Foi uma vez Mitterrand, por Daniel Afonso da Silva

França, março de 1993.

O partido socialista do presidente François Mitterrand vinha de ser massacrado nas eleições legislativas. A oposição levara mais de 80% dos assentos parlamentares. O partido RPR de Jacques Chirac elegera 247. O partido UDF do ex-presidente Valery Giscard d’Estaing, 213. A aliança à esquerda formada pelo partido socialista e pelo partido comunista tivera ao todo 93 eleitos. 70 socialistas; 23 comunistas.

Esse cenário obrigou o presidente da república a convocar uma liderança da oposição para o posto de primeiro-ministro. O indicado foi Édouard Balladur, deputado de Paris pelo RPR, partido de direita.

Começava assim a segunda coabitação da presidência Mitterrand e da Vª república francesa. A primeira ocorrera entre 1986 e 1988 quando Jacques Chirac, líder da oposição, ocupara o cargo de primeiro-ministro.

A experiência da coabitação não passa sem marcar. Beira a suspeição incontinente de dormir com o inimigo que se quer eliminar.

Jacques Chirac e François Mitterrand eram adversários políticos desde os tempos do general De Gaulle. Eles disputaram as eleições presidenciais em 1981. Chirac perdeu e se transformou no principal líder da oposição. Diante da crise política de 1986 ele seria convocado a liderar um governo. Virou primeiro-ministro sem esconder suas intenções de concorrer nas eleições presidenciais de 1988. Sua relação com o presidente Mitterrand foi a mais dura e contundente possível. Ele e seus ministros vindos de partidos de oposição eram tratados com a frieza discreta dos competentes algozes verdugos políticos.

As eleitorais de 1988 chegaram. François Mitterrand e Jacques Chirac foram ao segundo turno. O desprezo do primeiro pelo segundo era explicitamente evidente e até constrangedor. Tanto que num memorável debate eleitoral televisionado, o presidente-candidato trataria o primeiro-ministro-candidato de simplesmente “meu primeiro-ministro” como quem diz “minha ingrata criatura”.

Mitterrand fora reeleito. Chirac saíra do governo. O novo primeiro-ministro seria novamente socialista. No caso, Michel Rocard sucedido por Édith Cresson e Pierre Bérégovoy.

Mas eis que os ventos das eleições legislativas de 1993 trariam de volta a oposição para o governo.

O repúdio à presidência socialista era generalizado desde o primeiro mandato de Mitterrand. A euforia de maio de 1981desaparecera completamente. A partir de 1988 a situação tendia a ficar pior. A economia francesa vivia momento preocupante. O país amargava a pior recessão do após 1945. As contas públicas estavam em déficit e confusão. A confiança no país seguia em queda.

A resposta veio nas urnas. O PS fora dizimado.

Participado do resultado das urnas, ao presidente Mitterrand restava contatar o chefe da oposição, à ocasião novamente Jacques Chirac, para voltar a Matignon como primeiro-ministro. O trauma da experiência precedente fizera Chirac declinar indicando Balladur.

Eram fins de março. Dia 29. Foi nesse dia o primeiro encontro do presidente socialista com seu futuro primeiro-ministro. Balladur diferente de Chirac mantinha perfil discreto e pouco afeito ao afrontamento. Mesmo assim seu governo seria recebido com fleuma.

Mas nessa altura a trajetória controvertida do presidente socialista já não mais pertencia aos anais secretos do estado. Todos sabiam do avanço de seu câncer e do quão progressivamente debilitado seguia exercendo suas funções presidenciais. Eram poucos a ignorar a existência de sua família paralela e de sua filha Mazarine Pingeot. Os rumores de seu apoio ao governo de Vichy e ao marechal Pétain estavam em vias de passarem à condição de constatação. Une Jeunesse Française de Pierre Pean iria trazer à evidência o passado colaboracionista – e não resistente – do agora socialista e presidente da república.

Nada disso fazia de François Mitterrand um presidente e/ou um homem frágil. Muito do contrário. Em todos esses contratempos ele preferia sofrer e suportar em silêncio. Diferente de seu primeiro-ministro Pierre Bérégovoy que diante da pressão advinda do martírio da solidão absoluta poder preferiu o suicídio como libertação dando-se um tiro na própria cabeça a 1º de maio de 1993 após o resultado das legislativas de março. E também diferente de seu amigo e assessor especial da presidência François de Grossouvre, responsável por manter em segredo a existência de sua família paralela e especialmente de sua filha Mazarine, que escolhera a morte para certamente encurtar os constrangimentos dos descaminhos do poder.

Após, então, empossar o novo primeiro-ministro no dia 29 de março de 1993, o presidente socialista convocaria o primeiro conselho de ministros com os novos ministros vindos da oposição – além de Balladur, Simone Veil, Alain Juppé, Nicolas Sarkozy e François Fillon – para o imediato dia 2 de abril. Esse seria o início da hora da verdade dos humores dos tenores. Onde se iria verificar se os interesses do estado estavam realmente acima das veleidades pessoais. E assim se daria.

Diante da exclusividade do momento, presidente e primeiro-ministro concederiam entrevistas à grande imprensa. O presidente Mitterrand recebeu jornalistas em seu birô no Élysée. A primeira questão foi a mais reveladora dos ares vindos das ruas. Um jornalista perguntou diretamente ao presidente: “Senhor presidente, diante desses contratempos todos, por que o senhor não renuncia?” Mitterrand, como sempre, iniciou respondendo com o olhar. Depois com seu típico não-sorriso. Em seguida com os ombros. Depois com as mãos. E novamente com o matreiro olhar. Tudo em segundos. Antes de retorquir verbalmente seu interlocutor dizendo: “não renuncio porque fui eleito. Eleito para um tempo determinado. E é normal que eu cumpra esse tempo. Não é?”

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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4 comentários

  1. Com certeza: o compromisso do

    Com certeza: o compromisso do presidente eleito não é só com a governança e o povo em geral. Mas, também, e principalmente, com os eleitores que o elegeram. 

    • Amnésia seletiva

      Por isso digo que Dilma esqueceu quem a elegeu, para seu segundo periodo de inquilina do Alvorada,  O que esta sendo feito na economia é o fato inconteste desta, pois a conta vai estourar na mão do proletariado, defendendo o setor rentista com uma taxa de juros ao redor de pornográficos 14%; abrindo as comportas para a legitimação do desemprego, pois o que o trabalhador tem a não ser a força do seu trabalho? E como diz o Nassif nove em cada dez economista sabia, mas ela escolheu o décimo, Levy.

      Nem aos de seu partido ouve. A semelhança com a fase terminal da administração FHC é  de dar taquicardia.

  2. Parabéns, Daniel. Esse texto

    Parabéns, Daniel. Esse texto é bem diferente daquele que vc escreveu sobre o Kissinger. Este tem bem menos citações, menos pedantismo, é mais informativo, enfim, um texto gostoso de ler. Deixar o academicismo na academia é sinal de inteligência se quiser conquistar as ruas. Palavras de um acadêmico.

  3. muito relevante

    A comparação subliminar é muito relevante: Mitterand é conhecido como o primeiro a começar a decandencia da social democracia européia ao se render ao então nascente neoliberalismo.

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