Na agonia do voto, por Daniel Afonso da Silva

Na agonia do voto, por Daniel Afonso da Silva

Os franceses irão às urnas nas próximas semanas para eleger seus representantes regionais. Será a primeira manifestação política massiva após os atentados de 13 de novembro de 2015. Uma abstenção de importância segue fortemente prevista. Uma abstenção que preocupa, pois joga água nos moinhos do Front National de Marine Le Pen.

As eleições departamentais francesas de março de 2015 tiveram os membros do FN como favoritos em função dessa abstenção e as eleições regionais das próximas semanas sugerem a mesma situação.

O progresso do FN decorre de muitas variáveis, algumas estruturais e outras conjunturais, da história política francesa e europeia dos últimos trinta anos.

O soluço da disputa presidencial de 1988 virou o susto das eleições de 2002 quando Jean-Marie Le Pen chegou ao segundo turno contra o candidato-presidente Jacques Chirac. O “não” francês à constituição europeia em 2005 foi considerado outra vitória virtual dessa fração da extrema direita europeia. Durante toda a gestão da crise financeira de 2007-2009 os Le Pen foram os mais decididos e eloquentes críticos das políticas de relance identificando essencialmente os imigrantes como os responsáveis de todos os males. Mas desde a transição da presidência Nicolas Sarkozy à François Hollande quando o esgotamento da capacidade política de superação das crises – financeira, econômica, social, educacional, securitária, imigratória etc. – ficou explícito vem sendo observada uma decisiva progressão eleitoral do FN.

Desde o início de seu mandato, o presidente Hollande vem se mostrando impotente diante dos desafios e não ao acaso ele coleciona os mais baixos índices de popularidade da Vª república francesa.

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Sua reação aos atentados contra os satíricos do Charlie Hebdo no 7 de janeiro de 2015 o fizeram superar o inferno da rejeição que lhe tocava viver ao menos desde a revelação de seu caso extra-conjugal em inícios de 2014. Após as mobilizações sob o estandarte do Je suis Charlie pelas ruas de Paris no dia 11 de janeiro de 2015 ele subiria 21% na aferição de credibilidade frente aos franceses saindo de 9 para 30% de aceitação. Essa sobrevida foi uma das responsáveis pela contenção da voracidade do FN nas eleições departamentais de março de 2015.

No primeiro turno daquele escrutínio tudo indicava que os adeptos de Marine Le Pen levariam a maioria das circunscrições. Mas na passagem ao segundo turno, o partido socialista – auxiliado pelo partido Les républicains do presidente Sarkozy – foi capaz de evocar o espírito político do Je suis Charlie para mobilizar os franceses às urnas e impedir a consagração do FN.

Após os incidentes franceses da sexta-feira, 13/11, e das duas semanas de luto finalizadas pela homenagem nacional às vítimas realizada no Hotel dos Inválidos na sexta-feira, 27/11, o presidente Hollande ganhou nova sobrevida. Galgou 22 pontos em sua cota de popularidade. Saiu de 28 para 50% de aprovação.

Em função dos atentados todos os partidos suspenderam as suas campanhas pelas regionais. Ao retomá-las nesta semana constataram novamente imenso desinteresse dos eleitores em comparecer às urnas. Isso tem produzido novamente a emergência do fantasma FN. Ainda não se sabe se a nova sobrevida da presidência Hollande será capaz de novamente contê-lo. Espera-se que sim. Mas a agonia política francesa continua.

 

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Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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