O discurso de Phoenix, por Daniel Afonso da Silva

Foto Vermelho.org

O discurso de Phoenix

por Daniel Afonso da Silva

O presidente Donald J. Trump foi ao Arizona, à cidade de Phoenix, na última terça-feira, 22/08, redizer sua agenda trumperiana para “make America great again”¹. Um público cativo de mais de cem mil pessoas o esperava nas dependências de um auditório. Centenas de pessoas protestavam do lado de fora. Mas o criador do Aprendiz seguiu indiferente aos ovos e tomates. O núcleo de seu interesse era desfazer o mal-estar causado pelos eventos de Charlottesville e efetivar sua campanha rumo a 2020.

O mal-estar Charlottesville, segundo ele, resulta da parcialidade da imprensa e da má-fé do establishment. Em seu entender, os jornalistas e intelectuais do establishment tendem ao fake. E, no fake, tendem a serem desonestos. E, sendo desonestos, concorrem para a erosão da unidade nacional norte-americana.

Donald J. Trump acredita-se um elemento agregador. Alguém que encarna a nação. Um founding fathers versão século 21.

Ao equiparar os partidários da supremacia branca aos demais manifestantes em Charlottesville, ele se diz cumpridor da Constituição. Ao reagir à ofensa norte-coreana e retorquir o governo venezuelano, ele acredita estar fazendo a “America strong again”. Ao voltar atrás na retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, ele justifica ser uma responsabilidade do país “great again”. Ao substituir semanalmente seus colaboradores civis por militares, ele acredita estar tornando a “America pround again”. Ao enviar seu vice, Mike Pence, para uma turnê das Américas sem passar pelo Brasil, ele informa estar fazendo a “America safe again”. Ao dizer e redizer não ser racista nem segregacionista, ele acredita expandir sua recepção positiva para além de seus seguidores.

Não se sabe se tudo ele consegui, consegue e conseguirá. Mas era possível ler em Phoenix dizeres do tipo “Blacks for Trump 2020”, “Women for Trump”, “Veterans for Trump”, “Americans for Trump”. Certo, são convertidos. Mas, enfim…

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O discurso de Phoenix foi muito mais que um ataque à imprensa – The New York Times e The Washington Post à frente – e às elites do establiment politicamente correto. Foi claramente o primeiro gesto concreto do candidato Donald J. Trump à sucessão do presidente Donald J. Trump em 2020.

Menos de um mês investido no cargo, em meados de fevereiro de 2017, veio a público a criação do comitê de campanha de Donald J. Trump para as futuras eleições presidenciais de 2020. Os líderes desse comitê não são republicanos. Eles compõem a “alt-right” – direita alternativa norte-americana. E foi essa “alt-right” que convocou os protestos em Charlottesville em nome da supremacia branca.

A ligação trumperiana a essa “alt-right” foi fecundada por Steve Bannon. Muito do fenômeno Trump, como sabido, é devido a Steve Bannon. E foi dele a ideia de se começar a angariar fundos para a campanha presidencial trumperiana de 2020.

Steve Bannon não esteve em Phoenix na última terça-feira. Mas o tom do discurso do presidente Donald J. Trump – e mesmo de seu vice, Mike Pence – foi claramente formatado por seus conselhos.

O foco de sua estratégia é conduzir os opositores do movimento trumperiano à discussão identitária. Os incidentes de Charlottesville tiveram, nesse sentido, imenso sucesso. Em evocando o pluralismo da democracia norte-americana garantido pela Constituição, o presidente Trump, segundo Steve Bannon, sempre tenderá a ter razão e a amplificar a sua credibilidade mesmo em setores hostis.

Esse foi o tom do discurso de Phoenix. Os dias dirão se com êxito. E, caso a presidência trumperiana consiga reduzir o desemprego nos Estados Unidos e consiga não receber o impeachment até 2020, Donald J. Trump estará certamente no páreo e, não restam dúvidas, esse discurso de Phoenix será lembrado como ato-fundador.

¹ https://www.youtube.com/watch?v=yBR6d4U0XV8

1 comentário

  1. Engraçado!…

    Parece que o nosso comentarista também é adepto da fake news.

    Não que eu queira defender Trump, mas parece sintomático dessa orquestração midiática demonizar qualquer outsider ao programa da Nova Ordem Mundial (a essas alturas já bem ultrapassada) patrocinada pelo Estado Profundo norte-americano, com qualquer invenção jornalística que esteja à mão.

    Nosso comentarista afirma que:

    “Os líderes desse comitê [de campanha de Donald Trump para 2020] não são republicanos. Eles compõem a “alt-right” – direita alternativa norte-americana. E foi essa “alt-right” que convocou os protestos em Charlottesville em nome da supremacia branca. A ligação trumperiana a essa “alt-right” foi fecundada por Steve Bannon.”

    Só que ele deveria conferir melhor suas fontes de informação. Ou, pelo menos, deveria fazer o exercício do contraditório, para ouvir o que o “outro lado” tem a dizer e se isso eventualmente faz sentido. Nesse caso, o que o outro lado (aqui, no caso, Steve Bannon) disse textualmente é isso (tradução logo abaixo):

    “Ethno-nationalism—it’s losers. It’s a fringe element. I think the media plays it up too much, and we gotta help crush it, you know, uh, help crush it more.”
    “These guys are a collection of clowns,” he added.
    From his lips to Trump’s ear.
    “The Democrats,” he said, “the longer they talk about identity politics, I got ’em. I want them to talk about racism every day. If the left is focused on race and identity, and we go with economic nationalism, we can crush the Democrats.”

    [“Etnonacionalismo? Isso é coisa de perdedores! É um elemento periférico. Acho que a mídia infla demais essa estória, e nós temos é que nos empenhar em acabar com ela. Entende? Acabar de vez.
    “Aqueles caras [de Charlottesville] são um bando de palhaços” – completou.
    Da boca de Bannon, para o ouvido de Trump:
    “Os Democratas (…) quanto mais falarem de política de identidade, mais depressa acabo com eles. Quero que falem de racismo todos os dias. Se a esquerda está focada em raça e identidade, e entramos com nacionalismo econômico, nós podemos esmagar os Democratas”.]

    A fonte dessa entrevista é um meio fortemente identificado com a esquerda: The American Prospect. A entrevista foi publicada qui: Steve Bannon, Unrepentant.

    A quem interessa, afinal, essa sumária imputação do palhaço do Trump à alt-right? Parece que estamos no campo do mero sensacionalismo.

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