Subterrâneos da especulação financeira: o caso Kerviel, por Daniel Afonso da Silva

Subterrâneos da especulação financeira: o caso Kerviel, por Daniel Afonso da Silva

Paris, 24 de janeiro de 2008. Quinta-feira, fria, invernal. O cidadão René Ernest entrou com ação junto à procuradoria da república francesa contra a Société Générale. Acionário do banco, Ernest descobrira dispersa sorte de malversação financeira no interior da instituição. Sua acusação, sem nominação, pretendia desmascarar e responsabilizar o autor desses delitos que estavam para corroer a reputação do grupo financeiro dos mais importantes da França, da Europa e do mundo. 

Bem informado, ele vinha acompanhando com perplexidade o pasmo da diretoria do banco desde a sexta-feira, 18 de janeiro. Nesse dia, durante a análise de rotina no setor de mercados, foram descobertas anormalidades nas referências de risco.

Os sinais de alerta ficaram fortes. Os diretores foram informados. Trabalhos de investigação, instaurados. Apreensão irrestrita, também. No domingo, desde sexta-feira uma noite escura e sem fim, inspetores descobriram ordens de empenho, não autorizadas, de dezenas de bilhões de euros. Pura especulação de papéis financeiros. Majoritariamente de mercados futuros. Alguém do banco jogava, sem permissão, no cassino dos predadores das finanças. O montante empregado e dessa vez descoberto, em sendo perdido, era o suficiente para claramente devastar a credibilidade da Société Générale e de bancos irmãos. 7 bilhões de euros estavam para ser perdidos inapelavelmente em nada sendo feito. Restava, agora, impedir essa perda e a de muito mais.

O Banco da França e a Autoridade de Mercados Financeiros foram participados. Uma comissão de crise foi convocada. Um plano de salvamento, elaborado. Daniel Bouton, presidente-diretor-geral da Société, decidiu, com a comissão, trabalhar segredo. Queria, sem alarde, revender no mercado ao menos parte dos produtos tóxico-financeiros adquiridos sem permissão. E, por outro lado, na discrição, identificar o traidor, o causador daquela infâmia. 

Leia também:  Coronavírus: França inicia flexibilização gradual das restrições de bloqueio

Era ainda domingo, 20 de janeiro. As horas corriam e o temor aumentava. O suor era glacial. Os números, em dinheiro, das movimentações – entre perdas e possíveis perdas – ia deixando embasbacados os por muito experimentados alto-executivos do banco. 1,5 bilhão tinha evaporado até então. Do crepúsculo da sexta à alvorada do domingo. O desaparecimento de mais 2, 3 bilhões, mesmo com o plano de salvamento pronto para execução, seria difícil evitar.

Domingo vai findando. Segunda, terça, quarta-feira vão passando e o desespero, não. Por esses dias, rumores de catástrofe iam aumentando. Muita pressão para gestão da crise. O governo francês se inteira do problema. No dia 23, quarta-feira, Daniel Bouton vai render conta aos chefes do Elysée, de Matignon e de Bercy. Presidente Nicolas Sarkozy. Primeiro-ministro François Fillon. Ministra da economia Christine Lagarde. Nada de luz. No final do dia, a discrição e o segredo vão desaparecendo.

O conselho de administração da Société descobre plenamente as tramas. As anomalias de algum “insano predador” e as movimentações da comissão de crise. Daniel Bouton se põe a explicar. Intenta demissionar. Reconhece suas responsabilidades. Reconhece suas limitações. Quer sair. Não lhe permitem. Todas as altas-autoridades desejaram que ele, o presidente-diretor-geral, ficasse e administrasse, moral e emocionalmente, a crise. Daniel Bouton entendeu – ou se afugentou. Decidiu ficar. Mas, a essa altura, a pressão e incompreensão, inclusive de gente de fora do mercado, era imensa.

As horas iam fechando a noite da quarta-feira, 23, e, com ela, a convicção de se manter em silêncio. Enquanto René Ernest recorria à procuradoria, Daniel Bouton se preparava para anunciar a toda a sociedade francesa do ocorrido. Inglório explicar o injustificável. Pouco a se fazer. “La Société générale a été victime de malchance”, resumiu. Fraudes massivas e especulação financeira irresponsáveis. O causador: um traderrogue trader, no dizer dos britânicos. Seu nome: Jérôme Kerviel. Sua maneira de atuação: “il a acheté quand le marche baissait et vendu quand ça montait.” Dessa vez, última para ele, não funcionou.

Leia também:  Coronavírus: França inicia flexibilização gradual das restrições de bloqueio

As pessoas, em sua singularidade, envolvidas diretamente no caso, pouco importam. Mesmo sendo surpreendente uma única pessoa, o trader, conduzir a perda de 5 bilhões de euros e, assustadoramente, produzir a desilusão de milhares de pessoas mundo afora. Da mesma maneira, ficando muito constrangedor presenciar o presidente-diretor-geral de uma instituição com prestígio e história de mais de cem anos e mais de 130 mil funcionários no atual – que, na maioria, dão lhe dão apoio e querem sua permanência – ser constrangido pela violência das perguntas constrangedoras de jornalistas.

O caso, em si, sobressai. Denuncia a gravidade da crise de subprime. Mostra o quão distante pode chegar a letalidade da especulação de mercados financeiros.

Depois desse janeiro, de inverno francês, a percepção da loucura das finanças foi ganhando evidência. O horror anunciado ao longo de todo o ano de 2007 passou a rondar diuturnamente as casas. A agonia e a morte do Lehman Brothers – conduzidas do 2 ao 16 de setembro de 2008 – promoveriam tamanho desespero e desesperança que, de imediato, seriam conectados ao desespero e à desesperança causados pela quebra de 1929.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

4 comentários

  1. Por que as frases em frances

    Por que as frases em frances não foram traduzidas? Eu, hein. Que coisa pedante.

     

    Luciana Mota.

  2. Inaceitável

    O efeito dos descalabros praticados por estas instituições se refletem até na fome dos países pobres. E é absolutamente inaceitáel que não haja divulgação sistemática e constante desses crimes internacionais . A corrupção nesse nível e o compadrio desses agentes deveria ser punida com a pena de morte , pelo dano causado à ordem mundial .

  3. snipetes

     

     

    SocGen Bosses Knew ‘Rogue Trader’ Kerviel Was Taking …

    http://www.zerohedge.com/…/socgen-bosses-knew-rogue-trader-kerviel-was-ta… May 19, 2015 – Bosses at French banking giant Societe Generale were aware of the activities of “rogue trader” Jerome Kerviel, a top detective working on the …

     

    Rogue trader Jerome Kerviel leaves prison less than five …

    http://www.telegraph.co.uk › Finance › News by Sector › Banks and Finance Sep 8, 2014 – French rogue trader of the Societe Generale bank, Jerome Kerviel, … Convicted rogue trader Jerome Kerviel has walked free less than five …

    4 things I learned from Société Générale

    We still don’t know how the infamous French trader managed to build a $72 billion position on the sly, but we have gleaned a few other useful tips.

    http://archive.fortune.com/2008/02/01/news/international/socgen_whatilearned.fortune/index.htm

    2008 Société Générale trading loss

    From Wikipedia, the free encyclopedia  

    In January 2008, the bank Société Générale lost approximately 4.9 billion closing out positions over three days of trading beginning January 21, 2008, a period in which the market was experiencing a large drop in equity indices.[1] The bank states these positions were fraudulent transactions created by Jérôme Kerviel, a trader with the company. The police stated they lacked evidence to charge him with fraud and charged him with breach of trust and illegally accessing computers. Kerviel states his actions were known to his superiors and that the losses were caused by panic selling by the bank

    https://en.wikipedia.org/wiki/2008_Soci%C3%A9t%C3%A9_G%C3%A9n%C3%A9rale_trading_loss

    The Strange Case of Société Générale & Mr Kerviel – ORB

    orb.essex.ac.uk/ec/ec372/lecture_notes/SocGen_Kerviel_case.pdf  

    The Strange Case of Société Générale & Mr Kerviel. This note outlines aspects of the SocGen scandal (January 2008) relevant for EC372. The main facts …

     

    Scholarly articles for kerviel case study

    Case studies of an insider framework – ‎Bishop – Cited by 26Business ethics: Case studies and selected readings – ‎Jennings – Cited by 77The return of the rogue – ‎Krawiec – Cited by 65 

    MVE 220 – Reading Project Jerome Kerviel

    http://www.math.chalmers.se/…/Reading%20Project%20Jerome%20Kerviel.pd…  by T Engqvist – ‎2012

    Nov 21, 2012 – Some of Kerviel’s teachers from the universities he studied at have said …. Générale is responsible for what happened in the Kerviel case, and.

     

     

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome