50 anos da visita de Charles de Gaulle ao Brasil, por Daniel Afonso da Silva

No dia 13 de outubro de 1964, pelas 11 horas da manhã, aportava no Rio de Janeiro, vindo do Uruguai, o cruzeiro Colbert, trazendo a bordo o ilustre herói da resistência e da libertação francesa, o general-presidente Charles de Gaulle. Após longa tournée pela América do Sul – de 21 de setembro a 16 de outubro de 1964, ele passara por Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil –, o general escolhera o Brasil para finalizar seu percurso. Seu objetivo não era outro que redefinir o lugar de seu país na cartografia geopolítica mundial apresentando sua mensagem também ao povo brasileiro.

A humilhação de Vichy e o isolamento de depois fincavam marcas indeléveis na alma de cada francês, e no imaginário de todos nós. O anacrônico contencioso colonialista na Argélia aumentou esse mal-estar. Essas componentes precipitaram ocaso da 4ª república.

De Gaulle fora convocado, como homem providencial, para resolver esses problemas. Seu primeiro gesto foi de encontro aos argelinos – “Je vous ai compris”. O segundo compreendeu a fundação da nova república, a 5ª, com a redefinição das instituições e de seus princípios. O próximo passo induziu reposicionar a França no mundo.

A partir de sua “certaine idée de la France”, concluíra a França não deveria se render ao jugo da tensão entre o mundo livre e o mundo soviético. Enquanto país e civilização, sua France eternelle deveria “parler a tout le monde”. E, nesse sentido, servir de mediadora dos mundos. O livre, o soviético e o terceiro. Nesse último residia, pela convenção da época, a América do Sul e o Brasil.

No início do ano, 1964, o general promovera importante visita, em exclusivo, ao México. Mas os resultados estariam fadados ao fracasso. A gente de Paris subestimava o peso da influência dos Estados Unidos naquela parte das Américas. A partir de setembro, faria seu périplo pela América do Sul com fim no Brasil.

Eram diversas as razões de ir por último ao Brasil. Se por um lado o Brasil era reconhecido como o principal país da região, por outro, muitos problemas internos e externos circundavam a preparação da visita.

A pesca ilegal de lagosta, promovida por franceses em águas pernambucanas, causara disputas diplomáticas desgastantes e intermináveis nos anos anteriores. O general chegou a convocar o enviado brasileiro em Paris, o embaixador Carlos Alves de Souza, ao Quai d’Orsay para dirimir pessoalmente as questões e resolver a contenda. Dessa confusão surgiria o adágio “o Brasil não é um país sério”, proferido pelo brasileiro, mas atribuído ao general.

50 anos se passaram e nada conseguiu – nem consegue – reverter a mácula.

Além das lagostas, a situação econômica e fiscal brasileira não ia bem. Ficava mais e mais difícil planejar e definir razões concretas para a visita. Tudo ficou ainda mais nebuloso com o incidente de 1º de abril de 1964. Conquanto o general fosse general, sua mensagem era democrática. A democracia era a essência da France libre.

De toda maneira, confirmou visitar o Brasil.

No dia 13 de outubro de 1964, chegou ao país para uma estada de três dias. Do Rio de Janeiro iria direto para Brasília. Depois a São Paulo e, por fim, no Rio de Janeiro novamente.

Milhares de pessoas inundaram as ruas dessas cidades no intuito de ao menos pressentir a presença do general. Era uma presença verdadeiramente ilustre. Seu nome e seus feitos participavam do imaginário de todos os segmentos sociedade brasileira.

O governador Adhemar de Barros passara meses exigindo do cônsul geral da França em São Paulo, o ministro plenipotenciário Geoffroy de la Tour du Pin, que exercesse sua liderança para fazer o general passar mais tempo em São Paulo. Afinal, São Paulo era o lugar “mais importante”. Sendo assim, a melhor forma de cumprir a “hierarquia nacional” seria fazer o general passar 12 horas em Brasília, 24 horas no Rio de Janeiro e ao menos 36 horas em São Paulo.

Mais que isso, em São Paulo o governador fazia questão de receber o general em sua casa, o Palácio dos Campos Elíseos. “Comme ça – reiterava o governador paulista – le général pourra se croire à Paris”.

Pelo visto, o general não quis, no Brasil e em São Paulo, “se croire à Paris”.

Foi intensa a sua passagem por São Paulo no dia 14 de outubro, mas no dia seguinte, foi ao Rio de Janeiro para cumprir demais compromissos, entre eles, ir à Escola Superior de Guerra. Muitos militares brasileiros, inclusive o próprio marechal-presidente Castelo Branco, tinham formação francesa.

No dia 16, sexta-feira, cedo, 8h30, o general partiu, em regresso, rumo Orly. De volta a Paris, a América do Sul e o Brasil voltaram a ser terras, temas e problemas, distantes.

O presidente Geisel esteve em Paris em 1976 para pagar a visita do general doze anos depois. Em 1978, o presidente Valéry Giscard d’Estaing veio às rápidas ao Brasil. Após vencer o sufrágio do Colégio Eleitoral em janeiro de 1985, o presidente Tancredo Neves incluiu em seu tour du monde uma visita ao presidente François Mitterrand. Mesmo com a morte do colega brasileiro, o presidente francês veio ao Brasil em outubro daquele ano retribuir o gesto.

Com os mandatários seguintes – Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy; Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva – ocorreu ampla intensificação da relação franco-brasileira. Diversos níveis de cooperação foram estabelecidos ou fortalecidos. Da área militar à educacional à cultural.

Nesses 50 anos, o Brasil jamais compreendeu o núcleo dos interesses exteriores franceses e a França, em mesma medida, jamais esteve no centro das atenções brasileiras. Mas são dois parceiros fraternos cuja força e importância da relação, desde os tempos do general, só fazem aumentar.

Daniel Afonso da Silva é professor da Universidade Estadual da Paraíba.

 

5 comentários

  1. Paises amigos, mas não parceiros

    Tinha de ser governador de São Paulo… Mais caipirice que isso ? O que mudou de um Adhemar para um Alckmin ? Não é o mesmo estilo ?

    A infeliz frase do embaixador brasileiro, que parecia ser mais francês que brasileiro, deixou um estigma no imaginario europeu sobre o Brasil. E que prevaleceu graças ou por causa de alguns autores, que muito idealizaram o Brasil, como uma terra exotica.

    De la pra ca, acho que os dois paises continuam meio distantes. Como se da parte de cada um, o outro fosse, talvez, um enigma a ser decifrado.

    • Maria Luiza:
      A França,pais da

      Maria Luiza:

      A França,pais da cultura, do debate, da plena liberdade politica não existe mais desde o final dos anos 60.

      La aconteceu, em 68, a primeira “primavera”, ainda sem o facebook.

      A primeira grande manobra politica de uso do “fervor juvenil”, como as “manifestações de junho” daqui, com o objetivo de desestabilizar o governo.

      A “rapaziada” francesa gritou, gritou, botou fogo em pneus e o resultado foi que o governo caiu nas mãos da direita.

      Aquela França não existe mais.

      Hoje é mais um estado americano no solo da Europa.

      Os franceses deixaram de comer as maravilhosas baguetes , as trocando por hamburgues do Mac Donald.

      • Ledo engano

        Caro colega, creio haver um grande equívoco no seu comentário . A França está longe de ser um “país americano na Europa”, basta ver as relações diplomáticas com vários países do globo. Para nós brasileiros, não precisamos de visto para visitar e temos grande abertura para estudar nas universidades francesas. Sobre o “abandono do baguete” se você estiver se referindo a cultura francesa, apesar de ter sua essência imaculada, muita coisa mudou, assim como está mudando em todo o globo: Bem vindo a globalização. Se o seu comentário for ipsi literis, basta perguntar a um francês se como se pronuncia MacDonald’s, seria algo como Maquidonalde (en portugais), nós brasileiros que nos rendemos ao gordo “maclanchefeliz”. Não sei se você residiu no belo país francofôno, mas pelas suas palavras creio que você é mais um esquerdista que, ao ver a política nacional mudar para a oposição de direita, acredita ser o fim de toda a história de liberdade, igualdade e fraternidade defendida pela França. Ja diria Giambatista Vicco: “A história é cíclica”, ou seja, podemos entender que o cenário político muda, fatores sociais refletem na oscilação entre direita e esquerda, entre conservadores e liberalistas. Agora dizer que a França é EUA: T’es fou ou quoi?

  2. Faltou dizer que quem

    Faltou dizer que quem desenvolveu as técnicas de tortura empregadas no Brasil a partir de 1964 foram os franceses, que as ensinaram aos mestres dos brasileiros na Escola das Américas. 

    • Prá que pedir ajuda a

      Prá que pedir ajuda a franceses e americanos? O Brasil já tinha a expertise em torturas e assassinatos políticos herdados da DESPS do Estado Novo de Getúlio Vargas.

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