Saída britânica da UE é clímax de roteiro escrito há tempos

Medida deve levar à revisão de contratos comerciais, e a incertezas no curto prazo

Jornal GGN – Os resultados do referendo no Reino Unido mostram que um total de 51,89% dos eleitores britânicos apoiaram a saída do bloco, que o país participava há mais de 40 anos, contra 48,11% favoráveis à permanência na UE, o que levou à renúncia do primeiro-ministro David Cameron, que era a favor da manutenção do país no bloco econômico.

“O evento de hoje é o clímax de um roteiro que vem sendo escrito há algum tempo, e que pode levar ao declínio do projeto Europeu estabelecido no ambiente de pós-guerra, onde o pano de fundo desse processo é a insatisfação dos cidadãos britânicos com os encargos impostos em termos de contribuição à União Europeia em um ambiente de crise econômica acentuada no continente”, explica a corretora BB Investimentos, em relatório assinado pelos analistas Fabio Cesar Cardoso e Carlos Eduardo Daltozo. “Essa situação se deteriorou a partir da crise dos refugiados de regiões de conflito no Oriente Médio. Embora eventos dessa magnitude precisem de tempo para serem melhor analisados, a principal consequência de curto prazo é abertura de um precedente para que outras nações europeias sigam o Reino Unido”.

Os analistas ressaltam que outros países que estão sofrendo pressões de conservadores e têm importantes eleições este ano podem começar a considerar o mesmo movimento. Em um primeiro momento, a Escócia voltou a discutir o referendo sobre a independência do país do Reino Unido, ao passo que a Irlanda já debate sua integração com a Irlanda do Norte. Na Europa, representantes da extrema-direita holandesa sinalizam um referendo sobre a saída do bloco europeu, e a movimentação favorável à retirada britânica foi igualmente elogiada por representantes da direita francesa e do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump.

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Logo no começo do dia, o mercado global operava em queda generalizada, com os investidores procurando ativos considerados mais seguros, em um movimento denominado como fly to quality. A cotação da libra apresentou perda recorde e chegou a cair mais de 11% em relação ao dólar. Às 14h20, a cotação da divisa no Brasil operava em queda de 7,10%, a R$ 4,6450.

Para o investidor europeu, o principal risco é o de desintegração da União Europeia, o que poderia ter impactos incalculáveis sobre o crescimento econômico global, em ambiente já desinflacionário, e mantida em pé sob os efeitos dos programas monetários dos principais Bancos Centrais. “Em relação ao Federal Reserve, o banco central norte-americano dificilmente conseguirá elevar a taxa de juros como planejado este ano, e pode até mesmo provocar nova rodada de afrouxamento monetário emergencial. Os bancos centrais britânico e europeu afirmaram que estão prontos para fornecer fundos adicionais para sustentar os mercados financeiros”, explicam os analistas.

Em termos econômicos, a medida vai levar à revisão de uma série de tratados comerciais entre o Reino Unido (RU) e todos os demais países com quem este faz negócios, uma vez que muitos deles fazem parte dos acordos negociados em conjunto com a União Europeia (UE). De acordo com os analistas do BB, cerca de 50% das exportações do RU vão para a Europa, o que leva a crer em uma inevitável renegociação de acordos entre o Reino Unido e a UE.

“É possível que Noruega e a Suíça, países não pertencentes à União Europeia, sejam beneficiados para a realização de tratados comerciais com o RU. Por outro lado, a incerteza deve prevalecer neste primeiro momento, pois fica a dúvida o quão duros na negociação os países líderes da EU podem ser em relação ao Reino Unido, e além disso, como poderá ser a barganha que as demais nações usarão nas negociações com o Reino Unido que acaba de adotar uma posição isolacionista”, pontuam os analistas.

Segundo o economista Guilherme Magalhães, do Itaú Unibanco, o principal impacto no curto prazo é a maior incerteza política na região, o que deve levar a um crescimento menor. “A intensidade deste impacto ainda é incerta, mas os efeitos provavelmente são administráveis. Neste ambiente, a política monetária global deve ser mais expansionista. No longo prazo, a perspectiva para a economia global parece mais frágil. As incertezas devem permanecer elevadas durante a reformulação da região. Caso ocorram novas rupturas, o risco pode se tornar sistêmico, com impactos relevantes para toda a economia global”.

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Em nota, Magalhães diz que o menor crescimento nos países avançados tende a transbordar para os países emergentes. “Os preços das commodities tendem a cair e as moedas da região a se desvalorizar, com efeitos incertos sobre a inflação. Por outro lado, a política monetária global será mais expansionista, sustentando o fluxo de capital para os mercados emergentes. Hoje, os bancos centrais em todo o mundo estão comunicando sua capacidade de gerar liquidez e tomar medidas necessárias. Neste ambiente, a nossa visão é de que o Fed, o banco central americano, não deve subir os juros no horizonte próximo, o que diminui a pressão de depreciação sobre as moedas dos mercados emergentes”.

No Brasil, o Banco Central declarou em nota que “está monitorando continuamente os desenvolvimentos nos mercados global e doméstico em razão da decisão manifestada pelos cidadãos britânicos no plebiscito de ontem e, caso necessário, adotará as medidas adequadas para manter o fncionamento normal dos mercados financeiro e cambial”.

Segundo informações da Agência Brasil, o chefe do Departamento Econômico da autoridade monetária, Tulio Maciel, declarou que a saída do Reino Unido da UE agrega incertezas no curto prazo ao mercado brasileiro, mas que o BC está preparado para essa situação. “É possível que a gente observe oscilações nos preços de ativos, como, de fato, já tem observado nos mercados. Cabe reiterar que o Banco Central está preparado para situações dessa natureza”, disse Maciel. Sobre as exportações e importações, o representante do BC disse que apenas 1,5% do comércio do Brasil é feito com o Reino Unido. “O impacto no curto prazo é limitado. A gente prevê mudanças muito graduais nesse processo de saída.”

11 comentários

  1. Nassif
    Quer entender a

    Nassif

    Quer entender a geopolítica do BREXIT, olhe para a Alemanha e a Primeira Ministra da Europa (Angela Merckel) e verás o que está por trás disto.

     

    • Concordo. E com informações equivocadas.

      “Os analistas ressaltam que outros países que estão sofrendo pressões de conservadores e têm importantes eleições este ano podem começar a considerar o mesmo movimento. Em um primeiro momento, a Escócia voltou a discutir o referendo sobre a independência do país do Reino Unido, ao passo que a Irlanda já debate sua integração com a Irlanda do Norte.”

      A Escócia votou majoritariamente pela permanência na UE. Então, não se trata de considerar “o mesmo movimento”. É justamente o contrário. Por ser favorável à permanência é que a Escócia pretende convocar outro referendo sobre a independência. Já quanto à Irlanda, é o oposto: trata-se do Vice-Primeiro Ministro da Irlanda do Norte que está pensando em convocar um plebiscito para votar sobre a união da IN com a RI e não o contrário (a República da Irlanda debater a integração coma Irlanda do Norte).

  2. A saída da Inglaterra, a meu

    A saída da Inglaterra, a meu sentir, não deve causar impacto nos mercados. Acho até que para nós, ela estar atrelada à UE ou não é irrelevante

    A Inglaterra nunca aderiu 100% à União Européia. Ela não aderiu por exemplo na questão monetária mantendo a libra esterlina como sua moeda. Ou seja não é uma ruptura tão grande como se a Alemanha resolvesse sair da UE. A Inglaterra manteve-se atrelada estritamente àquilo que antes se chamava de mercado comum europeu.

    Além de nunca ter aderido 100% à União Européia, a Inglaterra históricamente nunca se portou como parte da Europa mas a parte dela. E não se pode esquecer da sombra que a Alemanha lançou na Inglaterra com seu dominio sobre as decisões da UE.

     

    .

  3. Desde quando o GGN chama corretores e analistas de mercado….

    Desde quando o GGN chama corretores e analistas de mercado para falar de política internacional?

    Fiquei atônito com o artigo que o GGN escreve sobre as consequências do Brexit, foram consultados uma corretora do BB e dois analistas de bancos!

    Compnheiros destes analistas em 2008 quando todos falavam em bolha e na possibilidade de uma nova crise eles continuavam investindo exatamente nisto, há inclusive um filme norte americano que mostra que somente uma pequeníssima parcela destes senhores conseguiram antecipar qualquer coisa. São iguais aos burocratas de Bruxelas que alavancaram a direita inglesa a ter o sucesso que tiveram, quem participa do crime não tem muita clareza em analizá-lo.

    A ideia basica da Comunidade Européia no início da mesma era quebrar as disputas nacionalistas internas e criar um espírito europeu, isto foi conseguido para aqueles que conseguiram se beneficiar com uma Europa unida, porém os ex-operários ou filhos destes da época pré-comunidade estão ficando de fora da festa, eles não são cidadãos europeus, são desempregados ou sub-empregados ingleses, franceses, alemães e outros.

    A maior falha de todo o sistema europeu foi a incapacidade de gerar mecanismos de mobilidade vertical que permitissem os operários do passado ou seus filhos e netos participarem do crescimento da Europa.

    • Erasmus

          O  ” Programa Erasmus ” não teve “porta de saida “, portanto os mecanismos de mobilidade vertical ficaram dependentes das variações da economia da Zona do Euro, tanto que apesar da mobilidade de Schengen, muitos profissionais com curso superior, muito bem formados, até mesmo multiculturais dentro da realidade européia, com idade entre 25 – 35 anos formam um dos grandes contingentes de desempregados e/ou subempregados, os quais mesmo com qualificações que os permitem trabalhar nos 27 paises da falecida “Eurolandia”, quando conseguem um emprego, vão ganhar menso que seus pais, e sem acesso ao colchão social anterior.

    • Grande artigo, a relevância dos ingleses é baixa mesmo

      Não é de hoje que a relevância da Inglaterra têm caido, de bom hoje eles ainda têm a The Economist, mas mesmo esta já não é a mesma coisa e nem goza do mesmo prestígio de antes.

      Quando eles ficaram preocupados de perder o posto de sétima economia no mundo para o Brasil, deixaram claro que a decadência estava avançando rapidamente.

  4. O que falta na Europa é mobilidade vertical e protagonismo dos..

    O que falta na Europa é mobilidade vertical e protagonismo dos descendentes das classes trabalhadoras.

    Muitos se perguntam por que da revolta dos ingleses contra a Comunidade Europeia e os votos nos movimentos populistas de direita em toda a Europa, se pode pensar que as pessoas que recebam todos os recursos de estados de Bem Estar Social, não deveriam reclamar tendo uma série de direitos e ajudas.

    Porém as pessoas confundem conforto e segurança mínima do Estado de Bem Estar Social a satisfação pessoal de cada um com mobilidade social e falta de protagonismo que se baseia todo o discurso Europeu. Espantam-se também pela revolta contra o “establisment” político-burocrático europeu que na realidade fornecem a estes revoltados todos os benefícios sociais que conhecemos. Estes que não entendem porque da revolta esquecem que as pessoas não vivem só de comida!

    Por mais que se criem mecanismos de garantia social, de serviços públicos com relativo sucesso a Europa tem um sistema de ensino associado a um sistema de progressão social que torna extremamente difícil a carreira de um jovem filho ou neto de operários aos cargos mais altos tanto das carreiras públicas como das carreiras em instituições privadas.

    A imensa maioria dos filhos e netos das classes proletárias em ascender a altos postos de trabalho na administração pública e privada. No exemplo francês, por exemplo, se tu és egresso de uma grande escola (grande escola são escolas de engenharia, de administração pública e de outros setores que são as melhores ranqueadas no sistema de ensino superior) tu terás garantido no setor público vagas para os egressos destas assim como nas empresas privadas serás recebido de braços abertos para tanto. Porém para ascender a estas grandes escolas terás que fazer um curso preparatório em instituições especiais para este fim (Classes  Préparatoires aux Grandes Écoles – C.P.G.E.) desde que tenha conseguido um bom resultado no BAC (exame semelhante ao ENEN, só que diferenciado conforme a carreira a ser desejada).

    Dos anos 40 até os anos 70 vários estudos realizados provam que a dificuldade de entrada nas Grandes Escolas aumentou após os anos 80 ou seja no sentido contrário do que se pode pensar (vide Diversité sociale dans les classes préparatoires aux grandes écoles : mettre fin à une forme de « délit d’initié » Publicação do Senado Francês), a diferença é tanta que em 2002 os alunos nas Grandes Escolas eram distribuídos na seguinte proporção conforme a “Origem sócio profissional do pai)

    Agricultores 3,5%

    Operários 5,2%

    Empregados 5,7%

    Artesãos 6,36%

    Aposentados 7,2%

    Profissionais de nível médio 10%

    Quadros superiores e profissionais liberais 67,5%

     

    Em resumo, profissionais de nível superior, que são uma minoria na França, conseguem colocar 67,5% de seus filhos nas grandes escolas, enquanto filhos dos demais só 32,5% entram nas Grandes Escolas.

    Por outro lado o Sistema Educacional Francês permite o ingresso livre nas Universidades em que recebem milhares de títulos diversos, e com um bom diploma conseguem se não ficarem desempregados um emprego de “technicien de grande surface” (faxineiro de supermercado).

    Em toda e Europa se reproduz o mesmo tipo de cenário, os grandes cargos e empregos são reservados para a elite da “meritocracia”, enquanto para os filhos do proletariado é reservado um diploma para ficar desempregado e ganhar um auxílio desemprego ou um emprego bem abaixo da formação acadêmica do mesmo.

    Esta falta de mobilidade social cria uma verdadeira revolta contra os chamados burocratas em geral e da Comunidade Europeia em particular, pois simplesmente estes filhos de operários e camponeses que ajudaram a construir a Europa dos dias atuais, além do desemprego, se eles conseguirem sair dele, a possibilidade de ganhar um salário inferior a que ganhava um bom operário entre 1955-1975 é muito grande.

    Estas pessoas se sentem alijadas das decisões europeias, pois o protagonismo que tem nas organizações políticas e sociais diversas é nulo, são chamados a votar periodicamente e encontram somente partidos de direita ou de esquerda que não apresentam nenhuma solução para os seus problemas.

    Nenhum filho de operário ou mesmo de desempregado passará fome, ficará sem abrigo ou ficará sem escola, porém a chance de saírem deste círculo vicioso é muito baixa.

    Na realidade o estado de bem estar social deu o mínimo para que seus pobres não passassem necessidade nem que seus filhos aparentemente tivessem a mesma oportunidade da burguesia europeia.

    O voto no Brexit, o voto nos partidos de direita e no extremo o ingresso no Daesh é explicado por uma ruptura entre a sociedade de massas e o “establisment” que realmente manda nesta sociedade. Estes movimentos simplesmente adotam um discurso de contrariedade a tudo sem precisar provar nada, e quando são confrontados com intelectuais estes são vistos mais como inimigos como alguém que queira resolver o problema (e grande parte das vezes a identificação é real).

    A falácia da meritocracia está levando a ruptura das sociedades que apesar de apresentarem índices mínimos de qualidade de vida satisfatórios não estão dispostas a discutir profundamente uma política de inclusão social real e de azeitamento da mobilidade vertical, pois claramente se vê que políticos e burocratas estão nesta perversa e desleal concorrência com as categorias sociais inferiores, e talvez instintivamente garantam antes de mais tudo a preservação do status quo que lhe dá certa garantia a sua prole.

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