Olhos de Medusa, por Daniel Afonso da Silva

Olhos de Medusa, por Daniel Afonso da Silva

Gérard Colé e Jacques Pilhan. Dois nomes, dois homens. Desprezados na França. Abandonados no mundo. Desconhecidos no Brasil. Eles dois ajudaram a mudar, à tout jamais, a história da França, do mundo e do Brasil. Pioneiros na percepção da importância da comunicação como ferramenta política decisiva, elegeram e reelegeram e eternizaram – com muitos outros, evidentemente – François Mitterrand.

Paris, fevereiro de 1980. Mitterrand era hesitação mesmo entre os seus correligionários do partido socialista. O favorito do partido era Michel Rocard. O favorito a vencer era o presidente Valéry Giscard d’Estaing.

Os que festejaram, em maio de 1981, a vitória de Mitterrand pelas ruas do mundo, ou esqueceram esse fato ou supervalorizavam a força teleológica de certa ortodoxia esquerdista.

Milagres não existem. Sorte, talvez, para alguns. O fenômeno da multiplicação dos votos de fevereiro de 1980 a maio do ano seguinte não dependeu de milagre. Da sorte, se dependeu, foi muito pouco. Dependeu, isso sim, de muito trabalho e determinação. Fortuna e virtù. De Mitterrand e suas circunstâncias.

Esse já senhor, nascido em 1916, filho das guerras, que viveu Vichy, depois a libertação, o fim da quarta república, a independência da Argélia, o general De Gaulle, Georges Pompidou e agora Giscard d’Estaing, era reconhecido como homem do passado. Velho, frustrado, socialista. Excêntrico, agressivo, perdedor.

Como diria o inventor de Les Misérables: “vrai ou faux, ce qu’on dit des hommes tient souvent autant de place dans leur vie et surtout dans leur destinée que ce qu’ils font”. Nesse sentido, o homem público vira muito refém de sua imagem. Imagem não passa de impressão. Impressão sempre pode mudar.

Foi essa a convicção de Gérard Colé e Jacuques Pilhan ao considerar François Mitterrand um produto promissor mal aproveitado. Promissor por, especialmente, expressar, entre outros predicados, as inspirações da geração que fez o maio de 68 francês. Desaproveitado por vir sendo pouco capaz de demonstrar sua força e valor.

Nesse sentido, a estratégia geral de comunicação para o grande público, informada por Colé e Pilhan, teve dois objetivos incisivos concomitantes. Construir Mitterrand e destruir Giscard d’Estaing. A tática foi impor à imaginação coletiva “l’homme qui veut” (Mitterrand) contra “l’homme qui plaît” (Giscard d’Estaing).

A idade de Mitterrand foi trabalhada com vistas a transparecer sabedoria e paz interior. Suas fixações intelectuais – Mitterrand era leitor contumaz, sobretudo de história e literatura – passaram a ser expressão de realismo e sinceridade do homem próximo do povo capaz de explicar assuntos complexos e delicados de modo simples. Suas derrotas, que remontavam mais de trinta anos, viraram mostra de pessoa verdadeira, que prefere ser veraz a agradar. Sua tenacidade foi convertida em coragem de homem de estado.

Giscard d’Estaing, ainda embebido dos impactos da crise do petróleo e da financeirização do mundo na França, passou a ser descrito como o homem do passivo. Aquele que agrada, mas não resolve os problemas do povo: à época como hoje, o desemprego. Sobretudo por ser – esta foi a imagem que lhe colaram – distante da realidade cotidiana. Bem nascido, bem criado, rico. Burocrático, cínico, vencedor. Ou seja, o inverso do povo; o avesso ao citadino.

Essa “manipulação” de imaginários – desde sempre conhecida, mas, até então, não decididamente empregada profissionalmente ao serviço do homem público – teve êxito e ficou. Levou Mitterrand a permanecer e superar toda sorte de crise jurídica, pessoal e política.

A coabitação – inaugurada quando seu direto opositor político Jacques Chirac foi convocado para compor o governo como primeiro-ministro – foi, talvez, olhando de longe, também, manobra política para massacrar o oponente. Não por acaso, quando da campanha de 1988, Mitterrand se dirigia desdenhosamente ao seu rival na corrida eleitoral – por acaso um certo Jacques Chirac – chamando-o simples e jocosamente de “meu primeiro-ministro”.

A mensagem subliminar foi ficando evidente. Mitterrand era o presidente, o poderoso, o potente onisciente. Chirac, o “simples” primeiro-ministro.

A força dessa imagem ficou e ensinou. Desde aí, a comunicação vem sendo incontornável como projeto. Ainda por 1980s, gente de Washington singrava o Atlântico para se apoderar da estratégia e sofisticá-la ao seu consumo. No caso de Gorbachev, por envolvimento de Mitterrand, os próprios Gérard Colé e Jacques Pilhan foram ao seu encalço em paragens de Moscou.

Para o caso brasileiro, nada comprova, mas o mais próximo e presente, ao momento, talvez tenha sido Fernando Affonso Collor de Mello. Nordestino, alagoano, jovem, bonito, vivaz, viril, determinado, incorruptível, apreciado, racional, o novo.

Notícias do planalto de Mário Sérgio Conti demonstra a força da imprensa na feitura da ascensão e queda desse homem. Evidencia o poder do marketing político na construção e destruição da imagem do presidente Collor.

As aparências e as palavras, aqui, podem enganar; e enganam. Marketing e propaganda são diferentes de estratégia de comunicação. O paralelo, se procedente for, Mitterrand-Collor fala mais que tudo.

O perdedor que vence (Mitterrand). O vencedor que passa a viver a solidão dos moribundos antes, durante e depois do impeachment (Collor).

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

 

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1 comentário

  1. Em algum momento a estratégia

    Em algum momento a estratégia de comunicação precisa ser “comprada” pelas redações. É o que os candidatos da direita no Brasil conseguem sempre automaticamente, seja por ordem direta, por sedução do “mundo chique” ou por temor reverencial ao marqueteiro da moda.

    Por isso a surpresa que foi o “lulinha paz e amor”, frase pronunciada por Lula na TV e rapidamente aproveitada por Duda Mendonça, que pautava as redações com toda força que seu sucesso econômico da época conseguia junto aos “coleguinhas” (e que foi a razão de sua desgraça, mais adiante). Nem o “lulômetro” foi suficiente diante do “agora é Lula”, “Carta aos Brasileiros” e o desemprego de 20%.

    A liderança de Lula foi tão explícita que a leitura sintetizada em seguida não poderia ser mais precisa: “a esperança venceu o medo”.

    Um amigo que estudava na França no momento da eleição de Mitterrand narrou um episódio acerca da vitória do candidato socialista.

    Num debate d’Estaing faz uma pergunta do tipo que chamam de “técnica” sobre o Orçamento para Miterrand. Esse inicia a resposta em tom veeemente de crítica ao ar “professoral” do aristocrata d’Estaing: “não sou seu aluno!”, em algum momento pronunciou…. Era tudo que a “geração de 68” gostaria de ouvir. Foi um dos pontos altos de Mitterrand.

    Os efeitos dos choques do petróleo, claro, tiveram sua importância.

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