Às voltas com François Mitterrand, por Daniel Afonso da Silva

Às voltas com François Mitterrand, por Daniel Afonso da Silva

O biênio 2015-2016 movimenta o mercado editorial francês em torno de François Mitterrand (1916-1996). 2015 sagrou vinte anos do fim de sua presidência (1981-1995) e em 2016 serão lembrados os vinte anos de sua morte ocorrida no 8 de janeiro de 1996 assim como os cem anos de seu nascimento no 26 de outubro de 1916.

Dezenas de livros foram publicados neste ano e outros vários o serão nos próximos meses. François Mitterrand de Michel Winock, Le monde selon Mitterrand de Michèlle Cotta, Dictionnaire amoureux de François Mitterrand de Jack Lang, François Mitterrand – de l’intime au politique de Éric Roussel, François Mitterrand – portrait d’un ambigu de Phillip Short e François Mitterrand – journées particulières de Laure Adler Short são alguns dos títulos mais festejados sendo que François Mitterrand de Michel Winock vem de receber o prestigioso prêmio do Senado francês como livro do ano.

Esse verdadeiro passar a limpo da longa trajetória pública e privada desse imperioso político francês impõe a forte impressão de ele realmente fascina, pois sua vida foi um absoluto romance. Um romance à antiga. Com suspense, amor, traição, poder, disputa, morte e ambição.

Mitterrand foi o mais jovem ministro francês em janeiro de 1947, aos 30 anos de idade, após ser eleito deputado em 1946. Ele ocuparia pastas ministeriais de importância até 1957 às vésperas do retorno do general De Gaulle. Forte oponente do herói maior da France libre, Mitterrand o denunciaria de promover um “coup d’État” com seu retorno à vida pública em 1958. Ainda descontente, Mitterrand iria ao limite de desafiá-lo nas eleições presidenciais de 1965 e conseguindo ir ao segundo turno e levando 44,80% dos votos.

Após De Gaulle, Mitterrand afrontaria Valéry Giscard d’Estaing nas urnas em 1974 e 1981. Em 1974 seu escrutínio fora de 49,19%, mas insuficiente. Em 1981 ele venceria com 51,75% e seria o primeiro socialista a presidir o país depois da segunda guerra mundial.

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A França – e o mundo – parou para assistir sua investidura. O 10 e o 21 de maio daquele ano de 1981 eternizariam a praça da Bastilha e do Panteão como redutos da esquerda mundial e de toda esperança que ela ainda encarnava.

Das primeiras decisões do presidente Mitterrand foi compor seu governo com ministros comunistas o que causaria o maior frisson naqueles idos da guerra fria. Em seguida ele aboliria a pena de morte, nacionalizaria cinco grupos industriais e 39 bancos, estabeleceria a aposentadoria aos 60 anos, descriminalizaria o homossexualismo, promoveria o fim do monopólio estatal da radiodifusão, criaria a política do preço único para livros, implantaria no calendário nacional a festa da música, inauguraria o Musée d’Orsay, o Instituto do mundo árabe, a pirâmide do Louvre e a pedra fundamental da Biblioteca Nacional de France. E faria muito mais ao longo de seus quatorze anos de poder. No plano internacional, a manutenção da boa relação com a Alemanha foi claramente dos seus trunfos mais importantes. Com Helmut Kohl ele seguiria a tradição de boa-vizinhança iniciada por De Gaulle-Adnauer e sucedida por Giscard-Schmidt. O resultado disso foi a consolidação da União Europeia com a assinatura do tratado de Maastricht em 1992.

Mas trovoadas e tempo feio também compuseram seus dias no poder. Após derrota de sua coalizão à esquerda nas eleições legislativas de 1986, o presidente socialista se viu obrigado a convocar lideranças de direita a compor o governo. Jacques Chirac, prefeito de Paris e seu concorrente nas eleições de 1981, seria empossado primeiro-ministro e os franceses começariam a viver sua primeira coabitação política com presidente de esquerda e primeiro-ministro de direita. Essa experiência desconfortável e constrangedora a todos os implicados iria até a reeleição de 1988 quando François Mitterrand bateria justamente Jacques Chirac nas eleições, mas seria retomada em 1993 quando com Édouard Balladur.

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Além dos fortes protestos contra a reforma escolar proposta em 1984, Mitterrand seria posto em constrangimento quando da revelação, em 1994, de sua participação no governo do marechal Pétain durante a ocupação nazista da França, 1940-1944, e de filha Mazarinne Pingeot que era fruto do relacionamento de Mitterrand, fora do casamento com Danielle Mitterrand, mantinha com Anne Pingeot havia mais de trinta anos. Esses escândalos de estado seriam amenizados pela constatação do estágio avançado do câncer de próstata que o vitimaria anos depois.

Nascido na esteira do massacre de Verdun – das mais cruéis batalhas franco-alemãs da primeira guerra mundial –, Mitterrand viveu os extremos do século e soube de alguma maneira retirar a lição.

Diante do apequenamento político francês atual que indica a possibilidade verossímil do partido de extrema-direita, o Front National, de Marine Le Pen chegar ao poder do país, parte importante dos franceses sente imensa nostalgia dos tempos Mitterrand.

Pesquisas de opinião indicam que, depois do general De Gaulle, ele foi para os franceses quem melhor encarnou dos negócios do país. Sua postura de estadista continua sendo lembrada e reconhecida mesmo pelos que historicamente lutaram contra ele. A ausência de políticos de seu naipe, na França e mundo afora, talvez seja a razão genuína dessa verdadeira obsessão em revistá-lo.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

 

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2 comentários

  1. eles e nós
    Diz seu texto: “Sua postura de estadista continua sendo lembrada e reconhecida mesmo pelos que historicamente lutaram contra ele.”

    Quando comparamos os dirigentes franceses, falando só do periodo pós 45, com os brasileiros dá vontade de chorar.

    Nunca na hisotira de nosso pais tivemos uma geração tão mediiocre.

  2. Esse não faz nenhuma falta.

    Foi com Mitterand que o partido socialista francês começou a se afundar e chegar ao estágio atual. Mitterand inaugurou uma outra vertente do neoliberalismo: o travestido de social democracia, ao mesmo tempo que Tatcher fazia o neoliberalismo aberto e sem máscara na Grã-Bretanha. Obvio, sendo um colabô ajudou a iniciar a destruição da esquerda francesa. E ao que parece deixou adeptos no mundo tudo, inclusive no Brasil….

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