O fator Montenegro, por Daniel Afonso da Silva

O fator Montenegro

por Daniel Afonso da Silva

Carece paciência a feitura de um balanço estratégico da turnê internacional que o presidente Donald J. Trump vem de concluir.

Encontros bilaterais e multilaterais animaram a semana do mandatário norte-americano. De 20 a 27 de maio, ele esteve além-fronteiras calibrando seu America first e também o seu White House remained.

No Oriente Médio, a agenda envolveu encontros com autoridades sauditas, israelitas e palestinas. Na Europa, foi o momento de ter com Sua Santidade no Vaticano, com os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Bruxelas e, para terminar, com os colegas do G7 na reunião na Sicília.

Decisões foram poucas. Decisivos foram os gestos.

As idas à Bélgica e à Itália eram moral, operacional e funcionalmente inevitáveis. Os Estados Unidos são fiadores da Otan e do G7 (outrora, G8).

No caso do primeiro, eles garantem e presidem. No segundo, o país é membro fundador.

A Otan vem de terminar sua nova sede em Bruxelas. Cabia ao seu presidente a inauguração.

A presidência italiana do G7 seguiu o calendário usual de reuniões e designou a Sicília para hospedar. Cabia ao presidente norte-americano, sem faltas e falhas, comparecer.

Nesse sentido, o aparato diplomático norte-americano forjou a aproximação das datas dos encontros incontornáveis e o entorno diplomático da Casa Branca otimizou a viagem incluindo demais destinos desejáveis ao presidente Donald J. Trump.

Na Arábia Saudita o objetivo foi demonstrar que os Estados Unidos passaram efetivamente a nova direção. E, nessa nova gestão, os pruridos do 9/11 e do decênio de guerras marinados nas eras Bush-Obama foram completamente superados.

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No espaço Israel-Palestina, a intenção foi lançar novas esperanças na resolução do conflito eterno. E, ao que tudo indica, conseguiu.

Falar com Sua Santidade era mais que decoro e mais que mera educação. A ida à Santa Sé foi um gesto retórico. Medido, contido e necessário. A intenção era lançar mão do prestígio e da lhaneza do Papa Francisco para reduzir a hostilidade generalizada contra o magnata-presidente.

A carantonha do argentino indicou, entretanto, que ainda é longo o caminho do mandatário norte-americano nesse sentido.

Em Bruxelas e na Sicília, os intentos oficiais eram multilaterais. Mas a diplomacia norte-americana preparou encontros de outras naturezas.

Na capital da União Europeia, a embaixada dos Estados Unidos virou o destino dos hóspedes. Nela, o presidente-anfitrião receberia vários dos representantes dos, agora, vinte e nove membros da Organização.

Passava em segundos das 13h da tarde da quinta-feira, 25/05, quando o recém-empossado presidente francês, Emmanuel Macron, adentrou a embaixada dos Estados Unidos em Bruxelas para um almoço de trabalho com seu homólogo norte-americano. Foi uma conversa, relativamente, rápida: 1h15. Pelos informes, amistosa. Pelos semblantes, proveitosa. Para todas as previsões, improvável. Mas foi o encontro mais importante, no plano simbólico e concreto, do presidente norte-americano na Europa.

Donald J. Trump e de Emmanuel Macron chegaram ao cargo máximo de seus países contrariando todas as previsões e muitos desejos.

Poucos candidatos foram tão abertamente contestados pela opinião pública como o norte-americano. Nenhum cidadão francês, de tão baixa estatura etária, ousara concorrer ao poder e ganhá-lo, como fizera atual locatário do Élysée, desde Luis Napoleão em 1848.

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O agora presidente norte-americano continua detestado em seu país e tende a ser recebido com pedidos de impeachment uma vez de volta à Casa Branca. Emmanuel Macron, por sua vez, esparge ares providenciais por toda parte. Em seu país, ele inibiu o imponderável de uma presidência de Marine Le Pen e é saudado por isso. Em seu continente, ele milita contra a desunião da União e recebe aplauso dos adeptos o Remain frente ao Leave que resultou no Brexit. Muito afora, em sociedades ocidentais cansadas de crises e temeridades do sistema político, ele desponta como a novidade democrática a ser seguida.

Foi, porquanto, o encontro dos improváveis.

Nada, no entanto, desse encontro guarda o glamour e a assertividade do momento De Gaulle-Kennedy, Mitterrand-Reagan ou mesmo Chirac-Bush. Ele simplesmente evidencia a fluidez no trato da conjuntura internacional.

Passou ao largo do noticiário, o ingresso de Montenegro na Otan. A passagem do presidente norte-americano por Bruxelas teve também o sentido de dar chancela a essa decisão que entra em vigência nas próximas semanas. Essa decisão corresponde a mais uma investida geopolítica transatlântica para isolar a Rússia. Como decorrência, voltam a emergir despojos do conflito Leste-Oeste.

As negociações para o fim da tensão Leste-Oeste – ou seja, da Guerra Fria – foram formalizadas, entre outros acordos, pela Carta de Paris de 1990 que interdita a ampliação territorial e militar da Otan no continente europeu. A adesão de Montenegro à Organização rompe esse acordo. Mas não é a primeira nem a segunda tampouco a terceira vez.

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A primeira ocorreu em 1999, com o ingresso de República Tcheca, Hungria e Polônia. A outra seria em 2004 com a adesão de Estônia, Latvia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia. A próxima foi em 2009 com o ingresso de Albânia e Croácia. Agora, 2017, foi a vez de Montenegro.

A Rússia de Vladmir Putin não costuma se calar diante dessas investidas. O imbróglio da Geórgia em 2008 e, mais recentemente, o da Ucrânia em 2014 estão inscritos em reações russas a ameaças de perda de espaço vital.

Não restam dúvidas da reação de Moscou frente à escolha de Montenegro. Os dias e meses dirão.

O quesito mais importante da turnê do presidente norte-americano – e, especialmente, em sua conversa com o presidente francês – foi, por certo, gerar solidariedade frente a essa hipotética reação. Os dias e meses, assim, demonstrarão.

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3 comentários

  1. Texto tecnicamente impecável

    Texto tecnicamente impecável mas vazio de conteúdo, típico dessa galerinha opaca das Relaçõs Internacionais. Joga com os fatos de acordo com o seu valor de face, sem nenhuma profundidade de análise, sem tomar partido de nada.

    “No espaço Israel-Palestina, a intenção foi lançar novas esperanças na resolução do conflito eterno. E, ao que tudo indica, conseguiu.” Sério isso? “Espaço Israel-Palestina”? Seria interessante ver quem na Faixa de Gaza deu algum testemunho de suas “novas esperanças”. Acho que entregar $110 bi em armas pra Arábia Saudita não sugere muita esperança pro Yemen, pra Síria, etc…

    E tem essa história de pintar o Macron como novidade. Ele mesmo, o filhote do Hollande. Tudo bem considerar o marquetim político na análise, mas usar um elemento de marquetim como se fosse verdade é muito fraco. Toda essa contraposição Macron-Trump do texto sofre do mesmo problema. O fato é que o Trump grosseiramente entregou a conta da OTAN aos europeus, que como bons cachorrinhos de Washington não abriram a boca. Merkel falou que Europa deveria cuidadr da própria vida, mas foi imediatamente desmentida no dia seguinte. Hoje, o assunto será: “Macron enfrete Putin com coragem blá blá blá”. Muito bem, Macron! Agora deita, rola, finge de morto.

    O negócio sobre Montenegro que é interessante. Pena que o autor desse texto perdeu a oportunidade de informar o leitor de todo o contexto da ofensiva da OTAN sobre a Rússia. Esqueceu de avisar que a relação entre esses países está tão ou mais tensa do que durante a crise dos mísseis. Jogou essa informação no ar como se fosse um canapé, em um baile diplomático.

     

     

     

     

  2. talvez o Daniel e o Fernando possam dar um “up” nos seus artigos
    Nassif e demais colegas,

    Caso sejam permeáveis a tal, sugiro aos colegas Daniel Afonso e Fernando Horta interarem-se com outro tipo de referências, não a acadêmica formal do lugar comum, pois como já comentei, escrever bem e fazer citações não torna ninguém sábio, e sapiência não depende de 3o. grau ou pós; depende, isso sim, de entender (e divulgar!) quem é o manipulador dos fantoches (quem manipula trump ou macron, p.e.) e quem dita as regras no conteúdo do que é divulgado pela MSM (main stream media ou mídia-máfia ou kabbalah midiática) para o público bovino.

    macron é outro fantoche da kabbalah financeira, como foram os famigerados presidentes do BC, armínio fraga, henrique meirelles, e não bastando os nacionais 5a. coluna, lesa-pátria, agora tem um israelense sionista, ilan goldfajn, empregado do itaú.
    Falando em sionistas, vc tem idéia do que estão passando os judeus negros em israHell?
    Limpeza étnica em Israel
    https://www.brasildefato.com.br/node/12072/
    ou
    Israel: judeus etíopes são confundidos com refugiados e agredidos
    https://www.terra.com.br/noticias/mundo/oriente-medio/israel-judeus-etiopes-sao-confundidos-com-refugiados-e-agredidos,271a8978358da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html
    ou
    Judeus etíopes cobram de Israel inquérito sobre contraceptivo polêmico
    http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/01/130123_israel_etiopes_gf.shtml

    (ou não interessa saber… falar da yade é mais prazeroso e “suave”, não?)

    Acho que vc está entendendo agora o que quero dizer com “dar nome aos bois”… precisa explicar mais ou fazer PhD para entender isso?

    No presente artigo, eis outro arrazoado de clichês, como foi o “A História, a Violência e como se fabricam narrativas conservadoras, por Fernando Horta”…

    Temos clichês de “esquerda” (Fernando) e temos clichês de MSM (Daniel)… e como já bem nos alertou Nelson Rodrigues (com seu providencial “Bonitinha, mas Ordinária”), não adianta um artigo formal bonitinho, mas de conteúdo estratégico ordinário.

    Reiterando minha opinião sobre o presente artigo, lembro ao Daniel outro artigo escrito sobre Rama Yade (Às voltas com Rama Yade, por Daniel Afonso da Silva)…
    Tanto o presente artigo, quanto o da yade, é uma coletânea de obviedades difundidas pela msm, ou seja, não tem valor estratégico nenhum para o público médio, que precisaria fazer um grande esforço para juntar alguns pontos relevantes, ler entrelinhas e tentar compor um quadro da realidade mais elaborado.
    Isso não funciona… é mais fácil, tanto para quem escreve, como para quem lê, quando se dá nome aos bois.

    Falar desse modo (citando montes de fatos não relevantes) sobre a Yade é o mesmo que falar muitos fatos irrelevantes sobre obomber (obama facilitador da kabbalah financeira, midiática e bélica); ambos traidores da causa negra e de governos populares (ou não alinhados com USraHell).
    Ao escrever obviedades fornecidas pela msm sobre a yade, parece , junto com esse artigo sobre trump, o estilo de um amauri ribeiro (perfeita nulidade) um pouco mais inteligente fazendo colunismo social na forma de artigos (onde perguntas óbvias e convenientes são enfatizadas e as perguntas inconvenientes NUNCA são feitas).

    Lembra o estilo do outro colega, Daniel, no artigo sobre violência.

    O que interessa à maioria das pessoas são as perguntas inconvenientes… as convenientes já tem “trocentos mil” escrevendo e reproduzindo o conteúdo que a kabbalah midiática nos impõe, ou seja, mais desinforma que informa.

    Daniel (e demais colegas), veja o comentário do Wilton Cardoso Moreira sobre seu artigo (Yade) para entender melhor a q estou me referindo.
    Se vc continuar com esse estilo, já pode ser o substituto do heraldo pereira (e isto não é um elogio, que o diga PHA… elogio é ser comparado, p. ex., a Mano Brown!!!).

    Quanto ao artigo do Fernado, sobre violência, falou de tudo, menos se a violência foi promovida por infiltrados da pm, exército ou grupos sabotadores de direita, se foi proveniente de grupos de esquerda, sabotadores ou não, usando a passeata como pretexto para sabotar a manifestação; se a liderança da passeata deveria filmar e expor os elementos violentos quebra-quebra na internet ou às autoridades.
    Concluindo, deveria fazer um paralelo dos resultados (midiáticos e estratégicos) conseguidos com ou sem violência.

    Estrategicamente, a curto, médio e longo prazos,
    A violência é benéfica para a esquerda?
    A violência é benéfica para a sociedade?
    A violência foi infiltrada ou espontânea?
    A violência é benéfica ao movimento “fora temer”?

    Mas não… o artigo ficou em um discurso hermético, um arrazoado de frases e referências bem construídas, mas… sem concluir absolutamente nada sobre a percepção que a sociedade teve disso ou se essa ferramenta (violência) foi usada estrategicamente a favor ou contra a passeata e a sociedade.
    Quer vantagens ou desvantagens a violência trouxe ou trará?

    Isso (essa leniência) do Fernando em não discutir resultados, apenas teorias “papo-cabeça”, tem um paralelo muito interessante com reuniões ou eventos de “esquerda”, quando, vira-e-mexe, meia dúzia de “esquerdistas(?) cabeça” fazem uso de drogas no meio do evento, até com a presença de crianças.
    Isso quando não trazem junto seus amiguinhos vendedores de drogas (maconha e cocaína no “pacote” básico, anfetaminas e micropontos de lsd ou “doce”, entre outros) para o evento.
    Esses visitantes-traficantes, sabidamente elementos que nada tem de esquerda ou algum tipo de ideologia (pois vendem a quem comprar, crianças inclusive), ficam andando no meio do evento com a maior cara de quem não está fazendo nada de mais, inclusive nem para conversar algo mais elaborado servem…
    Se tivessem alguma causa ou algum resto de inteligência, não estariam vendendo drogas.

    Nada contra quem queira usar por conta e risco próprios… Depois aguente o tranco e não vem chorar por ajuda dizendo que entrou em alguma fria com a polícia, que está precisando disso, precisando daquilo, que perdeu emprego ou que está devendo e correndo risco de morte.
    Então, use na sua casa (ou em ambiente reservado) e NÃO traga os seu amiguinhos traficantes para os eventos.
    Amigo dependente químico, por favor, use seu tóxico preferido em sua casa, incentive seus filhos, mulher, pai e mãe a usar drogas, traga o traficante para frequentar sua casa e ficar íntimo da SUA família, mas não para um ambiente que tem outras prioridades e pessoas que não estão a fim de aguentar conversa sem-noção de militante “miolo mole” (ou “miolo cozido”) e seus “amiguinhos” traficantes.

    Aí toda esquerda fica com fama de permissiva, tolerante ao uso de drogas e acobertamento de traficantes de graça… e a polícia, a mídia, e a direita em geral, usa esse fato (entre outros deslizes da esquerda) com maestria para desacreditar (e até criminalizar) movimentos populares ou de esquerda.
    (não precisam me dizer que a “direita” não faz uso dos “baguio”, inclusive alguns policiais (pc, pm e pf) para trabalhar “mais corajosos”, estudantes, executivos, médicos, políticos, artistas, etc; inclusive. Penso que todos cargos do funcionalismo público deveriam fazer exame anti-dopping periodicamente para ajudar dependentes com acompanhamento adequado e evitar alastramento dessa praga que é o uso de drogas, inclusive álcool… se quiser ser dependente químico sem fazer tratamento, então vai trabalhar na iniciativa privada!)

    Do mesmo jeito, o artigo do Fernado ficou devendo CONCLUSÕES (consequências estratégicas) sobre o uso (ou não) da violência dentro de manifestações.
    Foi incentivo de alguém?
    Foi sabotagem de agentes internos ou externos?
    Deve haver tolerância ou não?
    Como as lideranças deveriam se preparar e reagir à violência?

    Espero ter apresentado alguns pontos para vossa reflexão.
    Algumas colocações são opiniões minhas, mas baseadas em bom senso e experiênca pessoal, não em em “manias”, “teimosias”, “herança cultural”, ou coisas do tipo.
    Sou apreciador de teorias e soluções que funcionam, não de “papo cabeça” recheado de referência bibliográficas em fim de noite num boteco.

    Algumas sugestõe de links para artigos “fora da caixa”:

    http://www.paulcraigroberts.org

    http://www.voltairenet.org/es (espanhol)
    http://www.voltairenet.org/pt (português)

    http://www.telesurtv.net/seccion/news/index.html (esp, Venezuela)

    http://elterritoriodellince.blogspot.com.br/
    (esp; ótimo “explicador” de notícias; artigos detalhando vários assuntos)

    http://rebelion.org/ (esp; agregador de notícias; ótimos assuntos)

    http://resistir.info/ (port; agregador de notícias; ótimos assuntos)

    http://www.globalresearch.ca/ (ing; agregador de notícias; ÓTIMO)
    http://www.globalresearch.ca/category/portugues (port; às vezes muito defasado do site em inglês)

    – agências russas (novidades sobre o front) https://anna-news.info ou Ruptly TV https://ruptly.tv/home

    – Agencia Árabe Siria de Noticias – http://www.sana.sy

    – ou agência iraniana: http://en.farsnews.com/

    http://www.thesaker.is

    • corrigindo… “Amauri Ribeiro” é “amaury jr”, e “Quer” é “Que”
      Nassif, Daniel, Fernando e demais colegas,

      pequena (GRANDE) correção em uma de minhas citações:

      antes de mais nada, >>MIL DESCULPAS>Amauri Ribeiro

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