Resolução de Ano Novo: Acreditar em Democracia, por Nadejda Marques

Trump continua trabalhando metodicamente para que seus apoiadores sejam nomeados para cargos de fiscais de voto em municipalidades e estados.

Resolução de Ano Novo: Acreditar em Democracia, por Nadejda Marques

No aniversário do ataque ao Capitólio dos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021, analistas políticos enfatizaram a fragilidade do sistema democrático americano, assim como as suas deficiências e ressaltaram a falácia de ter os EUA como grande guardião da democracia mundial. Aliás, guardião democrático, nunca foram. Historicamente, na relação com outros países da América Latina, os EUA normalmente se posicionam contra tudo o que possa colocar em risco seus privilégios, lucros e ambições. Sempre que julgam necessário ou oportuno, entram em colisão direta contra a democracia desses países e apoiam regimes autoritários na região.

Essa postura não é muito diferente dentro dos Estados Unidos e, ontem, acelerando a decadência de um sistema que mantém em vigor eleições indiretas através do colégio eleitoral, os 50 senadores Republicanos se uniram contra dois projetos de lei que criariam normas nacionais para o acesso ao voto, inclusive o registro de eleitor automático e regras para ampliar a segurança eleitoral (os projetos Freedom to Vote Act e o John Lewis Voting Rights Advancement Act). As derrotas de ontem eram previsíveis uma vez que o Partido Republicano há anos promove mudanças que dificultam o acesso ao voto nos estados e afetam desproporcionalmente eleitores Afro-Americanos, Latinos, pessoas pobres e de comunidades tradicionalmente marginalizadas. 

Trata-se de uma batalha acirrada pelo controle do voto que se dá em três instâncias principais: nos estados, no Congresso e nos tribunais, inclusive na Corte Suprema. São cerca de 253 propostas de lei que tramitam em 43 estados como a Georgia, o Arizona e a Pennsylvânia que buscam implementar um processo eleitoral mais rígido inclusive eliminando a possibilidade do voto pelos correios ou mesmo que o registro de eleitor seja feito pelos correios. Lembrando aqui que o voto pelos correios foi fundamental durante a pandemia da COVID-19 e é prática comum entre muitos Republicanos inclusive o ex-presidente Trump.

Por falar em Trump, este continua trabalhando metodicamente para que seus apoiadores sejam nomeados para cargos de fiscais de voto em municipalidades e estados. Recentemente, ele declarou em video: “as vezes, aquele que conta os votos é mais importante do que o candidato.” Ele continua, sem evidências, a questionar o resultado das urnas e a promover campanhas de desinformação que ampliam a polarização política, a discórdia e, as vezes, promovem atos de violência.

Os elementos antidemocráticos já citados agora contam com uma nova dinâmica alarmante: a militarização dos grupos extremistas de direita. O congressista Democrata, Mark Takano, em entrevista ao jornal The Guardian, afirmou estar preocupado com a estratégia utilizada por grupos da extrema direita de recrutar ex-militares e veteranos americanos. Mark Takano tem razões de sobra para estar preocupado e para alertar a população americana (e talvez a todos nós). Ele é o chefe do Comitê do Congresso para Assuntos de Veteranos e tem acompanhado o aumento de casos de recrutamento envolvendo grupos da extrema direita e veteranos americanos nos últimos seis anos. Dos 738 acusados pelo ataque ao Capitólio, 81 tinham histórico nas forças armadas e cinco eram membros da ativa.

Embora as constatações sobre a democracia nos Estados Unidos não sejam novidade também não deixam de ser importantes. Delas, ainda neste ano, podem surgir mobilizações e transformações sociais importantes para os EUA e com repercussões para todo o mundo. Parafraseando o jornalista Bhaskar Sunkara, fundador editor da Jacobin Magazine, sobre a crise democrática americana, precisamos criar uma democracia na qual as pessoas possam acreditar e acreditar é fundamental para que se possa fazer.

Nadejda Marques é PhD em Direitos Humanos e Desenvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide (Sevilha, Espanha) e trabalha com direitos humanos há mais de duas décadas. Ela é autora de Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley (2018) sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício. Escreveu ainda o livro auto-bibliográfico chamado “Nasci Subversiva” sobre a ditadura no Brasil da perspectiva de uma criança.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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