“Querela” Le Pen (II): causo de família, por Daniel Afonso da Silva

“Querela” Le Pen (II): causo de família, por Daniel Afonso da Silva

Nanterre, 4 de maio de 2015.

O birô executivo do Front National se reuniu para decidir o destino de seu fundador e presidente de honra, Jean-Marie Le Pen. Após longas perorações ficou decidida a sua suspensão do partido. Doravante ele deixa de ter direito de falar em nome do Front National. Uma assembleia geral extraordinária será convocada para que os afiliados deliberem sobre a preservação ou não de seu título de presidente de honra.

A reação de Jean-Marie Le Pen, pai da presidente do partido, foi franca e direta : “Il ne sert à rien de parler au nom du Front national, je parle au non de Jean-Marie Le Pen, c’est une référence pour un certain nombre de gens.” Na sequência da catilinária ele afirmaria: “J’ai honte que la presidente du Front national porte mon nom. J’aimerais qu’elle le perde le plus rapidement possible.”

O duelo pai-filha ganhou, assim, novo contorno.

O rompimento parece sem volta.

Eles não se falam desde os incidentes de inícios do último abril, quando Marine Le Pen repreendeu as assertivas de seu pai publicadas no Rivarol – na ocasião Jean-Marie Le Pen reiterara a esse periódico de extrema-direita que o marechal Pétain, em sua visão, não teria traído a França ao capitular aos nazistas em 1940.  

No evento do Front National para 1º de maio, na última sexta-feira, em Paris, pai e filha foram indiferentes um ao outro. Jean-Marie Le Pen acedeu, sem ser convidado, ao palanque montado no bairro Ópera, instantes antes de sua filha discursar. Cumprimentou os militantes e se foi sem aguardar o pronunciamento oficial de Marine Le Pen.

A manifestação das garotas do femen – que protestaram desnudas desde a varanda de um hotel – participou o interesse da impressa durante todo o fim de semana. As moças em protesto foram brutalmente caladas pelos guardas do Front National. Esse incidente reduziu a curiosidade sobre o birô executivo que decidiria a sorte de Jean-Marie Le Pen na segunda-feira, 4/5.

Marine Le Pen não retirou nenhuma de suas reprimendas ao pai. Reafirmou a necessidade de lhe conferir uma punição disciplinar por suas manifestações – muitas delas racistas – inadequadas a um responsável político.

Por quase unanimidade Jean-Marie Le Pen foi suspenso do partido que ele próprio criou em 1972. Um momento triste evidentemente. Não por ser Jean-Marie Le Pen um ancião de 86 anos. Não por continuar tendo manifestações indefensáveis e irresponsáveis. Não por aparentar estar esclerosado. O evento foi triste por se tratar de mais uma cena de uma querela de família. Em causos de família, filhos deveriam respeitar e honrar os pais. Não foi esse o caso. Disso ressente Jean-Marie Le Pen.

No afã de encontrar racionalidade na querela familiar que envolve o Front National, muitos analistas sugerem que o afastamento de Jean-Marie Le Pen abre página alvissareira na história do partido. Esse raciocínio supõe que isso aceleraria a desdiabolização do partido e a galvanização do caminho para a chegada Marine Le Pen à presidência da França. Entretanto, não parece ser bem totalmente assim.

Os Le Pen são aos distintivos do Front National. Esse partido francês de extrema-direita, ultranacionalista e de filiações católico-conservadoras sempre se quis diferente dos demais partidos. Mais republicado e mais patriótico. Genuíno e puro. Nada sugere que Marine Le Pen deseja transformar seu Front National em um partido como os outros. Esse seria o resultado do exorcismo total. Ela claramente não quer isso. Tampouco pode querer.

Nesses meses e anos de querelas familiares entre Jean-Marie Le Pen e sua prole, os princípios do partido jamais foram solapados. Do contrário, seguem consistentes e constantes como sempre. Apenas a linguagem vem sendo adaptada. Menos polêmica, mais assertiva.

Mas o espaço no Front National foi ficando pequeno para pai e filha.

A transição familiar no interior do partido foi bem sucedida. Jean-Marie Le Pen legou sua presidência à Marine Le Pen. Mas a “candura” desta desgosta aquele. O sentimento paternal e paternalista conduz o pai a acreditar que a filha não está totalmente preparada para o posto tampouco para presidir a França. A ânsia de poder da filha entende o pai como antiquado. A disputa é familiar. E não deve ser interpretada de maneira diferente.

Ao requisitar o sobrenome Le Pen da filha – “J’ai honte que la presidente du Front national porte mon nom” –, Jean-Marie vai ao limite do afrontamento. Ele e todos sabem que o Front National são os Le Pen. O partido pode sobreviver sem Jean-Marie Le Pen. Mas provavelmente não permaneceria sem os Le Pen. Malgrado seus mais de quarenta anos existência, o partido continua um negócio familiar. Jean-Marie Le Pen está em vias de confrontar um parricídio. Triste. Filhos não deveriam afrontar seus pais. Mas acontece em algumas famílias.

 

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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8 comentários

    • Athos, o direitismo de Marine pode ser diferente do pai.

      Athos a história dos dois é totalmente diferente, o velho foi moldado nos rescaldos da França colonial, lutou na legião estrangeira e levou pau dos vietnamitas e com um discurso racista e antissemita ficou rico.

      A filha tem pretensões políticas e se criou numa França do pós-guerra onde a imagem do Império francês foi desvanecendo, se divorciou algumas vezes, por que eles não poderiam ter opiniões diferentes?

      Talvez o velho seja um nazi-facista e a filha somente uma facista!

      • Primeiro vc tem que

        Primeiro vc tem que diferenciar nacionalismo do discurso racista, muito embora na história tenham andado juntos. O importante é que há diferença.

        Eu não estou dizendo que ele não seja racista. O que digo é que ele nunca teve este tipo de discurso. A partir desta constatação podemos concluir que de fato ALGO mudou. O que foi que mudou?

        O que mudou foi a necessidade de SEU partido mudar o discurso. Mas como se faz isso?

        Assim ó!

         

        O velho era nacionalista. Nunca pregou inferioridade de povos. Pregava a França para os Franceses que é diferente do discurso “somos superiores”.

        Cuidado pois muita gente não consegue visualizar a diferença conceitual fundamental dos discursos.

        Agora, quando se está virtualmente aposentado, ele vem com essa de racista.

        Tudo foi combinado para PODER ASSIM mostrar a filha como diferente.

         

        Não há radicalização de discurso de quem está aposentado. O que há é a necessidade DA FILHA de se diferenciar do PAI.

        Pronto, job done! Well done!

        Ela vai ganhar votos como defensora da igualdade de raças, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

        kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, extrema direita defensora da igualdade, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

         

        Está feito!

         

        • Ora, ora, ora, o integralismo brasileiro era fascista mas…

          Meu caro Athos, não é tão piada assim, o integralismo brasileiro, um movimento fascista não era racista. Muito pelo contrário o Integralismo dentro da sociedade da época era um dos movimentos junto com os partidos de esquerda que tinham em seus quadros vários negros.

          Talvez os integralistas, tenham sido os primeiros a denunciar as tendências rascistas de Hitler, inclusive sendo na época proibido na Alemanha os livros de Plínio Salgado.

          Desde o manifesto que lançou o Integralismo, já havia uma denúncia contra o rascismo.

          Logo, temos aí uma tendência fascista que não era racista!

           

  1. Não concordo.

    Já no primeiro artigo discordei do autor que via um mero jogo de cena entre Marine Le Pen e seu pai. Por coincidência estava na França em 2002 durante o primeiro grande embate do Front Nacionale com os partidos tradicionais franceses, o PS e a direita tradicional, como também estava na França durante as últimas eleições municipais francesas.

    Em 2002 Jean-Marie le Pen conseguiu ir ao segundo turno e lá mostrou o limite que o Front Nacionale poderia atingir sobre o mando do velho presidente do Partido, o PS apoiou claramente Jacques Chirac do outrora poderoso ( Rassemblement pour la République) RPR, que sucedeu uma série de partidos de centro direita e foi sucedido por outra série de outros partidos de centro direita.Para se entender a política francesa tem-se que entender as diversas correntes políticas que se sucedem após a 2ª Guerra. 

    A chamada centro direita francesa tem tanta mudança de nomes de partido do que os partidos de direita brasileiros, pode-se após a segunda guerra identificar algumas dezenas destes partidos, que se divedem e mudam de nome conforme o gosto e divergência de seus caciques, e cada vez mais vem se distanciando do Gaulismo tradicional perdendo a sua identidade de nacionalsmo e independência política típica do velho General Charles de Gaulle. Atualmente quem é mais forte é Nicolas Sarkozy, que está muito longe do Gaulismo e adota um discurso mais liberal do que qualquer outro.

    O tradicional Partido Socialista francês que tem suas origens nos ditos socialistas utópicos, começa como partido em 1831 e tem como característica básica viver de votos dos partidos mais a esquerda e também levar estes partidos que o apoiam a falência (o último foi o Partido Comunista Francês). Também o partido Socialista tem como características de tomar as decisões erradas em momentos decisivos, como na primeira grande guerra e também de se comportar como um partido social-democrata quando assume o governo.

    Além destes dois grandes grupos a França sempre teve partidos mais a esquerda que o PS francês, que algumas vezes apoiam este último e principalmente se agrupam em torno dos dois grandes grupos quando a extrema direita aparece.

    No meio de uma imensa confusão aparece o Front Nacionale. Criado por Le Pen (o velho) e cresce no meio da adversidade com um discurso xenófobo, racista e nacionalista. Ele atinge com esta composição ideológica o máximo da representação em 2002 quando Jean Marie Le Pen chega ao segundo turno com uma pequena margem de votos acima do candidato do PS. Com este susto a sociedade francesa reage como um todo dando ao candidato centrista 82% dos votos.

    Com esta derrota Marine Le Pen, que na época tinha 34 anos talvez tenha notado que se ela tivesse algum futuro político ela tinha que se livrar de algumas plataformas do Front Nationale de seu pai.

    A medida que Marine subiu na hierarquia do partido ela foi abandonando itens que são caros a extrema direita francesa, como o antissemitismo a homofobia e adotou um discurso anti globalização, anti livre comércio e a favor do aborto, este discurso  já empregado nas últimas eleições que o Front Nationale participou, e o mais surpreendente além deste discurso Marine promoveu atos simbólicos como a expulsão de Alexandre Gabriac ou o apoio ao vice-presidente do Front Nationale. Porém mesmo com a mudança de Marine le Pen, nas últimas eleições municipais tanto a direita tradicional como o PS conseguiram colar a imagem do Pai na candidatura da filha.

    Talvez para descolar totalmente da imagem do pai, Marine adotou um discurso mais duro contra ele, e atualmente isto incomoda tanto o PS como a direita tradicional, pois ela pode adotar por incrível que possa parecer um discurso anti Europa como várias tendências de esquerda europeia estão adotando.

    É interessante que o articulista adota um discurso emocional a favor de Jean Marie le Pen, dizendo: “O evento foi triste por se tratar de mais uma cena de uma querela de família. Em causos de família, filhos deveriam respeitar e honrar os pais. Não foi esse o caso. Disso ressente Jean-Marie le Pen.”, ou seja, que Marine le Pen deveria continuar aceitando os discursos paternos por ser filha, como se a política fosse feita desta forma.

    O que ocorre vai repercutir seriamente nas futuras eleições francesas, pois se a direita tradicional se apresentar dividida, o PS desgastado e Marine conseguir relembrar o velho discurso do General de Gaulle, as chances dele chegar no segundo turno aumentam, e neste momento a sociedade francesa certamente não vai ter a mesma reação que teve em 2002.

     

  2. Ao RDMaestri.

    Prezado RDMaestri,

     

    aprecio a agudeza de suas impressões, a força de suas convicções e a gentileza de seus ricos comentários e a elegância de suas discordâncias. Sim, discordamos. Vejo o folhetim dos Le Pen de modo diferente.

    Considero como mero caso de família seguido de jogo de cena.

     

    O FN atém uma contradição estrutural. Ele não distingue público e privado. O que impera sobre as agremiações políticas de crédito.

     

    No excerto – “O evento foi triste por se tratar de mais uma cena de uma querela de família. Em causos de família, filhos deveriam respeitar e honrar os pais. Não foi esse o caso. Disso ressente Jean-Marie le Pen.” – que Vc comenta, procurei, em verdade, mais ironizar que tomar partido em favor do senhor Le Pen.

    Jean-Marie Le Pen, penso, está, sim, desconsolado. Não consegue entender como sua filha pôde lhe lançar esse petardo. Ele não está pensando em Marine Le Pen como presidente do partido. Esta, por sua vez, não está golpeando o presidente de honra do partido imaginando matar seu pai.

     

    Como vejo que aprecia o tema, deixo como sugestão o muito ilustrativo “Adieu Le Pen” de Serge Moati.  https://www.youtube.com/watch?v=Tkn0Jn9APoI

     

    Sobre sua impressão de que “o que ocorre vai repercutir seriamente nas futuras eleições francesas”, sinceramente não me parece. Os principais observadores da cena política francesa não consideram dessa maneira. Suspeito que tenham razão. Mas, na dúvida, aguardemos.

     

    Mais uma vez, obrigado pela sua elegante discordância.

     

    Abraços,

     

    Daniel.

     

     

     

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