A mardita guerra do guano de Bolsonaro na Amazônia

Aqui mesmo no GGN teci alguns comentários sobre os “campos minados” que transformam a política numa impossibilidade https://jornalggn.com.br/analise/boaventura-de-sousa-santos-e-os-campos-minados-brasileiros/. Volto ao assunto, pois me parece evidente que a dinâmica política brasileira foi totalmente condicionada por esse fenômeno.

A esquerda lança campos minados virtuais para impedir o avanço da direita. A direita faz o mesmo, com igual ou maior eficiência. Todavia, em algumas oportunidades os campos minados são lançados dentro do próprio campo da esquerda. Isso ocorre quando uma facção quer atrapalhar o caminho da outra ou reduzir sua capacidade de se movimentar no terreno. Algo semelhante ocorre na direita.

Com ajuda do centrão, a oposição conseguiu criar o Fundeb. Bolsonaro tentou esvaziar essa vitória parlamentar transferindo dinheiro da educação para outro tipo de despesa.

Apesar dos abraços cordiais trocados com Dias Toffoli, o presidente da república luta desesperadamente para romper o cerco judiciário sobre membros de sua família. Cada vez que obtém uma pequena vitória ele é obrigado a ceder espaço ao inimigo ou a recuar em virtude de um novo escândalo.

A adesão dos militares ao governo é incerta e vacilante. O centrão pode ser comprado, mas tem sua própria agenda e a faz prevalecer quando ela entra em conflito com os desejos do governo. O apoio dos evangélicos ao governo não é espiritual/incondicional e sim interesseiro/materialista. Quando não são atendidos os pastores bolsonaristas atacam ferozmente o mito.

Até Sara Winter jogou a toalha após ver Bolsonaro abraçar o Ministro Dias Toffoli. Todavia, como ela foi desmonetizada e não tem qualquer qualificação profissional que a permita auferir renda é possível suspeitar da sinceridade dela. Ao ver o vídeo fiquei com a impressão que Sara Winter interpretou “Me dá um dinheiro aí” choramingando.

As rachaduras dentro do PSOL por causa das doações feitas por Armínio Fraga são visíveis. O PT se apresenta mais coeso. Mas isso é evidentemente uma ilusão de ótica. A aproximação com os evangélicos sugerida por Lula aumentou a tensão dentro do partido.

Interditado para a política em virtude da pandemia, o espaço geográfico cedeu lugar ao ciberespaço em que os conflitos podem ser criados e se prolongar ao infinito. Situação, oposição e justiça não têm e nunca conseguirão ter controle total sobre essa arena https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/as-novas-ante-salas-do-poder/.

O protagonismo do judiciário, defendido com argumentos bizantinos por alguns Ministros o STF se transformou numa maldição. Todas as disputas políticas resultantes de decisões governamentais ou parlamentares é automaticamente submetida à apreciação judicial pelos partidos. O MPF age ora como partido dos procuradores ora como aliado desta ou daquela facção política.

Se o Judiciário profere uma decisão em favor do governo a esquerda cai de pau nos juízes. Caso a decisão seja favorável à oposição os bolsonaristas é que atacam os membros do Judiciário.

O Twitter foi transformado num termômetro das disputas políticas. Quem consegue dominar os Trending Topics fica com a certeza de que tem mais penetração política. Essa ilusão pode ser especialmente perigosa. Me parece evidente que a guerra irregular urbana que está sendo gestada por causa do desemprego, da fome e da carestia dos alimentos não poderá ser resolvida em 280 caracteres reproduzidos à exaustão por bots ou militantes.

Quando autorizou a exportação dos estoques reguladores o governo provavelmente sabia que estava criando conflitos que serão resolvidos no mundo real por tropas policiais ou militares. Até o presente momento Bolsonaro tem a lealdade dos comandantes das PMs e do Exército. Assim que os tumultos começarem a ser violentamente reprimidos a possibilidade do Judiciário interferir na política vai desaparecer. Com as tropas esmagando famintos nas ruas, decisões judiciais em favor da preservação da dignidade humana ficarão tão irrelevantes quanto os Twitters de outra vítima evidente das ilusões de poder criadas pela mídia. Refiro-me obviamente a Sérgio Moro.

A derrota de Donald Trump ou uma reação enérgica contra a devastação da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal e da Mata Atlântica são elementos evidentes de complicação. A economia brasileira está morrendo e nada indica que o caminho escolhido por Bolsonaro é o mais adequado para melhorar a imagem do nosso país.

Enquanto meditava sobre essas questões lembrei-me de um dos meus livros preferidos: Guerras Estúpidas, editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 2013. Os conflitos que foram narrados por Ed Strosser e Michael Prince resultaram num imenso desperdício de dinheiro, de material bélico e de vidas humanas sem proporcionar os ganhos políticos e econômicos desejados.

O episódio mais tragicômico contado no livro é sem dúvida a Guerra do Pacífico (capítulo 5 do livro, páginas 89-108). Em 1879 Chile, Peru e Bolívia entraram em guerra pelo controle da região onde existia guano. Naquela época a merda solidificada dos pássaros marinhos era um valioso insumo natural utilizado para a produção de fertilizantes e explosivos. Ao fim do conflito que destroçou econômica e politicamente os três países, o valor do guano entrou em declínio por causa da fabricação em larga escala de dinamite e de fertilizante sintético.

É fácil ridicularizar as decisões políticas e militares tomadas pelos líderes políticos chilenos, peruanos e bolivianos. Todavia, e isso é o que merece muita atenção, tudo o que eles fizeram parecia perfeitamente justificável em virtude dos fins econômicos desejados. Governando países periféricos miseráveis que dependiam da exportação de recursos naturais, distantes dos grandes centros europeus produtores de ciência, eles não podiam supor que o guano, uma substância que era muito valiosa, perderia totalmente seu valor em virtude dos progressos da química industrial.

O campo de força político-econômico em que Chile, Peru e Bolívia ficaram presos em meados do século XIX era uma ilusão. Também é ilusória a crença de que é preciso devastar a Amazônia e ocupá-la com fazendas, pastos, aquartelamentos militares…

Se as florestas brasileiras desaparecerem por causa do temor dos militares ou da ganância dos grileiros, madeireiros e mineiros ligados a Bolsonaro o resultado será um previsível aumento do efeito estufa. O acréscimo de temperatura acarretará uma aceleração da elevação do nível dos oceanos. E em algumas décadas a bacia amazônica será transformada num imenso lago raso de água salgada sem qualquer valor imobiliário ou utilidade econômica.

Não só isso. Enquanto estiver em guerra com as árvores, o Brasil sofrerá as consequências inevitáveis: diminuição de investimentos, sanções diplomáticas, embargos à exportação de produtos oriundos das regiões devastadas, etc… Assim como os chilenos, peruanos e bolivianos não ganharam nada se matando por causa do guano, os brasileiros perderão o pouco que conquistaram ao devastar a floresta e exterminar os povos indígenas e povos ribeirinhos.

Há séculos esses contingentes populacionais isolados exploram a floresta de maneira sustentável. O que eles exigem em troca do governo federal? Nada ou muito pouco. Mas os benefícios diplomáticos que eles proporcionam ao Brasil é imenso. Enquanto preservar a floresta nosso país poderá contar com a boa vontade dos europeus e dos norte-americanos. E isso não é pouco, já que nossa maior ambição tem sido aumentar as exportações para Europa e para os EUA.

O Exército deveria frear de vez por todas as ambições ecocidas e genocidas de Jair Bolsonaro. Caso contrário, ele acabará envolvido numa guerra tão dispendiosa, trágica e inútil quanto a guerra do guano.

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