daquele ano de 1979. “Boa noite, esta é uma noite muito especial para mim” iniciou seu discurso. “Eu gostaria de falar com vocês a propósito de uma grave ameaça à democracia americana”.

Essa postura indicou alteração substancial do padrão dos discursos pronunciados até então. O objetivo do presidente Carter era abordar as raízes das dificuldades na superação das crises. Nesse sentido, avançou constatando que “essa ameaça é quase invisível em nosso cotidiano. Ela é uma crise de confiança”.

Crisis of confidence” foi como o discurso e o momento passaram à História. O diagnóstico do presidente, embora abstrato, era preciso: a superação do malaise dependia da superação da crise de confiança. Superar essa crise de confiança envolvia realçar o moral do povo e da nação americanos. Para o presidente, os americanos haviam chegado àquela situação, sobretudo, pela impotência presidencial em renovar as energias e o senso de conjunto, conciliação e coerência. Essa impotência se deveu ao pouco esforço de equilíbrio e renovação dessas energias.

Resultado: o presidente Carter seria massacrado pelo candidato Ronald Reagan nas eleições seguintes.

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Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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4 comentários

  1. Assim o foi!
     
    “Resultado: o

    Assim o foi!

     

    “Resultado: o presidente Carter seria massacrado pelo candidato Ronald Reagan nas eleições seguintes.”

    MAS… eu pergunto: e sem a sua sinceridade… teria sido diferente? Para os que não muito interessa – os fúteis – Carter passou à posteridade como um fraco; um perdedor. Mas, para os que interessam… eis aqui Carter, a quem aprendi admirar desde aqueles tempos, vivo; altaneiro. Voz do que clama no deserto. Um homem que já está na História como um dos seus maiores homens públicos.

    •  
      Foi o único presidente

       

      Foi o único presidente americano no séc. XX que não mandou bombardear outro país; devolveu o Canal do Panamá aos panamenhos. Fidel Castro disse uma vez que se Carter tivesse sido reeleito, Cuba já teria feito as pazes com os EUA naquela época. 

      Depois veio Reagan, e com ele, Paul Volcker, cuja política de juros jogou a América Latina no abismo.

  2. O mais influente

    Concordo com o Bispo, e vou alem, Carter é o mais influente ex-presidente norte-americano dos últimos cem anos.

     

    seu Carter Center é o único centro/ong de ex-presidentes que tem impacto nos EUA e no mundo.

     

    Onkoto

     

     

  3. Perfeito.Essa mania boba de

    Perfeito.

    Essa mania boba de auticritica em público em que o governo e o PT se enfiaram só fortalece o bloco reacionário, que fala as bobagens que dão na telha sem ouvir um contrapontozinho sequer.

    Devem se reunir, sim, com as forças que não lhes são hostis (se ainda existir alguma por aí) e partir para o contra ataque; com o discurso afinado. Com essa oposição boçal não tem diálogo.

    Nem adianta, tampouco, ficar esperando o oráculo se manifestar. Menos ainda o marqueteiro.

    É o Partido que tem que se organizar. Afinal, tem Sedes, Diretórios, Fundação pra quê?

    Por exemplo, todo e qualquer discurso ou aparte no parlamento que se referir a eles, oposição, PSDB, DEM, PPS, tem que empregar os termos golpista e boçal; para pespegar-lhes bem a marca pela qual se esforçaram tanto.

    … Sem falar na comunicação social desse governo, que é um caso perdido…

    É um erro transigir com intransigentes, com fascistas e com essas ideologias antissociais em geral.

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