Brexit em contexto, por Michael Spence

Votação sobre saída da UE não envolve apenas questões econômicas

Jornal GGN – Os debates em torno do referendo a ser realizado no Reino Unido no próximo dia 23 tem ganho força diante do impacto que sua decisão pode acarretar sobre os mercados globais, mas analistas pedem que a questão seja avaliada com um pouco mais de perspectiva.

“Não acredito que os estrangeiros contribuam utilmente mediante a emissão de opiniões fortes sobre como os cidadãos de um país, ou aqueles de uma unidade maior, como a União Europeia, devam decidir quando confrontados com uma importante opinião política”, explica Michael Spence, vencedor do Nobel de Economia e professor da Universidade de Nova York, em artigo publicado no site Project Syndicate. “Os nossos conhecimentos, com base na experiência internacional, às vezes podem ser úteis, mas nunca deve haver uma confusão sobre a assimetria de papéis”.

A votação sobre o referendo britânico, na visão do articulista, já está próxima e existem eleitores indecisos o suficiente para influenciar qualquer um dos lados. Contudo, a fragmentação política e social que se vê ao longo da Europa (e fora dela) pode ajudar a colocar um pouco de perspectiva no que está em debate.

“Primeiro, não é nenhuma surpresa que, em termos de distribuição de renda, riqueza e custos e benefícios forçados pela mudança estrutural, os padrões de crescimento na maior parte do mundo desenvolvido têm sido problemáticos durante os últimos 20 anos”, diz Spence, ressaltando que fatores como a globalização e alguns aspectos da tecnologia digital tem afetado o trabalho e a polarização de renda, pressionando a classe média em todos os países.

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Além disso, a crise na Europa (mais como uma condição crônica) têm mantido o crescimento baixo e o desemprego “inaceitavelmente” elevado, com impacto direto sobre os jovens. “E a Europa não está sozinha”, diz o articulista. “Nos Estados Unidos, enquanto a taxa de desemprego oficial caiu, as falhas em grande escala em termos de inclusão tem alimentado o desencanto – tanto na esquerda como na direita – em padrões e políticas de crescimento que parecem favorecer de maneira desproporcional aqueles que estão no topo”.

Outro ponto citado pelo articulista é que a União Europeia enfrenta, em sua forma mais grave, um problema existente em grande parte do mundo desenvolvido. “forças poderosas que operam fora do controle das autoridades eleitas moldam a vida dos cidadãos, deixando-os com a sensação de importância”, diz Spence. “Mas enquanto todos os países precisam lidar com os desafios da globalização e da evolução, elementos importantes de governança na UE estão fora do alcance das instituições democráticas, pelo menos para aqueles que as pessoas entendem e se relacionam”.

Na visão de Spence, o quadro na zona do euro é “‘particularmente instável’ devido à alienação crescente dos cidadãos da elite; a falta de mecanismos convencionais de ajustamento econômico (taxas de câmbio, inflação, investimento público, e assim por diante); e limites rígidos sobre transferências fiscais, que enviam sinais poderosos sobre os limites reais de coesão”.

E o chamado Brexit é uma parte deste drama. O articulista diz que a questão está diretamente ligada à governança, e não à economia. “De um ponto de vista estritamente econômico, os riscos tanto para o Reino Unido e no resto da UE são quase inteiramente do lado descendente. Mas se isso era tudo o que havia para o problema, o resultado seria uma conclusão precipitada em favor da permanência”. Já o verdadeiro problema – uma auto-gerência eficaz e inclusiva – não é fácil de se resolver uma vez que forças como a ruptura tecnológica não respeitam as fronteiras nacionais. “Em parte, os britânicos votarão sobre se sua capacidade de navegar em águas turbulentas será ampliada ou reduzida com a associação á UE. Mas uma questão mais fundamental sobre identidade política estará em jogo – assim como era no referendo sobre a independência da Escócia em 2014”.

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(tradução livre por Tatiane Correia)

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2 comentários

  1. Um resumo de um ótimo artigo

     

    Jornal GGN,

    Este post “Brexit em contexto, por Michael Spence” de quarta-feira, 22/06/2016 às 11:20, trazendo um resumo do artigo “Brexit in Context” de autoria de Michael Spence e publicado no site do Project Syndicate é um bom post que de certo modo serve para corrigir a má qualidade de post anterior tratando do mesmo assunto e intitulado “O impacto da Brexit sobre a economia global, por A.Kaletsky” de sexta-feira, 17/06/2016 às 18:15, trazendo também um resumo do artigo “Brexit’s Impact on the World Economy” de autoria de Anatole Kaletsky e que fora publicado também no site Project Syndicate.

    O endereço do post “O impacto da Brexit sobre a economia global, por A.Kaletsky” é:

    http://jornalggn.com.br/noticia/o-impacto-da-brexit-sobre-a-economia-global-por-akaletsky#comment-947723

    Deixei o endereço do meu comentário junto ao post “O impacto da Brexit sobre a economia global, por A.Kaletsky”, porque lá eu faço uma relação de posts que analisam a saída da Inglaterra da União Europeia. É bem verdade que quase todos os posts que eu indico fazem a análise mais sobre o aspecto econômico.

    Vou transcrever a parte final do meu comentário onde há os links para os posts. Disse eu lá:

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    “Agora, há muitos bons artigos ou posts discutindo esse assunto. Só no blog de Simon Wren-Lewis – Mainly Macro – e que estão na primeira página hoje, 22/06/2016, há os seguintes posts com referência ao referendum: a) “Why defeating Brexit is so importante” de quarta-feira, 22/06/2016, b) “Brexit and the Left” de terça-feira, 21/06/2016, c) “More on Brexit and the politicisation of truth” de segunda-feira, 20/06/2016, d) “Brexit despair” quinta-feira de 16/06/2016, e e) “Defending George Osborne on Brexit once again” de quarta-feira, 15/06/2016. E no blog de Paul Krugman foi publicado recentemente o post “Notes on Brexit” de domingo, 12/06/2016 às 01:13 pm. E hoje aqui no blog de Luis Nassif saiu o post “Brexit em contexto, por Michael Spence” de quarta-feira, 22/06/2016 às 11:20, fazendo referência a artigo de Michael Spence publicado também no site do Project Sydicate, mas com um conteúdo bem mais assertivo e conclusivo do que o artigo de Anatole Kaletsky.

    Os endereços dos mencionados post são:

    1) Para o post “Why defeating Brexit is so importante”:

    https://mainlymacro.blogspot.com.br/2016/06/why-defeating-brexit-is-so-important.html

    2) Para o post “Brexit and the Left”:

    https://mainlymacro.blogspot.com.br/2016/06/brexit-and-left.html

    3) Para o post “More on Brexit and the politicisation of truth”:

    https://mainlymacro.blogspot.com.br/2016/06/more-on-brexit-and-politicisation-of.html

    4) Para o post “Brexit despair”:

    https://mainlymacro.blogspot.com.br/2016/06/brexit-despair.html

    5) Para o post “Defending George Osborne on Brexit once again”:

    https://mainlymacro.blogspot.com.br/2016/06/defending-george-osborne-on-brexit-once.html

    6) Para o post “Notes on Brexit”:

    http://krugman.blogs.nytimes.com/2016/06/12/notes-on-brexit/?_r=0

    e 7) Para o post “Brexit em contexto, por Michael Spence”:

    (Aqui vou retirar o link para não ficar repetitivo)

    E o artigo de Michael Spence publicado no site do Project Syndicate, em 20/06/2016, com o título “Brexit in Context”, pode ser visto no seguinte endereço:

    (Aqui vou retirar o link para não ficar repetitivo, observando que infelizmente no original eu havia colocado o mesmo endereço do post)

    Ao que parece, após a morte de Helen Joanne “Jo” Cox, parlamentar britânica que defendia a permanência, a tendência da votação mudou e a popularidade da permanência cresceu e a Inglaterra deve permanecer na União Europeia (e não Comunidade Europeia, como eu havia redigido no texto original). É esperar para ver.

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    Então é isso, parece não haver dúvida que seria ruim a saída da Inglaterra da União Europeia sob o aspecto econômico. Há que ver outros aspectos, principalmente o problema de distribuição de renda que ao que parece tem sido o fator mais relevante na tomada de posição em favor ou contra a permanência da Inglaterra. Os mais pobres querem que a Inglaterra saia. Provavelmente pensam que a opção por pertencer à União Europeia os faz mais pobres. Pelo texto de Michael Spence percebe-se que não é por essa razão, mas é preciso que se enfrente o problema da má distribuição de renda que vem piorando no mundo desenvolvido desde o final da década de 70.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 22/06/2016

    • Um link para os links do comentário anterior que não abrem

       

      Jornal GGN,

      Os links não saíram no meu comentário acima. Aliás havia enviado o mesmo comentário anteriormente e ele não foi publicado. Da segunda vez que enviei o meu comentário mudei o formato dos links, mas vejo que os endereços disponibilizados não permitem o acesso. Como em meu comentário para o post “O impacto da Brexit sobre a economia global, por A.Kaletsky”, há os mesmos links e eles permitem o acesso, ou vou deixar aqui o link para o post “O impacto da Brexit sobre a economia global, por A.Kaletsky”, na expectativa de que agora seja possível acessar os posts e artigos disponibilizados.

      Então, o endereço do post “O impacto da Brexit sobre a economia global, por A.Kaletsky” junto ao meu comentário é:

      http://jornalggn.com.br/noticia/o-impacto-da-brexit-sobre-a-economia-global-por-akaletsky#comment-947723

      E como complemento deixo o link para o post “Bolsa cai 1,34%, no aguardo do referendo britânico” de quarta-feira, 22/06/2016 às 20:57, trazendo matéria de Tatiane Correia sobre o referendo na Inglaterra e com a sua griffe “Jornal GGN”. O endereço do post “Bolsa cai 1,34%, no aguardo do referendo britânico” é:

      http://jornalggn.com.br/noticia/bolsa-cai-134-no-aguardo-do-referendo-britanico

      A matéria vincula a queda na bolsa brasileira ontem à procura por opções mais seguras às vésperas da votação do referendum. No fundo trata mais de jogo em que alguns com poder econômico aproveitam para obter mais lucros e dada a vantagem de entrarem no jogo com mais poder, acabam realizando o lucro previsto.

      Clever Mendes de Oliveira

      BH, 23/06/2016

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